Assim caminha a humanidade: para pior

Pensopinando é um dos blogs que eu gosto de ler na internet. Mantém a tradição de postagens opinativas e de bom nível, como era na fase áurea da blogosfera, por volta de 2008-2011.

Recomendo bastante a leitura, porque fomenta o debate de assuntos importantes, apesar de nem sempre concordar com as postagens. Como no caso da última: Assim caminha a humanidade. Por isso resolvi fazer uma postagem para contrabalançar algumas das afirmações do autor naquele texto.

O texto afirma que, apesar das críticas alarmantes que muitos no mundo vêm fazendo sobre o momento atual da história do homem, principalmente com relação à desigualdade social, a humanidade está em plena evolução material, que será capaz, em algum momento futuro, de trazer paz e bem estar para todos.

Ele afirma que a desigualdade social não é um mal em si, mas a “pobreza extrema” e a falta de oportunidades. Mas ele não menciona que a geração de desigualdade extrema é aonde sempre esse sistema vai levar inexoravelmente, apesar das correções esporádicas promovidas pelo Estado através de programas sociais. A busca de lucros por parte dos grandes capitalistas é uma tarefa incessante, não existe um ponto em que os empresários digam: “já acumulei o suficiente, é hora de parar”. Não. Isso não existe. E como os recursos e a produção de riqueza no mundo são limitados, quanto mais um pequeno grupo acumula, mais falta faz para o resto da população. Essa é a marca indelével do sistema. E é o que mostra claramente os números de diversas pesquisas que apontam que apenas 1 por cento da população mundial já tem uma riqueza equivalente a metade do planeta. E a tendência disso, se nada for feito, é piorar, e não melhorar.

Talvez não sejamos capazes de sentir na pele o problema grave que isso representa, porque ainda vivemos, quase certamente, nas periferias da bolha de consumo, onde alguns de nós pode usufruir de algum tipo de conforto material, o que nos dá a falsa ilusão de bem-estar. Mas logo logo estaremos expulsos dessa bolha, indo engrossar as fileiras dos 50 por cento, porque a sanha de riqueza dos 1 por cento não acaba. Basta projetar uma progressão aritmética para os próximos anos para podermos entender isso.

A Revolução Industrial foi benéfica por si mesma?

Outra questão levantada no texto é a comparação entre a “miséria” da época pré-industrial com a pós industrial.

Hoje, podemos dizer que a Revolução Industrial foi benéfica, mas para as cidades que se localizam no centro do capitalismo mundial, notadamente na Europa, beneficiadas pela exploração colonial num primeiro momento, e pelo neocolonialismo e imperialismo já na era industrial. Em locais que formam a periferia do sistema, em especial a África, o Oriente Médio e a América Latina, ficou o legado de pobreza, violência e desigualdade que só não atinge as citadas bolhas de consumo, rodeadas de miséria que geram a violência das cidades.

Isso para não mencionar as origens do próprio industrialismo, onde os trabalhadores da própria Europa sofreram pela exploração cruel de jornadas de trabalho de 14 horas, com mulheres grávidas e crianças operando máquinas pesadas com capatazes dando-lhes chicotadas em qualquer mera distração, com um salário aviltante que garantia apenas a mínima subsistência. Essa era a Revolução Industrial.

Dois fatores contribuíram para amenizar essa situação: os trabalhadores que se organizaram em sindicatos num primeiro momento, reivindicando melhores condições de trabalho e ameaçando com greves, e o medo do patronato com a ascensão da União Soviética, que mostrou ao mundo um outro sistema em que os trabalhadores estavam no protagonismo do trabalho. Isso gerou a famosa Carta del Lavoro de Mussolini, que regulamentou o trabalho dos italianos e amenizou o risco de comunização dos trabalhadores daquele país, que aqui Vargas copiou na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), uma forma de apaziguar os ânimos da luta trabalhadores x patrões e garantir direitos.

Pouco antes da Revolução Industrial, as condições dos camponeses já não eram tão ruins quanto no auge da Idade Média, de modos que não podemos falar de “miséria” pré-industrial. Muitos historiadores já compararam as condições de vida de um camponês na França, por exemplo, com a um operário inglês do século XIX, e podemos perceber que o camponês tinha uma vida muito menos sacrificante e “miserável” do que seu colega que teve que migrar para a cidade. Portanto a comparação não procede.

 

Mais ou menos violentos hoje?

A violência endêmica que o autor atribui ao passado para comparar com o presente supostamente menos agressivo não tem relação com a pobreza, a desigualdade social ou o sistema econômico vigente na época. Porque é uma época pré-capitalista, onde os bens materiais não definiam o lugar do cidadão na sociedade, e sim o nascimento. É preciso lembrar que a violência era institucionalizada, praticada muito mais pela Igreja e pelo Estado do que pela população. Depois do Iluminismo, essa situação foi, aí sim, amenizada, mas o capitalismo transportou a violência estatal para as camadas mais baixas da sociedade, apesar de teoricamente, o Estado ser o portador do monopólio da força.

Por quê? Porque o mundo passou a ser regido pelo status baseado na posse de bens materiais. Quanto maior a desigualdade em regiões com essa mentalidade, maior a violência entre a população. Por isso, ao contrário do que o autor do citado texto afirma, quanto mais alguém tem posses e dinheiro, menos seguras estarão suas casas. E daí vemos segurança particular, sistema de câmeras, muros cercados e eletrificados… Isso nada mais é do que uma falsa sensação de segurança e bem estar na sua bolha.

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A evolução científica mostrada no texto é um fato, realmente. Mas até nisso há uma desigualdade. Grandes países capitalistas transformam suas descobertas em patentes, de modos que o restante da humanidade não possa usufruir de seus benefícios até que paguem (nem todos os países tem essa condição) ou pelo menos até que elas estejam já defasadas. Sem falar de coisas simples, como um exame de mamografia, recentemente mostrada numa reportagem de TV, em que, em pleno século XXI, só é acessível apenas para a metade das mulheres brasileiras. E assim é em todo o mundo periférico do sistema capitalista.

Como se vê, não é possível ter nenhum tipo de otimismo com relação a esse sistema que tem no seu DNA o fomento cada vez maior da desigualdade; que destrói o meio ambiente como se os recursos naturais fossem infinitos; que joga bilhões de pessoas na pobreza; 1 por cento com a riqueza e alguns poucos na ilusão de suas bolhas de consumo.

Se não mudarmos o sistema, não teremos um futuro tão belo e utópico como o autor do texto foi capaz de imaginar.

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