Trevisan e o estereótipo do machão brasileiro

Vai_Trabalhar,_VagabundoDe repente parece que os homossexuais saíram todos do armário, ameaçando os pilares da nossa boa civilização cristã. Pelo menos assim parece aos olhos dos contemporâneos que pertencem a uma categoria difícil de definir, apesar de fácil de reconhecer. Uns os chamariam de "coxinhas", outros de "almeidinhas", alguns ainda de "neoconservadores"... O que importa é que basta ilustrar essa classe com a figura de um Rodrigo Constantino ou de um Jair Bolsonaro que tudo fica bastante claro.

Mas a verdade é que, nem de longe, essa é uma batalha recente. Há muitas e muitas décadas, não era tão simples, realmente, se assumir como homossexual. Mas eis que eu pego um livro de João Silvério Trevisan (Pedaço de Mim), que é uma coletânea de artigos escritos pelo autor desde o final dos anos 70, e lá está, dentre uma miríade de assuntos, o tema da homossexualidade -- ou da homoafetividade, para usar um termo mais atual. E já naquela época, Trevisan, homossexual assumido, enfrentava brilhantemente o machismo com seus artigos demolidores, coisa ainda hoje bem comum, mas heróica naqueles tempos em que o Jair Bolsonaro não chamaria a menor atenção por ser apenas mais um homofóbico na multidão. 

Em um belo artigo sarcástico denominado "As maravilhosas aventuras do machão brasileiro", Trevisan já em 1978 criticava os estereótipos do macho que permeavam os filmes da pornochanchada nacional, como Vai trabalhar vagabundo -- para o escritor, um filme com a mesma receita dos filmes eróticos populares da época passada a limpo para o gosto da classe média "fina". 

O filme estrelado e dirigido por Hugo Carvana reproduzia os valores da sociedade patriarcal brasileira dos anos 70 sem nenhum pudor: mulher-objeto, bebida, jogatina, espírito de competição, supremacia do macho, tudo enredado em diversas "aventuras". Trevisan conclui seu artigo dizendo: "para o bem da família brasileira, está salvo o macho nacional".

Pastores evangélicos levantam hoje a antiga bandeira do machismo

Tudo bem, estávamos nos anos 70, outra cabeça, outra época. Mas não é de surpreender que esse estereótipo do macho nacional esteja ainda tão vivo e presente entre nós, a ponto de fazer despontar uma turma raivosa e homofóbica que brada em defesas dos "valores tradicionais e da família” principalmente pelas redes sociais? 

O elemento de novidade nesse processo é o conservadorismo das Igrejas evangélicas que abraçaram hoje essa causa, que antes pertencia praticamente ao seio do catolicismo. Pastores compraram a briga em favor do patriarcalismo nacional, e é fácil entender por que: o patriarcado é a base da religião, e a religião é a base do patriarcado: sem um desses elementos, o outro não sobrevive. 

Já se passaram mais de 40 anos desde o lançamento do filme, e o Brasil ainda está só no começo da luta para o respeito à diversidade e aos direitos das minorias. Sinto muito informar aos amigos progressistas que desejam conciliar as suas crenças religiosas com a reforma social: dentro das instituições religiosas, essa atitude é impossível, pois elas são, por natureza, o bastião do conservadorismo.

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