Pequenas impressões sobre o primeiro debate a presidente na Band

Debate na Band 2014

Hoje 26 de agosto (o debate acabou na madrugada do dia 27), aconteceu nos estúdios da Bandeirantes o primeiro debate a presidente para as eleições 2014, que merece algumas considerações rápidas.

Primeiro: como os partidos que não formam as consideradas três principais candidaturas puderam concordar com as regras desse debate na Band? Favoreceram a concentração das perguntas nos três candidatos mais bem colocados.

O nível foi até bom, e a grande surpresa foi o Eduardo Jorge do PV, um sujeito espontâneo, descontraído e com propostas até bem progressistas, como a descriminalização do aborto e das drogas, temas sempre delicados para os candidatos. Aécio Neves (PSDB), por exemplo, preferiu sair pela tangente, dizendo que “é a favor da legislação atual” sobre o aborto – por mais que ela seja responsável por diversas mortes de mulheres todos os anos.

Aliás, o candidato tucano parecia estar na gravação de um programa eleitoral, com falas e tons de vozes nitidamente ensaiados. José Serra deve ter adorado – não que ele próprio fosse alguma sumidade em debates, pelo contrário: em 2010, preferiu a estratégia de pautas conservadoras nos debates e na campanha, colocando a própria esposa para dizer que Dilma era a favor de “matar crianças” com a lei do aborto, além de fugir como o diabo da cruz do tema “privatização”. Aécio pelo menos debateu questões envolvendo exclusivamente política e assumiu corajosamente o legado duvidoso das privatizações tucanas.

A Marina Silva (PSB) se equilibrou o tempo todo na corda bamba da indecisão. Ora os governos tucano e petista eram uma desgraça que devia ser banida, ora tinham virtudes que deviam ser reconhecidas. Sempre em cima do muro. Tanto que, criticando o Estado Mínimo e a “intervenção” do Estado com a mesma intensidade, deu a impressão que ela iria propor um Estado Médio. Irrita ver um vazio ideológico tão grande, tendo uma candidatura a presidente com quase 30 por cento de intenção de voto.

O pastor Everaldo (PSC) é uma piada de mal gosto. Só nesse país os líderes religiosos têm uma ideologia política afinada com os interesses das classes dominantes. Tão ingênuo que pretende entregar tudo à iniciativa privada. De acordo com o candidato puro de coração, os empresários vão acabar com a corrupção no país, vão tirar do próprio bolso e investir diretamente bilhões numa usina hidrelétrica, por exemplo, correndo todos os riscos da aposta capitalista que eles defendem da apenas da boca pra fora, em vez de esperar o governo investir dinheiro público e depois comodamente receber uma concessão de mão-beijada, como sempre fazem. Fala da suposta corrupção como sendo um mal do Estado e esquece que é na iniciativa privada que estão os corruptores deste mesmo Estado. Pastor inocente e neoliberal é um pouco demais.

O candidato Levy Fidélix (PRTB) tocou em assuntos importantes, como necessidade da auditoria da dívida, mas suas propostas quase sempre não passam da reprodução de um monte de senso-comum. Desnecessário maiores detalhes.

Dilma Rousseff (PT) foi até bastante bem, não escapuliu pela tangente em nenhum tema relevante, respondendo sempre em cima do assunto. De fato, o país tem evitado aplicar o receituário de cortes e arrochos para conter os resquícios da maior crise capitalista desde 1929, e tem preferido defender salários e empregos, um grande mérito desde governo. Todos os países que seguiram o que defendem os economistas do mainstream neoliberal e consequentemente, os tucanos, estão tendo que lidar com crises, revoltas e insatisfações.

Luciana Genro (PSOL) foi muito prejudicada pelas regras do debate, que a fizeram falar apenas o mínimo possível. Talvez por isso mesmo tenha preferido abordar diversos temas de uma vez, e no geral apresentou as propostas do programa do seu partido para o governo.

De resto, lamentar profundamente as perguntas capciosas, direcionadas, todas elas com algum tipo de crítica embutida ao atual governo, promovidas pelos jornalistas da Bandeirantes. Aquilo de chamar o decreto 8243 de política "bolivariana" foi uma das coisas mais ridículas que eu já vi nos últimos tempos. O velho medo dos grupos empresariais da comunicação de perder seus monopólios no Brasil.

Também é bom registrar um dado importante: de todos os postulantes ao cargo máximo do país, três são mulheres. É a maior representação feminina na candidatura ao governo do país em todos os tempos.

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