Andressa Urach e a conversão pelo susto

Andressa lendo Macedo

Os religiosos muitas vezes apresentam uma espécie de “argumento” para confrontar o ceticismo orgulhoso e incômodo dos ateus: na hora de um grande perigo, todo mundo se borra todo de medo de morrer e aí pede a deus pela sua vida, invariavelmente. A partir daí, se morrer, morreu, e ninguém vai ligar. Mas se sobreviver, todo o mérito, honra e reconhecimento vão para o nosso glorioso Jesus Cristo. A falácia pode ser resumida no seguinte bordão: “Ninguém é ateu quando o avião está caindo”.

Deus chamou depois do hidrogel na bunda

Apesar da ilógica dessa trapaça intelectual ser facilmente desmontável, recentemente aconteceu um caso – dentre alguns outros – que parece reforçar tal tipo de ideia: Andressa Urach, pseudo-celebridade do momento, depois de uma malsucedida cirurgia estética nas poderosas nádegas vice-campeãs mundiais num concurso, revelou ter-se convertido a uma seita neopentecostal depois de estar entre a vida e a morte. Imagens da musa lendo o livro do Bispo Macedo no leito do hospital serviram para os evangélicos se convencerem ainda mais de que, na hora do sufoco, todo mundo se rende a deus.

Mas é claro que não é bem assim que a banda toca.

A história da “revelação” que levou Urach à conversão é repleta de fantasias e viagens, coisa muito comum nos testemunhos. E antes de mais nada, todos nós vivemos numa cultura impregnada de religiosidade, misticismo, crendices, mitos e outros pensamentos mágicos. Querendo ou não, muitos de nós carregamos essa influência em nossas vidas nas menores atitudes, apesar de muita gente, como a própria Urach antes da conversão, viver uma vida “mundana” – o que muitos crentes (e as próprias pessoas em si) interpretariam como sendo “afastada de deus”. São os que às vezes chamamos de “católicos não praticantes”, ou, traduzindo, religiosos da boca pra fora por conveniência social.

Quando alguns desses afastados, desviados e desinteressados passam um grande perrengue em suas vidas, automaticamente vêm em suas mentes a influência da religião. Quando se salvam, sentem-se em dívida de gratidão com as entidades sobrenaturais as quais foram ensinadas a crer, e se sentem induzidas a voltar ao seio da religiosidade com grande sentimento de culpa. Tem sido assim durante muitos episódios de acidentes, e os próprios religiosos não se envergonham em salientar que a sua igreja ganhou mais um adepto pelo susto e não pela reflexão pensada racionalmente (até porque isso seria um grande paradoxo).

Deus não existe. Ateus se converteriam a algo que não existe?

Mas o grande equívoco é pensar que pessoas totalmente céticas ou alheias à religião também seriam atraídas por estes mecanismos toscos de cooptação. Apesar de estarem inseridas no mesmo meio cultural dos religiosos – e, portanto, sofrerem as mesmas influências – verdadeiros céticos já se livraram da crença nesses tipos de tramoias celestiais, em que deus coloca propositalmente alguém numa situação de extremo perigo, precisando perder uma perna ou parte da bunda (no caso da Urach) para ter a fé restaurada ou iniciada. Ateus convictos com um grau de conhecimento elevado do assunto jamais vão apelar a um deus por conta das conhecidas vicissitudes da vida,  quando o avião em que estão, por exemplo, está caindo do céu. Vão sentir medo de morrer, pois têm os mesmos instintos animais que todo ser humano, mas não tem por que apelar a uma entidade que eles não têm a menor crença na existência. Para que um crente compreenda de uma vez por todas, seria como um indígena duvidar que uma pessoa da cidade jamais faça uma oração a Tupã na hora do perigo. Não faz o menor sentido. Mas a incapacidade dos crentes em se colocar na cabeça de outra pessoa para compreender o que ela pensa ou sente de diferente é um dos mais claros exemplos de como a religião, de modo geral, é intelectualmente incapacitante.

Não suspeito da boa-fé da moça a ponto de chamá-la de oportunista, mas em se tratando da instituição, qualquer crença que se orgulha de recrutar adeptos pelo susto ou pelo medo deveria causar, no mínimo, uma grande desconfiança entre nós.