Karl Marx e a liberdade de imprensa

Sérgio Augusto é um polêmico e erudito articulista brasileiro, virtudes que o permitiram escrever crônicas de sucesso em duas revistas com públicos bem distintos: a escrachada Bundas e a sofisticada Bravo!, ambas já extintas. De vez em quando ele invertia os papéis e fazia piada numa e falava sério na outra, como em junho de 2000, quando resolveu falar de liberdade de imprensa na revista Bundas com uma análise da atuação jornalística de Karl Marx.

Um dos méritos do Sérgio Augusto naquele artigo, além de resgatar a faceta jornalística de Marx – quase sempre preterida pelo Marx filósofo, sociólogo e economista – foi demonstrar como o jornalismo perdeu a profundidade e o senso crítico desde aquela época, quando Marx trazia casos como, por exemplo, o da duquesa de Sutherland, na Inglaterra, famosa ao levantar a voz contra a escravidão na América, em meados do século XIX. Marx não se comoveu com o antiescravismo da duquesa e enquadrou-a, inapelavelmente, entre aqueles filantropos que só conseguem se indignar com flagelos distantes o máximo possível de seus quintais. Na Inglaterra não havia escravos. Se houvesse, talvez a duquesa usufruísse na moita de seus serviços. Pois o que os seus compatriotas praticavam na África e demais colônias espalhadas pelo planeta naquela época neocolonial era uma forma de escravidão – contra a qual a duquesa nunca ergueu a voz.

Karl Marx jornalista

Hoje em dia, essa postura está presente na hipocrisia brasileira dos que apoiam greves, passeatas e insurreições lá fora e qualificam as daqui como ilegítimas e impatrióticas badernas praticadas por vândalos – e isso, é claro, com a empenhada colaboração da nossa imprensa.

É justamente por isso que eu faço ressalvas quando Sérgio Augusto defende tão acriticamente a liberdade de imprensa, usando o próprio Marx como exemplo, no trecho a seguir da revista:

A maior contribuição de Marx ao jornalismo foi sua inabalável profissão de fé na liberdade de imprensa, mais de uma vez registrada nas páginas do Tribune. Liberdade total, inclusive para o que chamava de imprensa burguesa.

Marx e Trotski concordavam que, uma vez amordaçada a imprensa, não importa por quais motivos, a ignorância inevitavelmente entra em cena, avassaladora, incontrolável. E a ignorância, como escreveu o jovem Marx em seu primeiro emprego como jornalista, na Gazeta Renana, é um demônio.

Quem pouco ou nada sabe pensa mal e costuma agir pior ainda.

Mas nos tempos de Karl Marx, ainda não havia grandes monopólios de mídias, sendo o jornal impresso uma das poucas fontes de informação. A variedade de  publicações, nas mais diversas correntes ideológicas era tão grande, que Marx podia se dar ao luxo de defender a existência até das mídias burguesas, porque existiam outras vozes para lhes fazer contrapontos. O próprio New York Tribune – visceralmente abolicionista e vagamente socialista utópico , do qual Marx era colaborador, enviando àquele jornal, entre 1851 e 1862, mais de 500 artigos, pôs a nu diversas mazelas vitorianas, com destaque para as exorbitâncias do colonialismo britânico na Índia e na China. Quantos grandes jornais ou portais de internet podemos ver, hoje, fazendo crítica semelhante a algum aspecto do imperialismo estadunidense, por exemplo?

Hoje as coisas são bem diferentes. Não sofremos censura oficial, mas sim concentração e pensamento único na imprensa. As mídias comerciais cresceram tanto no Ocidente, que engoliram todas as vozes dissonantes, incluindo o próprio Tribune, que, apesar do imenso prestígio, acabou destruído pelo jornalismo de acomodação, representado pelo New York Times, criando monopólios que fomentam mais o jornalismo da espetaculização da notícia (porque lucrativa) do que a profunda investigação dos fatos.

O empobrecimento do nível do jornalismo e da diversidade é nítido hoje em dia. Só faz sentido apoiar a liberdade de imprensa se junto com ela estiver a ideia da pluralidade e combate aos monopólios oligárquicos que mostram apenas uma visão de mundo – a deles, óbvio. Se Marx fosse vivo hoje, certamente ele tocaria nessa ferida. E Sérgio Augusto, em vez de terminar seu artigo com a frase “Quem pouco ou nada sabe pensa mal e costuma agir pior ainda”, diria: “Quem conhece apenas a versão da imprensa pensa mal e costuma agir pior ainda”. Que o digam os leitores da Veja e do Globo que andam pedindo golpes militares e Impeachment por aí...

Atualizado em 12 de novembro de 2015

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