SIP: onde se forma o consenso da imprensa conservadora latino-americana

sipAqueles leitores mais distraídos, que podem achar que as grandes mídias da América Latina têm sempre aquela visão idêntica sobre política, economia, etc. por pura obra fortuita do acaso – por exemplo, sempre a favor do mercado, a favor da “liberdade de expressão”, contra a regulação da comunicação (Lei de Médios) e contra qualquer governo ou político governante de esquerda – talvez nem sequer desconfiem que esse consenso é na verdade fabricado num clube de empresários donos de jornais chamado Sociedade Interamericana de Prensa (SIP).

Todos os grandes jornais brasileiros, como a Folha de São Paulo, O Estadão e O Globo, além de grupos como Diários Associados e Abril são filiados ao grupo com sede em Miami – por acaso local de exílio dos cubanos opositores de Fidel Castro – e que fomentam na América Latina a visão conservadora do patronato de imprensa local associado com grandes empresas capitalistas das Américas e do Departamento de Estado dos EUA.

Fundada em 1943, a SIP vem patrocinando ataques a governos de esquerda que alcançam o poder na América Latina, através dos seus órgãos de imprensa afiliados, rompendo sem o menor pudor os preceitos de isenção jornalística.

Especialmente com a crise do neoliberalismo nos anos 90 que jogou os partidos latino-americanos de direita no total descrédito e promoveu a ascensão de governos progressistas pela via eleitoral, os periódicos filiados à ideologia empresarial da SIP ficaram mais agressivos e começaram a travar uma verdadeira e desavergonhada batalha golpista contra os governos democráticos da região.

Grupos como Clarín, na Argentina, que se beneficiaram diretamente da Ditadura militar para prosperar, não medem esforços para desestabilizar o governo Kirshner; na Venezuela, TVs como a Globovisión não tinham a menor vergonha de caluniar diariamente o presidente Chávez, inclusive com ironias criminosas como falsas previsões de horóscopo que diziam: "hoje é um bom dia para matar o Presidente”; no Chile, documentos do Departamento de Estado já tornados públicos revelaram que o jornal El Mercúrio recebeu 1,5 milhão de dólares da CIA para ajudar a campanha de desestabilização do governo constitucional de Salvador Allende. Certamente esses pequenos exemplos mostram, no mínimo, que a SIP tem interesses políticos indisfarçáveis alinhados com os da Casa Branca há muito tempo.

Recentemente, dois eventos completamente diferentes vem deixando claro como funciona a politização da imprensa no continente: na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro sofre com as campanhas mentirosas dos meios de comunicação do país, que não se furtam a usar imagens forjadas para acusar o governo de violência na crise que a própria imprensa ajuda a fomentar; no Brasil, a morte de um cinegrafista serviu de pretexto para as Organizações Globo lançarem uma campanha vergonhosa contra as manifestações populares, contra um político de esquerda e contra o seu partido, que atrapalham os interesses empresariais da associação latino-americana. Tal como os meios de comunicação da Venezuela, a revista Veja também não se furtou a usar uma montagem de fotoshop em sua publicação semanal para incriminar uma ativista ligada ao mesmo político. E isso foi só nas duas últimas semanas…

Alguns países da região têm tentado neutralizar a oligarquia das poucas famílias que controlam a imprensa, através das chamadas “Leis de Médios”, que visam a pluralizar e democratizar a comunicação, quebrando monopólios e fornecendo mais opções de informação. No Brasil, a SIP tem conseguido barrar diretamente a menor tentativa nesse sentido, contando com a pusilanimidade do governo. Desde 2009, até tem-se tentado emplacar debates independentes para discutir a democratização das mídias através da Conferência Nacional de Comunicação, mas o governo recua diante da gritaria e acusações de “autoritarismo e interferência na liberdade de expressão dos órgãos de imprensa”, falácias que têm servido para manter os privilégios dos grupos ligados à SIP, que se dizem preocupados "porque os debates (nas conferências) são conduzidos por ONGs e movimentos sociais”. Sobre isso, o sindicato dos jornalistas do Rio de Janeiro se pronunciou na ocasião:

A nossa entidade não pode silenciar diante do posicionamento pouco democrático manifestado pela SIP. É preciso deixar bem claro que o patronato mente quando diz que defende a liberdade de imprensa, pois está, isto sim, defendendo de fato a liberdade de empresa, que não aceita a ampliação dos espaços midiáticos a serem ocupados pelos mais amplos setores representativos do povo brasileiro, como são os movimentos sociais.

Passados mais de quatro anos desde a primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em Brasília, que tinha como meta “a elaboração de propostas orientadoras para a formulação da Política Nacional de Comunicação, através do debate amplo, democrático e plural com a sociedade brasileira, garantindo a participação social em todas as suas etapas”, nada mudou sobre o monopólio dos grandes meios de comunicação no Brasil. Quando a notícia vira mercadoria e os jornais viram empresas que só visam o lucro, o jornalismo vira negócio e o cidadão é o maior lesado, porque a imprensa não passa a vigiar os interesses da opinião pública, e sim os seus próprios interesses mercadológicos. Esses grupos são poderosos, mas não podem se sobrepor aos interesses da sociedade.

Só quando o país se livrar da influência dos grupos de mídia comerciais ligados a interesses políticos da Sociedade Interamericana de Prensa, é que poderemos começar a discutir sobre uma verdadeira democracia no país. Até lá, ainda veremos muitos interesses comerciais e políticos disfarçados de imparcialidade jornalística, como tem sido nos recentes e constantes editoriais das Organizações Globo.

Fontes:

http://observatoriodaimprensa.com.br//http://www.mc.gov.br/acessoainformacao/servico-de-informacoes-ao-cidadao-sic/respostas-a-pedidos-de-informacao/25143-dados-sobre-a-1-conferencia-nacional-de-comunicacao-confecom-realizada-em-2009/http://www.sul21.com.br/jornal/a-agenda-interditada-da-conferencia-nacional-de-comunicacao/ 

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