Cidades Alertas, Brasis Urgentes e a sensação de violência

violência

A página de Facebook que difundiu o boato que atiçou as labaredas do justiçamento, dessa vez no litoral de São Paulo, com direito a suposto retrato falado e tom alarmante, chama-se Guarujá Alerta. É mais uma daquelas mídias dedicadas exclusivamente a potencializar a sensação de medo e insegurança na população a níveis exorbitantes, de modos que, principalmente, a militarização, a brutalização dos órgãos de repressão e o controle da ordem e da “normalidade” sejam tomados como legítimos.

A página de notícias locais talvez nem tenha essa estratégia planejada, mas segue exatamente o tipo de receita que virou padrão no jornalismo da TV brasileira, com rastro de pólvora, sangue e violência.

Os programas que exploram a violência cotidiana tem o intuito de deixar todo mundo em permanente estado de alerta, e podemos presumir a intenção: que ninguém se sinta nem um minuto relaxado, tranquilo, despreocupado diante da TV, ou na rua, ou no trabalho. Parece que uma postura calma e imperturbável hoje em dia é quase meio caminho para ser uma vítima em potencial de todos os tipos de crimes possíveis e imagináveis. Por isso temos cada vez mais programas “jornalísticos” que adotam o “alerta” em seus nomes: Cidade Alerta, Estado de Alerta, População em Alerta, sem mencionar os genéricos regionais espalhados pelo país – como o próprio Guarujá Alerta e aqueles que usam artifícios semelhantes como Brasil Urgente, Brasil Agora, e etc.

O que muitos desses propagadores de alertas não devem ter previsto é que a onda de violência que eles alimentam e que deveria servir para legitimar a ação da polícia, passasse a resultar em justiça com as próprias mãos. Isso porque o justiçamento foge do controle das autoridades, é praticado no calor de um boato ou num flagrante ato de delito, por exemplo. E a partir daí o conhecido fenômeno de bando faz o seu trabalho de espalhar o rastilho de selvajaria, que começa com um, dois, três agressores, até se tornar generalizado. Mas uma população fora do controle não é algo que as autoridades e as classes dominantes gostem muito de imaginar, e por isso não me surpreenderia se começassem a haver campanhas oficiais contra a popularização desse tipo de arroubo de revolta. Hoje, os justiçamentos são praticados contra um pivete que roubou um relógio ou uma praticante de magia negra, como esse mais recente e lamentável episódio de Guarujá. Mas amanhã a população poderia muito bem canalizar sua revolta para situações mais abrangentes, como a miséria, o descaso, os políticos, as emissoras de TV... Claro que tudo precisaria ser bem disfarçado em Campanhas pela Paz

Com a repercussão cada vez mais negativa desse tipo de jornalismo, é de se esperar também que as empresas que ainda têm coragem de patrocinar, através da publicidade, programas e telejornais que fomentam esse tipo de permanente estado de alerta possam rever seus conceitos. Essa onda de justiçamentos faz mal pros negócios, e quem sustentar ou apoiar esse tipo de crime, que responda pelas consequências na Justiça. Ou no Mercado, que parece ser a única coisa que importa, no fim das contas.

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