O paradoxo dos carros

CARROS EM BANGU

Primeiro, o sistema capitalista e sua poderosa máquina de propaganda ideológica/consumista te induz, todos os dias, a ostentar algum símbolo de distinção social. Então você vai e compra um carro, um dos mais emblemáticos destes signos de status (na cabeça do brasileiro médio). O problema é que muitas outras pessoas também pensaram a mesma coisa que você, e então a cada dia os veículos entopem tanto a cidade, que a velocidade média de deslocamento nas grandes cidades, em pleno século XXI, é menor do que as passadas de uma galinha – estamos mais lentos hoje do que antes da invenção do automóvel, um tremendo paradoxo. Mas não é o único quando o assunto é carro.

Segundo, o mesmo sistema que te diz que ter um carro é bom, reboca seu veículo se você não tiver onde guardá-lo. Mas onde você o guardaria, se cada vez mais os espaços urbanos estão sendo tomados por construções e – claro – mais e mais veículos? Outro paradoxo.

Esse é o dilema que anda ocorrendo em regiões do Rio de Janeiro, especialmente na Zona Oeste. Os reboques da prefeitura têm passado o rodo em carros estacionados nas ruas e em locais proibidos, deixando os proprietários indignados. Eles, os donos, esqueceram que ter um automóvel é só uma parte da questão, a outra é justamente ter onde guardá-lo. Mas isso a publicidade não lhes disse, claro.

A coisa é tão grave que até o político manda-chuva da região de Bangu, Coronel Jairo, tratou de distribuir um comunicado alertando aos seus eleitores do bairro que não tem nada a ver com isso. Em vez de tomar partido da ordem urbana e da utilidade pública, tomou o partido dos motoristas-eleitores, lógico.

Pois eu acho que a prefeitura tem mais é que rebocar mais carros e limpar as ruas cada vez mais.  No meu prédio mesmo, cujo portão é bem próximo da beira da rua, um morador resolveu transformar a entrada do edifício em seu estacionamento privativo, atrapalhando as entregas dos moradores, chegada de ambulância e até mesmo a ida e vinda dos pedestres. Se ele não tem garagem, o problema é dele, e ninguém precisa se sujeitar aos caprichos consumistas de ninguém. Tome reboque.

Todos os dias, uma média de 300 mil veículos são despejados nas ruas pelas montadoras. O colapso é iminente. E aí mais um paradoxo: construir carro é bom para a economia – eles dizem – pois garante milhares de empregos no setor. Mas o trânsito parado por engarrafamento todos os dias emperra a mesma economia e gera milhões em prejuízos e desperdícios. E então o governo gostaria de incentivar o transporte público, mais eficiente, mais rápido e mais limpo. Mas os empresários dizem que teriam que demitir muitos pais de família se as vendas caíssem. A sociedade fica refém de uma chantagem. Além disso a classe-média não quer se misturar com o povão e abrir mão do seu símbolo de status social. Ela prefere levar 2 horas e meia da Zona Sul até o Centro dirigindo seus veículos cada vez mais possantes (que não têm espaço onde despejar toda aquela potência, e tome paradoxo)  do que ter que pegar um maldito ônibus (coisa de pobre).

Pois fica aqui o alerta: antes de ser seduzido pela publicidade do consumo e da distinção social proporcionada pela propriedade de um automóvel, pense bem se você não vai ser mais um responsável por entupir as ruas e estradas da sua cidade com mais um trambolho motorizado poluidor, que de forma contraditória, é mais lento do que uma carroça puxada a cavalo do século XIX. E ainda contribuir com o lucrativo negócio dos reboques.

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