6 de abril de 2014

O fenômeno da Polarização de Grupo

RadicalismosO historiador Eric Hobsbawm, escrevendo sobre o século XX, classificou-o como a Era dos Extremos. Naquela época, o mundo estava frequentemente em guerra ou quase sempre à beira de uma, culminando na rivalidade entre as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética. Na segunda metade daquele século era mais ou menos fácil para ambos identificar o mal: o mal era sempre o outro.

Neste século XXI, sai de cena os extremos e entra os extremismos, ou seja, enquanto os países inclinam-se para o entendimento, as pessoas estão com a tendência a radicalizar suas opiniões sobre tudo e sobre todos.

Um dos que estudaram esse fenômeno foi o autor e professor de Harvard, Cass R. Sunstein, que o batizou de “polarização de grupo” em seu livro A Era do Radicalismo*. Relatando os resultados de uma série de experiências com dinâmicas de grupo, algumas das quais ele mesmo promoveu, Sunstein chegou a algumas conclusões muito interessantes, que nos ajudam a entender por que as pessoas estão ficando mais radicais num sentido negativo, se afastando do entendimento (e do radicalismo justificável) para se posicionar nos extremismos.

A polarização de grupo

Debatida ao longo de todo o livro, a polarização de grupo é definida como o surpreendente fenômeno de radicalização de opiniões que ocorre quando pessoas moderadas se reúnem e abordam determinados assuntos em comum, como por exemplo, o direito ao aborto. Se todas as pessoas de um grupo forem, por exemplo, moderadamente contra o aborto, depois de trocarem informações entre si, que geralmente corroboram suas opiniões, elas tendem com o tempo a deixar a moderação de lado e se tornar radicalmente contra o aborto. Se um grupo de pessoas é subdividido entre os que são moderadamente a favor e moderadamente contra o aborto, as discussões no grupo (com algumas exceções que não teremos espaço de abordar aqui) tendem a reforçar ainda mais suas divergências, levando-os para os extremos opostos. Quem tinha alguma dúvida, passa a ter certeza. Isso afeta diretamente a diversidade de ideias e a qualidade das opiniões, na medida em que cria nichos homogêneos de pensamento único, o que é sempre perigoso.

Rejeitando informações conflitantes

Estar sempre perto de pessoas que pensam igual a nós nos dá a falsa sensação de estarmos sempre certos. Isso acontece porque as opiniões reforçam nossas convicções e todos os que ameaçam as nossas certezas são dados como mal-intencionados ou ingênuos, incapazes de ver a “verdade”, e então excluídos. Essas pessoas costumam ter muito pouca informação sobre um assunto, e se transformam em extremistas porque sempre realimentam as próprias convicções com as mesmas informações. É o que se chama de assimilação tendenciosa. Se ela lê um artigo do Rodrigo Constantino na Revista Veja porque já tem uma certa propensão ao reacionarismo, por exemplo, o próximo passo não é ler um artigo de tendência diferente para formar uma opinião mais isenta e sim pegar "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" do Olavo de Carvalho para reforçar ainda mais seus pontos de vista reacionários. Isso a vai convencendo e convencendo de tal forma que vai só piorando o seu extremismo. Daqui a pouco, sem ela menos esperar, está gritando nas ruas: "Já foi desmascarado esse movimento aí. Será que vocês não percebem a verdade??!!" Mas não se iludam, isso acontece nos grupos de esquerda também, e muito!

Reputação conta

Também não podemos esquecer o que faz uma pessoa ser radical dentro de um grupo de pessoas que pensam igual: isso faz bem pra sua reputação. As pessoas querem ser percebidas favoravelmente dentro de um ambiente. Digamos, um grupo feminista. Generalizar seria um erro grave, mas, por outro lado, eu desconfiaria de alguns homens que repentinamente se tornaram feministas radicais, mesmo sem muito conhecimento de causa. Muitos deles aparentam só querer ficar muito bem na fita, e por isso se mostram muito mais realistas que o próprio rei. Mulheres que, entre outros arroubos extremistas, querem “cortar picas”, metaforicamente falando, é claro, (ou não, quem sabe?) também querem provar a sua legitimidade através do radicalismo. Homens que criticam ponderadamente essa postura são “mascus chorões mimados que estão com medo de perder os privilégios”. Mulheres que não aderem a tal radicalismo, por sua vez, são machistas alienadas. Não há trocas, diálogos, debates, só desconfianças mútuas. Nem é preciso dizer o quanto a internet favorece esse tipo de polarização de grupos...

Quando radicalizar é bom

Claro que existem momentos em que o extremismo é totalmente justificado, e mais, absolutamente necessário. Mas a conclusão que podemos chegar é que o (mau) radicalismo está fazendo mal. Está levando a sociedade a perder a capacidade do diálogo com o outro, e isso tem nos levados tomar decisões catastróficas em diversas áreas, contra nós mesmos. Radicalizar deveria ser atacar a raiz do problema, e isso exige reflexão e ação. Para ser bem sucedido é preciso saber bem o que se está fazendo – e não querer parecer extremista por motivos injustificados – e improdutivos.

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*SUNSTEIN, Cass R. A Era do Radicalismo. Ed.Campus, Rio de Janeiro, 2010

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