A velha imprensa ganha sobrevida na internet. E com a nossa própria ajuda

Zumbi da Imprensa

Qual foi a grande e bem-vinda consequência do crescimento da internet nos últimos 15 anos? Aos poucos, ela ajudou a fomentar a diversidade, a pluralidade de visões e de opiniões, tornando-nos sujeitos ativos que interagem com a informação e não meros receptores passivos dos tradicionais veículos de imprensa. Isso ajudou a romper o monopólio das famílias que controlam os grandes conglomerados de mídia no país, como o Grupo Abril, os jornais conservadores e os canais de TV. Durante esse período, temos assistido a uma queda constante da audiência desses veículos, de modo que muitos deles perderam grande parte da influência e receita em publicidade, que migrou para onde a audiência mais tem aumentado: justamente a internet. Isso deveria representar um grande golpe na velha mídia oligárquica e uma grande vitória da diversidade na imprensa, mas não tem sido assim. Por quê?

Atrás dessa verba e dessa audiência, essas mídias tradicionais, que representam o controle da opinião pública, os interesses elitistas particulares em detrimento do público, a manipulação política da informação e o pensamento único, têm tentado usar o prestígio de suas marcas para migrarem para a internet. E uma vez consolidadas na rede, essas mídias estão tendo uma nova chance de manipularem e acabarem com a diversidade que é a marca da própria rede mundial de computadores.

Cada click que damos, é um ponto a mais na audiência

Um exemplo claro é cada um de nós notar que tipo de sites tem suas notícias mais vezes compartilhadas nas suas redes sociais. Certamente a grande maioria vem de três fontes: O Globo, Estadão e Folha de São Paulo. Ou seja, esses veículos, que deveriam estar sendo superados pelos anos de maus serviços prestados ao jornalismo no país, estão sendo cada vez mais prestigiados, ganhando uma sobrevida num espaço que deveria representar a sua falência. Com o status renovado, eles sufocam a concorrência independente, sem condições de competir com os milhões de publicidade de que eles dispõem. E tudo isso com a nossa própria ajuda, na medida em que lemos, comentamos, compartilhamos e damos audiência a esses jornais travestidos de portais de notícias eletrônicas, em vez de favorecer outras fontes do jornalismo independente, que fazem um trabalho muito mais leal e tão profissional nas redes quanto esses velhos veículos.

Sei que esses jornais contam com uma estrutura que permite a qualidade (não a isenção) dos seus trabalhos, e por isso fica realmente difícil ignorar suas páginas. Mas para aqueles que ainda pretendem ter uma internet realmente livre e independente no Brasil, a sugestão é buscar prestigiar outros portais independentes de notícias – eles estão aos montes por aí – em vez de manter esses monstrengos que tantos desserviços fizeram ao país vivos na internet. Vamos tentar?

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