11 de abril de 2014

Documento sobre esposa de Jesus é autêntico. Mas seu conteúdo é outra história

jesuscasadopapiroEssa semana foi divulgado que um fragmento de papiro, descoberto em 2012 e que fazia menção a uma suposta esposa de Jesus, é autêntico. Autêntico porque antigo, como foi mostrado nos testes científicos. Mas alguns apressados levaram o termo mais adiante, e afirmaram que o fato de não ser forjado é prova de que fala a verdade. E daí vai uma distância muito grande.

Fazendo uma análise crítica interna do documento, vemos que ele traz temas que vão de encontro à ortodoxia dos dogmas cristãos a respeito de Jesus Cristo – o que também não diz muita coisa. O texto tem partes como essa: “Jesus disse pra eles: 'minha esposa...” e “ela será capaz de ser minha discípula”.

Aí já temos duas pauladas nos cânones cristãos: que Jesus tinha uma esposa, e que entre seus discípulos havia uma mulher cujo nome se perdeu com o tempo (Maria Madalena?) ou foi deliberadamente apagado da história pela Igreja Católica, durante a criação da sua misógina mitologia.

Escrito em copta, uma variação do grego com elementos de demótico criada no Egito, o documento faz parte agora dos apócrifos excluídos do Cânon, entre eles o Evangelho de Madalena, livros considerados “errados” como a maioria dos tantos que circulavam na Palestina nos séculos II e III, em detrimento dos poucos considerados “certos” posteriormente. A escolha desses foi mais ou menos arbitrária, o que gerou uma série de contradições entre eles, que hoje podemos analisar sem sermos mandados para a fogueira, formando os evangelhos sinóticos e que obedeceu apenas a uma regra bastante simples: todos os textos que levaram à sacralidade do filho de deus morto na cruz, foram aceitos, os que mostravam um Jesus mais humano, foram rejeitados, destruídos ou escondidos por heróis anônimos, o que permitiu que alguns deles chegassem até nós.

Mas a questão é: todos esses documentos, apócrifos ou canônicos (ou seja, bíblicos), foram escritos muito depois dos eventos que supostamente narram, por outras pessoas que não estavam lá, em outros lugares, em outras línguas. O fragmento sobre a suposta esposa de Jesus, por exemplo, foi escrito numa língua que só foi difundida e utilizada no século III, i.e., pelo menos 200 anos depois dos eventos que narra. Portanto, certamente é um documento de terceira mão, modificado, como todos os outros sobre Jesus, oficiais ou não. Esse fragmento não prova que Jesus era casado, para o alívio do Vaticano, mas todos os outros documentos que formam o Cânon, apesar de aceitos como oficiais, também não “desprovam” que ele era. Aliás, não provam sequer que ele tenha existido realmente. Nem como filho de deus, nem como um homem comum da Palestina que casava e pregava o bem.

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