1 de abril de 2015

1964 e 2015: por que eles têm medo que o brasil vire uma “nova cuba”

Bolsonaro celebra Golpe

Jair Bolsonaro celebra o Golpe um dia antes com fogos e faixa em Brasília

Há exatos 51 anos, a luta de classes e os conflitos sociais atingiam o ápice no Brasil. Na madrugada do dia 1º de abril de 1964, o general Olympio Mourão Filho conduzia as tropas do Exército, sediadas em Juiz de Fora, para depor o presidente João Goulart. A justificativa para um atentado tão grave contra a democracia foi salvar a pátria – e, em um nível mais elevado, até a “civilização judaico-cristã ocidental” – do “perigo comunista”. Mas por trás dessas supostas medidas heroicas, existem razões muito mais pragmáticas.

O Golpe preventivo

Desde 1961, com a renúncia de Jânio Quadros da presidência da República, os trabalhadores vinham se organizando nas cidades e nos campos em busca de direitos. Para as elites nacionais, herdeiras da ordem conservadora em que seus privilégios são considerados intocáveis há séculos, qualquer movimento que ameace essa condição deve ser combatida em todas as frentes. Foi assim que o empresariado e o patronato primeiro se organizaram no começo dos anos 60 em instituições que tinham como fachada estudar a situação do país e propor reformas dentro do âmbito liberal (mas um liberalismo sui-generis à la brasileira, em que as liberdades econômicas convivem com um exacerbado conservadorismo, o capitalismo “meritocrático” convivendo lado a lado com o paternalismo). 

Em março de 1964 João Goulart via-se no meio de uma crise entre os setores conservadores e progressistas. No famoso Comício da Central, em 13 de março, ele finalmente decidiu pelo lado progressista, propondo medidas que seriam o pontapé inicial para as Reformas de Base. Nesse ponto, as elites descobriram que a pressão sobre o governo não faria mais efeito, teriam que dar a sua última cartada: um golpe.

O que Cuba tem de tão ameaçador?

Em todo aniversário do Golpe, os oficiais se reúnem no Clube Militar para celebrar o heroísmo daqueles que salvaram a pátria – na verdade, daqueles que primeiro cercearam as esperanças do povo e depois perseguiram, torturaram e mataram aqueles jovens universitários que lutaram contra a tirania. Jair Bolsonaro é a face mais caricata hoje desse movimento, soltando fogos e estendendo faixas em Brasília, agradecendo aos militares que não deixaram o Brasil virar uma nova Cuba. Mas o que exatamente eles tanto temem de Cuba?

Certamente não é a falta de liberdades. Isso fica patente na medida em que a ditadura militar que as classes dominantes fomentaram no Brasil exerceu uma censura e uma perseguição política que jamais foi vista neste nível na ilha caribenha. Ou seja, para as elites, a democracia é apenas um detalhe: souberam conviver perfeitamente durante duas décadas no Brasil sem democracia e sem liberdades, e viveriam até mais, se pudessem, desde que seus privilégios fossem mantidos.

Na verdade, o que Cuba tem e que eles tanto temem, é uma educação pública de qualidade para todas as pessoas, especialmente negros e pobres; serviços médicos de primeira qualidade; uma desigualdade social ínfima, onde não há ricos, tampouco miseráveis; uma participação social na política como pouco se vê no mundo; nenhum latifúndio que toma as terras dos camponeses e os emprega em trabalhos semi-escravos; e por fim, uma sociedade em que o ser humano por si vale mais do que a família em que nasce, a herança ou os contatos que alguém possa ter para favorecimento pessoal. É isso que as elites brasileiras e as classes médias cooptadas temem de Cuba. Não a suposta falta de liberdade. 

Nesse sentido, podemos perceber claramente até que ponto as elites brasileiras podem chegar quando a busca por mais direitos, menos desigualdade e mais democracia ameaça seu status. Primeiro mentem, fazendo uso dos meios de comunicação que lhes servem para propagar uma ameaça ridícula de perigo comunista; depois deixam de lado as diferenças pontuais entre seus membros para se organizar em defesa de seus interesses de classe; apelam para o sentimento religioso da população, alegando que os inimigos ameaçam “os pilares da civilização judaico-cristã” (se os pobres infelizes desses país pensassem, talvez eles próprios seriam os primeiros a derrubar tais pilares, por serem a fonte da resignação perante a desigualdade social mais perversa do mundo); e por fim, chegam ao extremo de derrubar o governo democraticamente eleito para salvaguardar seus privilégios.

Tudo isso seria meramente uma grande lição da história, que deveríamos entender para corrigir, mas desgraçadamente, o próprio regime militar, que perdurou 21 anos no poder, também violentou o sistema de ensino brasileiro. A herança maldita desses tempos sombrios pode ser sentida até hoje, quando a saudade da ditadura permeia o senso-comum. O filme se repete hoje quando as classes médias cooptadas pela ideologia das elites vão às ruas pedir Impeachment e golpe militar, bem no momento em que a sociedade, meio que desarticuladamente ainda, grita por mais direitos e por justiça social, tal como em 64.

O inusitado disso é que o atual governo, nem de longe, mas nem de longe mesmo, pode ser acusado de comunista, ou de sequer propor reformas que façam cócegas em seus privilégios. Mas a burguesia brasileira é tão egoísta, que basta a mera ascensão social de miseráveis ao status de consumidores primários para que o alarme soe.

Neste aniversário do Golpe Militar de 64, que o cidadão brasileiro possa refletir sobre o medo irracional do comunismo. Certamente ele vai chegar à conclusão que essa fobia tem sido fomentada há décadas para ocultar os interesses de classe das elites brasileiras. E que a “ordem social”, tal como a vemos no dia a dia, significa apenas o conformismo dos injustiçados.

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