O que significa “unir” o país depois da eleição?

Depois da eleição mais apertada desde 1989, tanto o candidato derrotado, Aécio Neves, quanto a vitoriosa, Dilma Rousseff, fizeram apelos para a “união do país” em seus pronunciamentos após o resultado oficial. A sensação, comprovada quando olhamos o mapa com os resultados da votação por cada região, é que realmente o Brasil está dividido ao meio, numa linha imaginária que corta o país do Acre à Bahia: no Norte e Nordeste, os Estados eleitores de Dilma; no Centro-Oeste, no Sul e no Sudeste, os eleitores de Aécio – as exceções foram Minas e Rio, que estão abaixo da linha e elegeram Dilma, e Roraima acima, que elegeu Aécio.

Mapa eleitoral do Brasil

Mas o que exatamente significa “unir” o país?

Dilma Rousseff, em seu pronunciamento pós-vitória, foi vaga. Falou em “diálogo”, o que dá margem para diversas interpretações. Em seu discurso na ONU, recentemente, a presidente falou em abrir “diálogo” com o grupo fundamentalista denominado Estado Islâmico, que tem provocado ondas de terror no Iraque. O diálogo, definitivamente, não é uma estratégia muito boa neste caso.

É óbvio que não estamos lidando com terroristas aqui no Brasil (pelo menos não na concepção clássica do termo, com homens-bomba, sequestradores, atentados, etc.) mas me parece um pouco aquiescente demais um discurso em que se prega o entendimento com setores da nossa sociedade que fizeram um jogo tão sujo e rasteiro para derrotar a presidente nesta campanha. Grupos de mídia, instituições e líderes religiosos, além de políticos da oposição não se furtaram em mentir, a jogar lama no governo, a sabotar as conquistas das classes menos favorecidas – e já andam, agora, até ensaiando uma campanha golpista de Impeachment. Influenciaram muitas pessoas nessa onda de ódio, preconceito e xenofobia. E agora, passadas as eleições, vão ter um canal aberto para o diálogo com o governo?

Não existe nenhum país do mundo que seja totalmente unido internamente. O “povo” uno, indivisível e sem conflitos de interesses é um mito criado pelos nacionalismos do século XIX e XX, um manto de igualdade que oculta as diversas desigualdades. Todos os povos são divididos em interesses internos diferentes, muitas vezes antagônicos. Uma política pública do governo que beneficie os banqueiros, por exemplo, pode não ser bom para um micro-empreendedor, e vice-versa. Um programa de redistribuição de riqueza incomoda as altas classes-médias.

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Antes de se sentirem solidárias num suposto sentimento de identidade brasileira, elas se sentem membros de uma determinada classe, seja recortada por faixa de renda, etnia, educação ou status social. Isso explica um pouco o mapa da eleição. O capitalismo do Norte e do Sul do país andam em ritmos diferentes. Portanto, dizer que vai governar para todos igualmente, numa falsa união nacional, é uma falácia. É preciso escolher um lado claramente, e assumir compromissos que vão sim, incomodar muita gente. Mas assim é a política.

Eu sugeriria começar a abrir diálogo com os movimentos sociais e os partidos de esquerda, estes sim, que sustentaram a campanha até o final e levaram o governo à vitória. O grande receio de todos é que a suposta “união” pregada por Dilma Rousseff represente mais uma vez uma aliança com os setores mais reacionários do país para acalmá-los, em vez de uma completa e necessária ruptura. Não se pode fazer a menor concessão para esses golpistas, não se pode trazê-los para dentro do governo, em nome de uma suposta união nacional. É preciso deixá-los claramente nas hostes oposicionistas, onde devem ser combatidos como adversários políticos, e não aliados.

Que essa união nacional, pregada imediatamente até por Aécio Neves, não seja, para os reacionários brasileiros, uma vitória na derrota.

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