Europeus votam na ONU contra punição a empresas poluidoras

poluicaoQuem observa hoje as limpas e ecologicamente corretas principais cidades europeias, com cada vez menos poluição e mais bicicletas ocupando o lugar dos carros, mais empresas de serviços ocupando o lugar das poluentes fábricas, é bem capaz de realmente acreditar que estamos mesmo vivendo uma era pós-industrial, pós-fordista, pós-moderna ou seja lá pós o quê você queira usar para corroborar esta tese nesse começo de século XXI. Além disso, você há de acreditar que a Europa saiu mesmo na frente de China, Estados Unidos e Japão, países que ainda têm grandes dificuldades de conciliar crescimento econômico com consciência ambiental. Mas eis que, então, você toma conhecimento da 26ª reunião do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, em Genebra, onde acaba de ser aprovada uma resolução para obrigar as multinacionais e outras empresas a respeitar os direitos humanos. Os países europeus que participam desse grupo votaram todos contra. Incoerência? Contradição?

Na verdade, não. Isso porque não vivemos uma era pós-industrial coisíssima nenhuma – apesar do setor de serviços concorrer com o industrial como nunca antes da história do Ocidente. O que temos, na verdade, é uma legislação ambiental mais rigorosa na Europa (para os europeus), que obriga as indústrias mais poluentes do Velho Continente a migrarem para regiões mais pobres do planeta, onde, além da legislação menos severa nas questões ambientais, encontram uma mão de obra mais barata com relação ao trabalhador da Europa.

É assim, por exemplo, que cidades alemãs como Stuttgart mantêm a sua área industrial de alta tecnologia mas baixa poluição, como as fábricas da Porsche, da Mercedes-Benz e da Bosch, mas por outro lado, exportam para o “Terceiro-Mundo” as suas indústrias mais poluentes, como a Thyssenkrupp que instalou a sua siderúrgica em Santa Cruz-RJ, anos atrás, transformando a vida dos moradores locais num inferno de partículas poluentes lançadas no ar pelos altos-fornos.

Por isso, ninguém há de estranhar que a UE tenha determinado aos países europeus que compõem o Conselho (Áustria, República Checa, Estônia, França, Irlanda, Itália, Romênia e Reino Unido) para votarem contra o enquadramento de grandes corporações que atuam impunemente ao redor do mundo: o seu próprio bem-estar local depende da exploração de regiões pobres do planeta – aliás, como sempre vem acontecendo desde que as primeiras caravelas do continente europeu encontraram outros potenciais “mercados” pelo mundo afora no século XV.

Apesar disso, a resolução foi aprovada por 20 votos a favor e 14 contra, devido à determinação especial de Equador e África do Sul, que propuseram e se esforçaram pela aprovação da resolução. Viver pedalando em cidades verdes e limpas é muito bom, desde que o preço não seja emporcalhar o resto do mundo.

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