Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

28 de julho de 2014

Um novo mundo não-estadunidense no horizonte

28 julho 0

Encontro BRICS UNASUL

Aquela reunião realizada em Fortaleza entre os líderes dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que contou, dias depois, com o apoio de países da América Latina através da UNASUL em Brasília, tem uma representatividade que até agora não se pôde mensurar exatamente. O que parece é que o encontro, que culminou com a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, está inserido num contexto mais amplo de um mundo multipolar, sem a tutela econômica da “trindade profana” – FMI, OMC e Banco Mundial – e, por consequência, dos Estados Unidos.

O Novo Banco de Desenvolvimento, a princípio, foi criado para uma “rede de proteção” aos países-membros, mas numa perspectiva a longo prazo, certamente rivalizará com os ditames neoliberais do Fundo Monetário Internacional, que representa a linha econômica ortodoxa que começa a incomodar até mesmo os países europeus, vítimas da crise capitalista da qual até hoje mal conseguiram se recuperar.

Hoje em dia, os Estados Unidos tremem ante a concreta possibilidade da Alemanha, carro-chefe da União Europeia, abandonar as hostes estadunidenses para se alinhar aos BRICS, conforme disse o doutor em Estatística Jim Willie, PhD na matéria pela Carnegie Mellon University, nos EUA, em recente entrevista. O especialista chegou a afirmar que a crise dos Estados Unidos com a Rússia pela questão da Ucrânia tinha como intenção interromper o afastamento da Alemanha – e de outros europeus – da órbita norte-americana:

Os EUA, basicamente, estão dizendo à Europa: você tem duas opções aqui. Junte-se a nós na guerra contra a Rússia. Junte-se a nós nas sanções contra a Rússia. Junte-se a nós nas constantes guerras e conflitos, isolamento e destruição à sua economia, na negação do seu fornecimento de energia e na desistência dos contratos. Junte-se a nós nessas guerras e sanções, porque nós realmente queremos que você mantenha o regime do dólar. [Em contrapartida, os europeus] dizem que estão cansados do dólar… Estamos empurrando a Alemanha para fora do nosso círculo. Não se preocupem com a França, nem se preocupem com a Inglaterra, se preocupem com a Alemanha. A Alemanha tem, no momento, 3 mil empresas fazendo negócios reais, e elas não vão se juntar às sanções*.

Para o vice-diretor do Instituto de Estudos do Extremo Oriente da Academia de Ciências da Rússia, Serguei Luzyanin, o encontro do BRICS representa realmente a intenção de superar a influência dos Estados Unidos não só na área econômica, mas em todos os aspectos da humanidade,

Não é preciso ser um político habilidoso para sentir que os povos e as civilizações dos países em vias de desenvolvimento estão cansados de ‘padrões norte-americanos’ impostos. Aliás, padrões para tudo, economia, ideologia, forma de pensar, os ‘valores’ propostos, vida interna e externa, etc. O mundo inteiro viu pela TV o aperto-de-mão dos cinco líderes dos Brics, ao qual, passado uns dias, se juntou praticamente toda a América Latina. É discutível se, neste impulso comum, existiu uma maior dose de contas pragmáticas ou de solidariedade emocional, mas, uma coisa é certa, nele não houve qualquer amor pela América do Norte. E isso ainda é uma forma polida de colocar as coisas.

As perspectivas de sucesso do BRICS em superar o modelo hegemônico estadunidense são complicadas, porém devem ser encaradas com otimismo. Existe a chance do BRICS se estender significativamente com a adesão futura de Argentina, Indonésia e outros países chamados periféricos, o que representaria uma nova ordem mundial mais democrática, plural e representativa de diversos povos e etnias.

Seria o fim da padronização e da cultura de massa criada e implementada direto da América do Norte para o mundo. Devemos torcer por isso.

*fonte da entrevista: rededemocratica.org

25 de julho de 2014

Dunga e a imprensa

25 julho 0

Dunga, novo técnico da seleção

Desde a contestada escolha de Dunga como técnico da seleção brasileira, temos assistido a imprensa esportiva se comportar de forma bastante crítica ao novo comandante. Pelo menos duas vertentes são bem definidas: a das Organizações Globo, e da ESPN.

Os jornalistas da Globo se posicionam contra a escolha de Dunga porque já identificaram – corretamente, diga-se de passagem – uma das principais intenções da Confederação Brasileira de Futebol: acabar com a farra da emissora com a seleção. Nessa Copa do Mundo no Brasil, a ingerência da Globo sobre o time ultrapassou todos os limites, com camarote VIP na Granja Comary, entrevistas exclusivas do Felipão para o Jornal Nacional, entre outras atividades que nitidamente atrapalharam o rendimento da equipe no torneio.

A vertente da ESPN, por seu turno, depois do vexame da participação brasileira na Copa, havia identificado a necessidade de reformular completamente o futebol brasileiro, de cima a baixo, começando nas categorias de base e na escolha de um técnico com uma visão moderna de futebol – o que significa, praticamente, um técnico estrangeiro. A reformulação não veio, e o pior, ficou um clima de retrocesso no ar com a escolha de Dunga, um técnico que comandou a seleção em 2010 com linha dura e falta de habilidade para lidar com os críticos. Nada garante que ele terá uma paciência maior agora.

O detalhe é a abordagem de ambas as emissoras: as mídias da Globo vêm preferindo ridicularizar o técnico – hoje na CBN trechos da entrevista coletiva de Dunga foram comparadas a fala de Odorico Paraguaçu, o lendário personagem demagogo de O Bem Amado –, além de duvidar da sua capacidade profissional. Já a ESPN escolheu o caminho das denúncias mais profundas, mostrando o envolvimento do técnico com o mundo empresarial junto com o novo coordenador de seleções, Gilmar Rinaldi, o que, no mínimo, apresenta grave dilema ético, para provar que o futebol brasileiro continua o mesmo.

No meio de todo esse ambiente hostil, Dunga terá que se esmerar para conseguir os bons resultados em campo que pode abafar um pouco as acusações extracampo. Se ele conseguir, será uma enorme proeza, porque a pressão é enorme.

19 de julho de 2014

O mito do livre-mercado: os Estados Unidos (final)

19 julho 4

Conferência d Bretton Woods em 1944

Bretton Woods, 1944 (imagem acima). Com o iminente fim da Segunda Guerra Mundial, as nações aliadas se reúnem para a formação da nova ordem econômica mundial. Nesta conferência, foram criados o Banco Mundial (também conhecido como BIRD) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mais tarde, em 1947, também foi criado o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês) que mudou o nome para Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995, formando o que o economista Ha-Joon Chan chama de a “Trindade Profana” que vem esmagando a economia dos países em desenvolvimento nos últimos 30 anos.

 

Livre mercado e democracia não são parceiros naturais

Ha-Joon Chang, economista sul-coreano

Se no começo, essas instituições ajudaram os países em crise a equilibrar suas contas e a reconstruir as economias dos países arrasados pela guerra, a partir da crise da dívida do Terceiro Mundo, em 1982, as coisas mudaram drasticamente. Esses órgãos econômicos passaram a ter um poder muito maior do que o previsto, usando dinheiro para influenciar politicamente os rumos dos países enfraquecidos. Nos anos 90, o FMI passou a condicionar os empréstimos à implementação das premissas neoliberais na economia dos países em desenvolvimento. Mesmo com os notórios fracos resultados, muitas dessas recomendações neoliberais persistem até hoje, por influência dos países ricos (eles mesmos vítimas do próprio veneno atualmente). Eles alegam que “não há alternativa” ao livre-mercado(“There is no altenative”,  famoso slogan da rainha do mercado Margareth Thatcher), defendendo que esse é o único caminho da prosperidade. Já desconstruímos esse mito mostrando os casos da Coreia do Sul, do Japão e da Inglaterra (links o final do post), onde esclarecemos que esses países só cresceram e se tornaram potências econômicas porque fizeram tudo ao contrário do que recomendam hoje aos países pobres. Mas esse trabalho não estaria completo sem mostrar o caso daquele país que exerce hoje a maior influência para a execução de políticas neoliberais no planeta: vamos conhecer um pouco da história econômica dos Estados Unidos.

Estados Unidos não seguem Adam Smith, e se dão bem

A América prosperou com protecionismo

Sob domínio inglês, a América do Norte sofreu algumas das restrições que as demais colônias de então sofriam. E isso, acreditem, era defendido por alguém que entrou para a história como o “pai do liberalismo e do livre-mercado”: Adam Smith. Na sua obra mais famosa, A riqueza das nações, ele recomenda solenemente aos americanos não desenvolverem as manufaturas para competir com os ingleses.

Qualquer tentativa de interromper a importação de manufaturas europeias obstruiria, em vez de promover, o progresso do seu país na direção do enriquecimento e engrandecimento efetivos.

Neste trecho, hoje podemos perceber o quão ideologicamente interesseiras eram as “recomendações” disfarçadas de boas intenções de Adam Smith, preocupado com a concorrência americana com os produtos manufaturados europeus.

Alguns ilustres americanos como Thomas Jefferson estavam realmente convencidos de que o ideal para a América era permanecer uma economia agrária. Hoje Adam Smith é idolatrado por economistas e políticos nos Estados Unidos, mas na época outros não estavam muito convencidos das recomendações do ilustre pai da economia liberal e queriam ir contra a corrente dominante, defendendo que os Estados Unidos deveriam desenvolver as indústrias através de proteção e subsídios do governo. Essa era a vontade de Alexander Hamilton, o primeiro ministro das finanças do país, e por ironia do destino, filho de escocês como Smith.

Protecionismo até a Segunda Guerra Mundial

Em 1791, Hamilton submeteu seu Relatório sobre as Manufaturas ao Congresso, com uma série de recomendações para desenvolver a indústria, todas indo na contramão do livre-mercado, como tarifas protecionistas, subsídios do governo, proibição de importações, etc.

Naquele momento o Congresso era dominado pelos grandes plantadores latifundiários, a quem interessava o livre-comércio com a Inglaterra industrializada. Foi preciso esperar quase 30 anos, mas em 1820, os Estados Unidos, aproveitando-se da Guerra Anglo-Americana de 1812, implementaram o programa de Alexander Hamilton. Além de ser o país mais protecionista do mundo durante o século XIX até a década de 1920, os Estados Unidos eram a economia que crescia mais rápido. Mas também não a única. Todos os países ricos de hoje – com raras exceções -- adotaram estas medidas protecionistas, como a Finlândia, Alemanha, Noruega, Itália, Áustria e França, etc. Coincidência?

Os Estados Unidos adotaram esse modelo protecionista até o final da Segunda Guerra Mundial. Com suas indústrias já plenamente estabelecidas e com os principais concorrentes europeus totalmente arrasados pelo conflito armado, o país norte-americano achou que era a hora perfeita de levantar a bandeira do livre-comércio. E nem assim eles praticaram o livre comércio plenamente, pois encontraram outros meios de defender seus interesses, alguns até ilícitos.

É nesse contexto que nasce o FMI e o Banco Mundial, que hoje dizem aos países que querem se desenvolver que o melhor caminho é a abertura econômica e a queda de tarifas. Mas a história nos conta que no estágio inicial de seu desenvolvimento, todos os países bem-sucedidos recorreram à mistura de proteção, subsídios e regulamentação para desenvolver sua economia. E por outro lado, esta receita neoliberal recomendada hoje aos países mais pobres só tem trazido prejuízos, como aumento da desigualdade, desemprego, pobreza, instabilidade econômica, com sucessivas ondas de crise entre outras mazelas. O Brasil da era FHC, de meados dos anos 90 é o maior exemplo disso.

Chutando a escada dos outros

Chutando a escada

Em 1841, o economista alemão Friedrich List criticou a Inglaterra por pregar o livre-comércio aos outros países enquanto ela atingia a supremacia por meio de tarifas elevadas e subsídios. Ele acusou os ingleses de estarem “chutando a escada” em que eles haviam subido, impedindo os outros de subirem também. Infelizmente é isso que acontece hoje. Os países já estabelecidos não querem mais concorrentes emergindo das políticas nacionalistas e protecionistas que eles mesmos adotaram com êxito no passado. E depois do colonialismo, do extermínio de povos nativos, da escravidão e das guerras de conquista, este é o mais novo acinte moderno que os países ricos impõem contra os mais pobres. A implementação de um receituário econômico que visa paralisar e não desenvolver a economia dos países em desenvolvimento.

____________________________________________

O livro O Mito do Livre-Comércio e os Maus Samaritanos – A história secreta do capitalismo, de Ha-Joon Chang, é a fonte de todas as informações contidas nas partes um, dois e três desta série.

17 de julho de 2014

O mito do livre-mercado: o caso inglês

17 julho 6

industrial-revolutionAs potências econômicas da atualidade costumam defender a tese de que somente com o receituário neoliberal, as nações emergentes serão capazes de alcançar o mesmo estágio de prosperidade que elas atingiram. Afirmam que foi através desta estratégia — livre-comércio, tarifas baixas, abertura ao investimento estrangeiro e não-intervenção do Estado, entre outras coisas — que elas conseguiram se tornar ricas. Mas a história destes países mostra uma atitude bem diferente...

Na postagem anterior (O mito do livre-mercado: os casos sul-coreano e japonês) vimos os casos mais recentes de Coreia do Sul e Japão; hoje vamos conhecer um caso mais antigo, de uma das nações que se autoproclamaram o berço do livre-mercado mundial: a Inglaterra.

Livre-comércio só quando convém

Daniel-DefoeDaniel Defoe (imagem à direita) é mais conhecido como autor da obra literária Robinson Crusoé, mas pouca gente sabe que ele, além de trabalhar no governo britânico, também era economista. Seu principal trabalho nessa área foi lançado em 1728, A Plan of the English Commerce, sendo hoje praticamente esquecido.

No livro, Defoe mostra como, no final do século XV, a dinastia dos Tudor usou o protecionismo, os subsídios, a distribuição de monopólios, a espionagem industrial financiada pelo governo, entre outras intervenções, para desenvolver a incipiente e fraca indústria de lã da Inglaterra — a indústria de ponta da época.

Antes dos Tudor, a economia inglesa se resumia basicamente à produção de lã bruta para exportação. Os Países Baixos dominavam o processamento da lã através de suas modernas manufaturas. Eles sabiam que comprar a lã e transformá-la em roupas dava muito mais lucros.

Henrique VII, rei inglês, queria reverter essa situação. Apesar da “vocação” do seu país para a produção bruta de lã, ele queria entrar no ramo dominado pelos Países Baixos (Bélgica e Holanda) de produção de roupas. Para isso, ignorou os sinais do mercado de que seu país era um bom produtor de lã e que poderia ter continuado assim. Primeiro aumentou a taxa sobre as Elizabeth-Iexportações de lã, a fim de desestimulá-las. Assim ele queria que o processamento da lã fosse feito por ingleses internamente, favorecendo o fortalecimento das próprias indústrias. Por fim, 100 anos depois, quando as indústrias de lã inglesas se tornaram fortes o suficiente, a rainha Elizabeth I (imagem à esquerda) suspendeu totalmente as exportações de lã do país, levando as indústrias dos Países Baixos à falência. Com a riqueza do comércio das manufaturas de lã, a Inglaterra pôde levar adiante o processo que levaria à Revolução Industrial.

O livro de Daniel Defoe mostra com clareza que não foi a livre concorrência, e sim a proteção do governo e os subsídios que favoreceram a nascente indústria inglesa. E essa política não se resumiu apenas ao século XV. A Inglaterra se manteve um país altamente protecionista até a metade do século XIX, além de impedir que suas colônias desenvolvessem indústrias, incentivando a produção de matérias-primas nestas regiões.

A partir de meados do século XIX, as indústrias inglesas estavam tão fortes e eficientes, sem encontrar concorrência no mundo inteiro, que os industriais perceberam corretamente que então era a hora de incentivar o livre-comércio.

Ou seja, a Inglaterra só adotou o livre-comércio apenas quando já havia adquirido a supremacia total sobre os concorrentes por meio das barreiras tarifárias altas e de longa duração, entre outras medidas vergonhosas como a abertura forçada de mercados e tratados desiguais de comércio com outros países.

Na próxima e última postagem vamos ver como o sucessor da Inglaterra na liderança do comércio mundial, os Estados Unidos, se comportaram historicamente com relação àquilo que eles mais defendem hoje: o livre-comércio para os países em desenvolvimento como estratégia de crescimento.

   Primeira parte: O mito do livre mercado: os casos sul-coreano e japonês
   Terceira parte: O mito do livre-mercado: os Estados Unidos (final)

15 de julho de 2014

O mito do livre mercado: os casos sul-coreano e japonês

15 julho 4

Reescrever a história a seu favor. Este sempre foi o impulso daqueles que alcançaram o poder. Hoje, as nações mais desenvolvidas do planeta impõem aos que buscam um lugar ao sol o receituário neoliberal, seja através da “sugestão” dos economistas do mainstream, seja através da “Trindade Profana” — FMI, Banco Mundial e OMC. Dizem eles que foi seguindo as regras do livre-mercado que se tornaram ricos. Mas nós vamos desmascarar a história secreta por trás do sucesso destes países, numa série de três postagens, mostrando que eles fizeram tudo ao contrário do que defendem hoje para os países menos desenvolvidos.

O neoliberalismo

A economia neoliberal surgiu nos anos 60 e se tornou a visão econômica dominante a partir dos anos 80. É uma versão atualizada do liberalismo do século XVIII e XIX defendido pelos economistas clássicos, como Adam Smith e David Ricardo. Basicamente, defende a não-intervenção do Estado, a privatização de empresas estatais, a desregulamentação da economia e a abertura do comércio para o lucro e o investimento estrangeiro.

Coreia do Sul e Japão, sucesso com outra receita

Hoje a Coreia do Sul e o Japão são inegavelmente países com economias altamente desenvolvidas, e os teóricos do sistema capitalista afirmam que esse sucesso se deve à adesão ao modelo neoliberal. Mas a história mostra que a verdade é totalmente diferente.

A Samsung, por exemplo, hoje uma das maiores empresas de produtos de alta tecnologia do planeta, começou como exportadora de peixe, vegetais e frutas, numa época em que a Coreia era colônia do Japão e um dos países mais miseráveis do planeta. Até os anos 70, a empresa ainda estava no ramo de refinamento de açúcar e tecelagem. Quando, em 1983, ela declarou sua intenção de concorrer com as grandes indústrias de semicondutores dos Estados Unidos, poucos a levaram a sério. Segundo os defensores do livre-comércio, eles ganhariam mais se continuassem naquilo em que eram bons, ou seja, trabalhar com produtos primários, e deixar a indústria complexa com quem tinha “vocação” para isso — naturalmente, os países mais ricos, conforme a clássica tese de Smith.

Se o governo da Coreia do Sul tivesse seguido o conselho dos “entendidos” de economia estrangeiros, hoje o país provavelmente ainda estaria vivendo de exportar peixes e peruca de cabelo humano, suas principais fontes de receita de décadas atrás. No entanto, ele seguiu o caminho inverso: ajudou as indústrias do país a crescer com proteção tarifária e subsídios, até que elas estivessem fortes o suficiente para competir no mercado internacional.

Hoje a Samsung é o retrato mais bem acabado da intervenção do Estado na economia e de que para ter sucesso e competir no mercado internacional, os governos devem jogar a receita da Trindade Profana no lixo.

Governo japonês ajuda a Toyota

toyoda automatic loomAssim como a Samsung, a Toyota começou em outro ramo de negócios bem mais modesto: fabricante de máquinas têxteis (Toyoda Automatic Loom). Em 1933 ela passou a produzir carros, mesmo com a descrença do país e dos concorrentes, e para poder conseguir se estabelecer no meio de gigantes internacionais, o governo japonês simplesmente retirou do país a General Motors e a Ford em 1939, e viabilizou a Toyota com dinheiro do Banco Japonês em 1949, mesmo com toda a crise econômica do país no pós-II Guerra.

Toyota LexusSe o governo japonês tivesse seguido as regras do livre-comércio, hoje os carros da Toyota não seriam tão naturais para nós quanto o vinho francês ou o azeite português. A empresa japonesa provavelmente teria sido comprada por uma das grandes montadoras internacionais e simplesmente estaria extinta. E o Japão jamais seria a potência econômica que é hoje.

Você pode não estar ainda convencido, pensando que estes são exemplos isolados que não são a regra, porque outros países ricos de hoje seguiram o modelo de livre-mercado para o sucesso. Então na próxima postagem eu vou te mostrar que isso é apenas parte da verdade, porque esses países adotaram o livre-comércio apenas quando suas empresas já estavam plenamente desenvolvidas, contando com proteção estatal para isso. Este sim, o grande segredo do sucesso econômico de qualquer país. E nada melhor do que pegar como exemplo aqueles que são autoproclamados os líderes do mundo “liberal”: a Inglaterra e os Estados Unidos.

   Segunda parte: O mito do livre-mercado: o caso inglês
   Terceira parte: O mito do livre-mercado: os Estados Unidos (final)

14 de julho de 2014

Por que um técnico estrangeiro

14 julho 0

pep guardiolaAlgumas pessoas envolvidas no recente debate acerca do futuro do futebol brasileiro, de má-fé ou não, andam dizendo por aí que a seleção brasileira não precisa de um técnico estrangeiro. Na verdade, um técnico de fora seria até danoso ao estilo do nosso futebol, já que eles costumam limitar o talento individual em nome do coletivo.

Interesses particulares envolvidos ou não, creio que elas estão redondamente enganadas.

A necessidade de um técnico de nível estrangeiro não se dá por este motivo. Não precisamos de alguém que limite o futebol moleque dos nossos jogadores nacionais. Também não é um caso de trazer um técnico meramente por ele ter um passaporte diferente, de sucesso reconhecido internacionalmente, ou outro fator. A realidade é que as pessoas andam cogitando um técnico de fora, porque já identificaram a completa defasagem tática dos nossos principais técnicos nacionais.

Não existe um único técnico brasileiro, atualmente, reconhecido por montar uma estratégia de jogo com variações táticas, mudança de jogo de acordo com o perfil do adversário, entre outras coisas que cansamos de ver lá fora. Inclusive aqui do lado, entre nossos vizinhos sul-americanos, repletos de técnicos gabaritados nesses quesitos. O futebol brasileiro, por outro lado, caiu numa mesmice tão assustadora que, cada vez mais, confia-se no talento individual de alguns craques para resolverem uma partida. O problema é que eles já não são assim tantos – na seleção atual, só Neymar com 22 anos tem a responsabilidade de resolver sozinho – e além disso, quando eles não jogam, a seleção não funciona, expondo as fragilidades da armação do time no plano tático, como ficou evidente naquela humilhante derrota para a Alemanha.

O futebol brasileiro teve seus melhores momentos com a união de talento com armação tática. Foi assim em 58, 70, 82, 84 e 94, para ficar nos exemplos mais óbvios. Para voltar a brilhar, é preciso, primeiro, resgatar a fábrica de talentos brasileiros (os clubes) que andam perdendo seus valores cedo demais para empresários beneficiados com a Lei Pelé. E segundo, contratar um técnico estrangeiro que possa deixar no país uma filosofia de jogo como Pep Guardiola deixou recentemente nas seleções da Espanha e da Alemanha, embora de forma indireta. Curiosamente, um técnico que sempre fez questão de se dizer um admirador inspirado no futebol brasileiro. E assim, implantando um modelo de cima, aproveitando os talentos de baixo, talvez possamos chegar em 2018 com a missão de recuperar a imagem arranhada que a seleção brasileira deixou no mundo.

Encerramos aqui as postagens especificamente voltadas para o futebol e a Copa do Mundo.

12 de julho de 2014

Valeu a pena torcer contra a seleção brasileira

12 julho 0
Valeu a pena torcer contra a seleção brasileira

Só o fracasso, às vezes, pode expor os equívocos, acabar com as mentiras, as fantasias e o oba-oba, para que as coisas erradas que vinham sendo feitas possam tomar um novo rumo. E talvez assim, algumas pessoas possam finalmente compreender que torcer pela vitória da CBF nesta Copa do Mundo seria um equívoco, porque ajudaria justamente a manter tudo do jeito que estava. Não se trata de achar que agora tudo vai ser lindo e maravilhoso no país porque a seleção perdeu. A derrota pode nos proporcionar, porém, um momento histórico de mudanças concretas no futebol, como eu vinha dizendo desde sempre.

Apesar do fracasso, ainda tentam resistir

A estratégia dos responsáveis diretos pelo maior vexame da história do futebol mundial já está definida: minimizar o impacto do resultado, colocando a culpa da chuva de gols numa suposta “pane” momentânea. Felipão e Carlos Alberto Parreira têm se arvorado para se eximirem de culpa em cada nova entrevista coletiva.

É fácil de compreender. Afinal, ninguém quer carregar nas costas a culpa que Barbosa, goleiro da Copa de 50, carregou involuntariamente até a sua morte. Eles estão em seus papéis, defendendo o seu legado e as suas carreiras, lutando contra os fatos para salvarem suas peles. Mas não podemos aceitar o movimento de acomodação e de mesmice que ameaça pairar sobre este momento histórico: José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, respectivamente presidente e futuro presidente da CBF, já ensaiaram a permanência do Felipão na comissão técnica da seleção, apesar de sua nítida desatualização em relação ao futebol moderno. E Felipão, apesar de realmente não ser o único culpado e sim a consequência de uma má administração que o colocou no posto de treinador, nem tem a decência de, ele mesmo, pedir sua demissão.

Não podemos desperdiçar o momento

Pelo menos o governo federal entendeu perfeitamente que o momento é extremamente oportuno para propor reformas no futebol brasileiro. A presidente Dilma já conversou com os representantes do Bom Senso Futebol Clube, um movimento de jogadores e ex-jogadores que propõe melhorias na gestão do futebol, e se pronunciou sobre, entre outros temas, a necessária formação e permanência dos jovens atletas brasileiros no país, sugerindo medidas para que estes jogadores – assim como os técnicos – tenham as mesmas condições de trabalho e de salários dos maiores centros de futebol. Para isso, nitidamente, é preciso reformular os atuais campeonatos nacionais, cujo potencial vem sendo subestimado por décadas de descaso da milionária CBF.

Derrotar as forças do continuísmo

É claro que tanto a presidente quanto todos aqueles que pretendem aproveitar a crise para mexer nas arcaicas estruturas do futebol encontrarão fortes reações. A começar pela oposição política. Aécio Neves, amigo pessoal de Marin, já atacou as intenções da presidente, acusando-a de querer impor uma “Futebras” para o Estado gerir o futebol. Pura balela. Tudo o que o Aécio quer é proteger seus aliados. E o que conseguiu com essa comparação, na verdade, foi demonstrar que, ao contrário do que diz, se pudesse ele realmente privatizava a Petrobras...

As principais batalhas se darão em três frentes: primeiro, reformular a Lei Pelé, um instrumento de política neoliberal no futebol que serviu para abrir as portas para os empresários e tirar dos clubes a possibilidade de revelar e manter seus talentos. Segundo, pressionar o Congresso pela aprovação do projeto que cria a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. É importante para os clubes de futebol que seus dirigentes não cometam loucuras econômicas sabendo que não responderão pelas consequências, como tem sido até agora. Isso ajudará a modernizar a gestão dos clubes de futebol, tornando-os mais competitivos. E por fim, enfrentar a Rede Globo de Televisão, que se infiltrou de tal maneira no futebol brasileiro, que transformou um patrimônio cultural que é o futebol quase em propriedade privada, alterando datas e horários de jogos de acordo com seus interesses comerciais.

Esses já seriam grandes passos para recomeçar uma nova história no futebol brasileiro. Só nos resta saber se teremos empenho para vencer as forças do continuísmo e do atraso no futebol.

Só uma coisa é certa: se a seleção brasileira tivesse vencido a Copa, tudo continuaria do mesmo jeito.

10 de julho de 2014

Considerações sobre o país e o futebol

10 julho 0

Passadas a exaltação e a cabeça quente pela derrota histórica, é hora de buscar juízo para analisar, em primeiro lugar, a participação brasileira nesta Copa do Mundo, e, em segundo lugar, tudo o que tem girado em torno desse tema nos últimos meses, englobando não só o futebol, como também a política.

Médici e a Taça Jules RimetNão sei dizer em que momento da História, exatamente, começaram a associar a pátria com o futebol, mas é certo que esse fenômeno foi potencializado ao máximo na época da ditadura civil-militar brasileira nos anos 70. De lá pra cá, era como se todos os problemas sociais e econômicos do país pudessem ser convenientemente esquecidos naqueles momentos em que a escrete canarinho estivesse em campo. Claro que, como qualquer distração dos problemas, o futebol se mostrou um belo instrumento apaziguador de conflitos sociais, e foi muito bem utilizado por nossa classe dirigente. Nesse ponto, o futebol não era só um mero esporte: era o país que dava certo.

Protestos de JunhoÉ natural que uma Copa neste ano de 2014, realizada no Brasil, despertasse esses velhos sentimentos ufanistas. Só que, dessa vez, a mitologia da “Pátria de Chuteiras” foi confrontada com uma grande parcela da sociedade que resolveu denunciar todos os crimes sociais cometidos para que este evento fosse realizado. A estes setores progressistas se uniram também as alas mais conservadoras, aquelas que costumeiramente se convencionou a chamar pejorativamente de “coxinhas”, pelo seu comportamento vira-latas em relação ao país e ao povo. Em comum entre essas duas bandeiras, apenas a crítica ao governo.

A presidente Dilma, seus assessores e os militantes petistas pecaram justamente eu não querer – ou não poder – diferenciar a origem das críticas. Lançaram uma campanha oportunista e desleal de acusações contra qualquer tipo de manifestação à forma como o evento da Copa foi realizado. Além disso, ousaram tachar de “antipatriotas” aqueles que não se sentiram confortáveis em torcer para o sucesso desta seleção brasileira, mais preocupada com o merchandising do que com o futebol. Intentaram – justamente como os militares -- associar o sucesso da seleção ao governo, de olho nas eleições de outubro. Mas eis que veio uma desclassificação humilhante para a Alemanha nas semifinais do evento. E agora o filho feio não tem pai...

Fiasco histórico impõe reformas no futebol brasileiro

desolado-goleiro-julio-cesar-chora-a-eliminacao-do-brasil-na-copa-apos-a-goleada-sofrida-por-7-a-1-para-a-alemanha-no-mineirao-1404858229635_1920x1080No âmbito do futebol, as deficiências ficaram mais evidentes. Uma comissão técnica nitidamente ultrapassada, falta de treinos e seriedade suficientes, campanhas publicitárias em vez de concentração, uma geração de talento abaixo da média, escalações duvidosas (quem apostar que o franzino Bernard foi escalado para enfrentar os fortes alemães porque era ex-jogador do Atlético-MG e o jogo era no Mineirão, não estará viajando muito), fizeram surgir a necessidade de discussões no país sobre uma reforma no futebol brasileiro, de alto a baixo. Não nesses simpósios organizados anualmente por técnicos ultrapassados com vistas a autopromoção, e sim um debate sério sobre o futuro do futebol brasileiro, com a participação até do governo federal.

Pelo menos pra isso que servem as crises: elas desnudam os equívocos que o oba-oba ajuda a ocultar, e nos obriga a tomar providências. Talvez agora alguns daqueles “patriotas” entendam por que muitos brasileiros torceram “contra” a seleção: às vezes, torcer contra é torcer a favor.

    Veja também: O Brasil não é a CBF

De resto, é necessário um esclarecimento óbvio: não se deve cair na esparrela de que a seleção é o Brasil, e que o Brasil é a seleção, que serve muito bem para o marketing e para ocultar nossos problemas sociais sob o mito de “um só Brasil”. Muito menos defender o oposto: que o gosto nacional pelo futebol é a causa de todos os nossos problemas. A seleção tem os seus infortúnios para lidar  agora, mas o Brasil também tem os seus, bem mais urgentes, por sinal. O futebol não deve ser tratado como anestesia que faz o povo esquecer os problemas naqueles minutos de alegria. Comentaristas esportivos como Casagrande e jogadores como David Luiz andaram propagando essa falácia ridícula de que a seleção precisava dar alegria ao “nosso povo sofrido”. Isso não pode mais colar. Porque uma grande parcela da população brasileira já nem está assim tão sofrida e agora quer dar outro salto, ter serviços de qualidade e um país bem governado, com educação, saúde, transportes, infraestrutura e inclusive o direito ao lazer – coisa que o futebol cumpre muito bem, sendo o esporte preferido do país, mas que não pode suplantar em importância as outras demandas.

Enfim, que aquela derrota de 7 a 1 diante da Alemanha possa trazer consequências positivas.