Sem liderança, os protestos no Brasil não têm futuro

líderAos poucos, vou perdendo a convicção nos protestos que andam acontecendo e os que estão para acontecer. Não porque não concorde com essa legítima forma de manifestação amparada até pelas constituições liberais burguesas, mas porque a acefalia dos movimentos sociais no Brasil, fragmentados, desunidos, sem uma linha de conduta, sem direção, tornam os protestos presas fáceis daqueles a quem pretendem combater – esses sim, bastante organizados e com objetivos muito bem definidos.

Parece que, até agora, a maior bandeira dos protestos tem sido o lema “Não vai ter Copa”. E por que não vai ter? Porque “falta saúde, educação e transportes”. Sim, isso está muito claro. Mas qual a estratégia para atingir esses objetivos? Que tipo de organização política permitirá alcançar o poder? De que maneira? Aí que a coisa começa a complicar.

Existia uma frase irônica – porém, sintomática -- que se dizia muito na época do Estado Novo no Brasil: “A esquerda só fica unida na prisão”. Sempre existiu uma dificuldade enorme entre as esquerdas brasileiras para apresentarem uma proposta unificada, legítima e consensual para mudar os rumos do país. O que sempre vimos, por exemplo, foi um partido de esquerda seguindo diretrizes internacionais com as quais tinha filiação, criticando propostas nacionalistas de outros, fazendo alianças com a direita para derrubar um partido de esquerda que não fosse da sua vertente, mudando de opinião conforme a direção dos ventos sobre líderes políticos… Enquanto isso, a direita, em defesa dos seus próprios valores e interesses, foi sempre capaz de derrotar qualquer um desses movimentos enfraquecidos. Ainda hoje segue esse mesmo padrão, e o resultado é que, apesar da imensa insatisfação geral, não existe um candidato de legítimo partido de esquerda com chances de vencer as eleições em alguma importante capital esse ano, muito menos para o Executivo nacional.

Para piorar um pouco mais as coisas, hoje os movimentos sociais ditos de esquerda, bem de acordo com as tendências pós-modernas, já não acreditam em organizações políticas como porta-vozes legítimas das massas, muito menos apoiam lideranças que por ventura possam direcionar os movimentos, dar a eles uma meta definida. O padrão, hoje, já não é mais a do líder que diz o que fazer e quando fazer, e sim a do subcomandante Marcos, conhecido membro do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) que no entanto não assume nem defende sua posição de liderança – apesar de tê-la. Parece que é feio ser líder.

De alguma forma, durante esse processo de total descrença nas representações políticas nos últimos 20 anos, as lideranças saíram de cena. Mas vejam bem, somente as lideranças dos movimentos sociais pelo mundo foram questionadas, e não toda e qualquer liderança em si. Seguir uma liderança não quer dizer obediência cega, e sim entender que existe alguém com preparo e visão acima da média que é naturalmente aceito para organizar uma determinada ação. Durante muitos milênios as sociedades espalhadas pelo mundo se organizaram exatamente dessa maneira, e ainda hoje ela não está totalmente abandonada – muito pelo contrário: basta ver que as instituições burguesas continuam se organizando sob a instituição da liderança, seja na presidência de uma República, seja no comando de uma corporação militar, ou religiosa. Por que somente os líderes dos movimentos sociais são tão questionados?  

Imagine, a título de ilustração, uma batalha travada na Antiguidade, em que, de um lado, temos um monarca na frente do seu exército bem treinado, auxiliado por seus cavaleiros e com a bênção dos representantes da entidade religiosa do momento que dão as justificativas morais para a luta, como por exemplo “manter a ordem e os pilares da nossa sociedade contra os malfeitores do inferno”. E do outro lado do campo de batalha temos uma massa de camponeses revoltados, indignados, prontos para lutar pelos seus direitos constantemente vilipendiados, porém sem uma liderança e sem uma estratégia de combate definida. Essa tem sido a história dos conflitos entre governos tiranos e governados humilhados nos últimos milênios em todo o mundo. E salvo pouquíssimas exceções, somente um mesmo lado tem vencido essas batalhas. Numa das raras ocasiões em que o lado mais fraco e até então desorganizado foi capaz de derrotar o lado mais forte e organizado, não foi por acaso: havia uma grande liderança por trás, guiando as ações com sua estratégia bem definida e o seu conhecimento da conjuntura do momento. Isso ocorreu em outubro de 1917 e seu nome era Vladimir Ilyitch Uliánov, mais conhecido como Lênin, membro do partido bolchevique russo.

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