Moralistas muitas vezes lutam contra si mesmos

cena do beijo em Beleza Americana

Nessa última sexta-feira parece que o país parou mais uma vez para assistir ao último capítulo de uma novela. E não foi só porque o brasileiro adora esse tipo de entretenimento, pois afinal, dizem, a novela em questão não foi das mais empolgantes, e sim por conta da expectativa de um tão polêmico beijo gay, que acabou, de fato, acontecendo.

Durante anos se debateu as possíveis consequências para a “família” brasileira se um ato tão banal fosse transmitido em rede nacional, o que mostra o quanto ainda estamos atrasados, presos em valores absolutamente ultrapassados neste país (embora o próprio beijo enfim transmitido mostre que estamos melhorando aos poucos). Isso se dá muito por conta da persistente influência de costumes tradicionais, conservadores, cristãos, que durante muito tempo prevaleceram no Brasil e que recrudesceram nestes novos tempos de transição de comportamentos. Seria uma forma de controlar as supostas “promiscuidades” alheias e zelar pelos valores de deus, da pátria e da família que estariam se perdendo? Sim, mas existe um outro lado desta moeda que poucos têm coragem de admitir: combater a imoralidade da sociedade, no fundo, é uma maneira de controlar os próprios impulsos. Quem viu o clássico filme Beleza Americana (na cena da imagem acima) sabe muito bem do que eu estou falando.

Moralistas são os maiores consumidores de “imoralidades”

Não faz muito tempo e uma pesquisa científica apontou justamente para esta conclusão. Homofóbicos, por exemplo, na verdade sentem um desejo sexual enrustido pelas pessoas do mesmo sexo. O curioso é que os moralistas, sob pretexto de fiscalizar o comportamento da sociedade, na verdade estão entre os que mais dão Ibope para as supostas imoralidades. Quanto daquela audiência do beijo gay da Globo não foi dada justamente pelos moralistas de plantão?

Mas um dos casos mais engraçados e ilustrativos sobre essa questão aconteceu há muito tempo, e vale a pena relembrá-lo.

Carlos Lacerda era um dos jornalistas e políticos mais pudicos do país enquanto foi uma figura pública de relevância, defensor ferrenho da moral e dos bons costumes (claro que ele também era um dos maiores cretinos americanófilos fomentador de golpes contra governos nacionalistas que já existiram, mas isso não vem ao caso agora). No começo dos anos 50, o jornal Última Hora publicava uma coluna do Nelson Rodrigues chamada A vida como ela é. Todos os dias, durante 10 anos, o famoso autor ofereceu aos leitores histórias ousadas que geralmente tratavam sobre o mesmo tema: adultério.

Lacerda, com a sua característica fúria canina à la Bolsonaro, dizia que Nelson Rodrigues punha em xeque os “pilares da nossa civilização cristã”. No seu jornal, Tribuna de Imprensa, resolveu partir pro ataque. Num caderno especial intitulado “Preto no Branco – Depoimento sobre o jornalismo-capão”, ele fez um curiosíssimo e detalhado exame das publicações “imorais” de Nelson Rodrigues, com um afinco apaixonado:

Das 48 histórias que examinei, 26 são de adultério. […] Seis, de homicídio, três, de espancamentos de cônjuges. Cinco, de embriaguez alucinatória. Casos de necrofilia, instigação ao suicídio […] E, para terminar, das 48 histórias, 35 se desenrolam nos seguintes ambientes: 12, em cemitérios; 12 em rendez-vous; 2, em necrotérios; 8, em enterros; 4, em mausoléus e 2 em bordéis*

Nem o mais doentio dos maníacos depravados seria capaz de um relatório com tamanha riqueza de detalhes. Fico a imaginar Carlos Lacerda, o guardião moralista, sentado no seu escritório à noite, lendo Nelson Rodrigues, anotando em cada uma das 48 publicações a lista de cada uma das licenciosidades narradas nas histórias. Tudo isso para salvar a nossa civilização cristã da degradação moral, é claro…

É ou não é um exemplo típico de moralista com desejos secretos enrustidos? Quantos destes estarão espalhados por aí ainda hoje, bradando raivosamente uma coisa e praticando (ou pelo menos pensando) secretamente outra?

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*Fonte: AGUIAR, Ronaldo Conde. Vitória na Derrota. Quem levou Getúlio ao suicídio. Casa da Palavra: Rio de Janeiro, 2003

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