O senso comum por trás do “bandido bom é bandido morto”

antares2

Quando todos pensam igual, ninguém está pensando

Water Lippman

O senso comum é uma praga. Ela se alastra fora do controle e se estabelece como verdade dada, sem necessidade de reflexão, ainda mais em sociedades cuja média da população tem o raciocínio tatibitati. Ele faz as pessoas se sentirem pertencentes a um grupo, é acolhedor saber que tantas pessoas pensam igual a gente em assuntos importantes, e também oculta uma realidade bem diferente da que anuncia.

De acordo com recente pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), metade da população pesquisada em 84 municípios de mais de 100 mil habitantes concorda com a afirmação típica do senso comum brasileiro: “bandido bom é bandido morto”. Foram ouvidas 1,3 mil pessoas.

Seria compreensível se a metade que concorda com essa afirmação fosse membro das classes mais altas da sociedade. Pois uma das funções do senso comum é jogar uma cortina de fumaça nos fatos e propor soluções inadequadas para os problemas. O fato é que a violência brasileira, que se torna a fábrica de bandidos com produção em série porque inserida numa sociedade capitalista onde a posse de bens determina o status social, é fruto direto do imenso abismo da desigualdade sócio-econômica, que coloca uns poucos vivendo numa bolha de consumo e bem-estar enquanto joga milhões na indigência e na falta de perspectivas. Então para essas classes abastadas, qualquer medida que algum governo proponha para apenas atenuar essa desigualdade, como uma bolsa-família ou cotas para Universidades, os fazem ir pra rua protestar e bater panelas em suas varandas. Muito melhor que a sociedade continue apoiando o massacre de negros e pobres com base na falácia de que matar bandidos é a solução.

E o lamentável de tudo, mas também esperado, é que as próprias vítimas em potencial dessa estratégia de matança policial apoiem a medida. São pessoas, em sua maioria, sem uma formação escolar adequada, sem hábito de leitura, sem capacidade de crítica e argumentação, e portanto, alvos preferenciais do senso comum, que não passa de uma forma confortável de ter opinião pra tudo sem ter que saber de nada.

Mas poderia ser pior. Não sei qual foi o questionário aplicado na pesquisa que levou à conclusão de que metade da população apoia a ideia de que bandido bom é bandido morto, mas parece que o próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública, órgão não governamental ligado a policiais, quis reforçar essa ideia. Tudo é a forma e o que se pergunta. Pesquisas não são absolutas. Seus métodos podem levar a resultado A ou B. Perguntar, por exemplo, – se foi o caso, como parece – “Você acha que bandido bom é bandido morto?” numa pesquisa dessas é o mesmo que perguntar “Deus ajuda quem cedo madruga?”, ou “O trabalho dignifica o homem?”.

A polícia brasileira é a que mais mata no mundo inteiro. E não só bandidos, como suspeitos e até inocentes. Os poucos que conseguem escapar estão lotando as penitenciárias. Foram 11.197 mortes causadas por policiais entre 2009 e 2013, ano em que as polícias civil e militar mataram seis pessoas por dia em média no Brasil, de acordo com o Anuário produzido pelo próprio FBSP. Então é caso de se pensar: e se a pergunta feita na pesquisa fosse diferente? Por exemplo: Há trinta anos a política de segurança pública no Brasil estabelece a guerra e a matança como solução para a violência. Você se sente mais seguro com essa medida?

Enquanto o senso comum imperar na sociedade brasileira, vamos continuar defendendo ações que só reforçam o quadro de violência. A muita gente interessa que se continue defendendo falácias como a do bandido morto, porque dá a falsa sensação de que matando um bandido, resolve-se o problema. E se alguém for contra isso, por exemplo evocando a questão essencial dos Direitos Humanos, ainda é obrigado a ouvir novas pérolas do lugar-comum, como a de que “quem não apoia a medida defende os bandidos”, e aí surgem uma série de outras falácias derivadas como “direitos humanos para humanos direitos”, “tá com pela leva pra casa”, “e se fosse com a sua mãe?”, coisas realmente tristes e patéticas pela forma como se repetem. Mas basta uma pequena reflexão de 2 minutos para se perceber que os bandidos tem sido mortos há décadas, e a sociedade está cada vez mais acuada. Está na hora de propor novas soluções e abandonar as medidas fáceis e enganosas.

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