Intervenção russa na Síria pode inaugurar um novo cenário geopolítico internacional

Desde que as forças militares russas entraram de forma mais incisiva no apoio ao governo sírio contra as entidades terroristas no país, no final de setembro, alguns aspectos da geopolítica internacional ficaram expostos de forma um tanto esclarecedores, especialmente a atuação do Ocidente na região.

Há um ano os EUA lideram uma coalizão de fachada contra os terroristas na guerra civil síria, especialmente os do Estado Islâmico (ISIS), sem muita efetividade. Na verdade, chama atenção a incompetência em atingir alvos militares na mesma proporção em que se atingem alvos civis. Os russos, por outro lado, em menos de duas semanas de operações, já destruíram 40 por cento da infraestrutura do ISIS na Síria.

Afirmações deixam claro: prioridade do Ocidente é queda de Assad

O mais revelador da entrada russa no conflito é a forma como a máscara de algumas figuras importantes da política internacional vem caindo pelo mundo, mostrando que o Ocidente nunca teve, de fato, vontade de atacar os terroristas, mais do que derrubar o governo de Bashar al-Assad. John McCain, senador norte-americano e presidente do Comitê das Forças Armadas do Senado dos Estados Unidos, chegou a afirmar sem nenhum pudor que “os EUA devem atacar instalações de importância para o regime sírio em resposta aos ataques aéreos da Rússia”. Ou seja, além de indiretamente cooperar com rebeldes terroristas, sugere um atentado contra um governo legitimamente instituído com 70 por cento de aprovação do povo. Ainda sugeriu o oferecimento de armamentos ao governo golpista e reacionário da Ucrânia como forma de responder à atuação russa no desmantelamento dos grupos terroristas.

assad e putin

O próprio ilegítimo presidente ucraniano, Pyotr Poroshenko teve a coragem de dizer que os ataques russos a instalações militares dos terroristas do ISIS representam “a destruição da ordem mundial”.

Por trás dessas revelações até certo ponto surpreendentes, estão as verdadeiras intenções do Ocidente na região, fomentando grupos dissidentes a derrubarem governos que não se alinham às diretrizes dos Estados Unidos. É o caso do presidente sírio Assad, que preside um país numa posição geograficamente estratégica para o escoamento do petróleo do Oriente Médio pelo Mediterrâneo.

Para os EUA, ISIS não merecem sanções na ONU

Muitos desses terroristas, chamados de “moderados” pela Casa Branca e que atuam com armas na Síria para derrubar o governo, recebem apoio direto dos Estados Unidos e da Europa. Isso que a participação russa no confronto em apoio ao governo legítimo de Assad ajudou a desmascarar – se é que já não estava óbvio. Uma dessas ações reveladoras se deu quando os Estados Unidos bloquearam a proposta da Rússia de incluir o grupo terrorista Estado Islâmico na lista negra de sanções do Conselho de Segurança da ONU. Não há justificativa confessável para tal impedimento. Nem a vontade de assumir que o ISIS é visto com utilidade pela Casa Branca na intenção de derrubar Assad do poder.

Esse ano, o ex-oficial de contraterrorismo da CIA e do Comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano, John Kiriakou, assumiu publicamente que as armas que o governo dos EUA envia para os terroristas “moderados” vão parar nas mãos do ISIS. Segundo ele,

[O Exército Livre da Síria, grupo armado que tenta derrubar Assad do poder e considerado “moderado” pelo Ocidente] não ajuda em tudo. Apoiando-os só pioraram as coisas. A maioria das armas norte-americanas que foi enviada para eles só encontrou seu caminho nas mãos do Estado Islâmico. O Congresso pagou por armamento para o Estado Islâmico”

Em 2014, o Congresso norte-americano destinou meio bilhão de dólares ao grupo para criar uma força de mais de 5.000 homens até o final de 2015 para atuar contra o governo sírio. Com a desculpa de treinar “moderados” para combater o ISIS, na verdade prepara um grupo terrorista para combater o presidente sírio.

Uma nova ordem mundial a caminho?

Se a Síria conseguir derrotar os terroristas apoiados pelo Ocidente com a ajuda da Rússia, o que é bastante provável, um novo cenário estará esboçado na geopolítica internacional. A decadência diplomática da Europa e dos Estados Unidos com suas retrógradas políticas belicosas com interesses econômicos mal disfarçados daria assim lugar a novas potências em ascensão no protagonismo mundial, como a própria Rússia e a China.

Relembrando o presidente Ucraniano, a intervenção da Rússia no conflito “destrói a Ordem Mundial”. Mas se a “ordem mundial” é essa que vigorou desde a Guerra Fria, com países capitalistas promovendo atentados a governos eleitos legitimamente, golpes patrocinados de fora, assassinatos de líderes políticos, patrocínios de grupos terroristas e ingerência sobre assuntos internos de outros países, então que desmorone essa velha ordem mundial. Que venha uma Nova Ordem Mundial.

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