A miséria da análise política de Lobão

Lobao no Roda VivaGraças aos benefícios da internet, eu pude assistir hoje a entrevista do Lobão no Roda Viva de ontem. O cantor e escritor tem sido premiado com destaque na mídia política nacional recentemente (comumente conhecida como PIG) não por conta de seu talento musical, sua enorme capacidade de análise política (bem menor que o talento musical) ou alguma grande obra literária – seus dois recentes livros não chamam nenhuma atenção, apesar de recheados de polêmicas. Lobão consegue seu atual reconhecimento na imprensa por conta de sua persistente verborragia neoconservadora, reacionária e odiosa, tão ao gosto dos barões oligarcas da grande imprensa. Tudo isso num discurso enfeitado e com um verniz de intelectualidade que encobre um caminhão de palavras desconexas, arbitrárias e sem base factual.

A entrevista de ontem expôs seus fãs políticos (aqueles que concordam com seus pontos de vista) ao ridículo, pela total falta de responsabilidade e coerência. Eu, por exemplo, acho totalmente lamentável que um cidadão tenha opiniões esdrúxulas a respeito do “oportuno” Golpe de 64 e ainda assim se dizer contra a Ditadura, ou que seja contra as cotas raciais em Universidades e ainda criticar o racismo. Pois, afinal, coerência não é igual bunda: ou você tem ou você não tem; mas atacar a presidente do Brasil com comentários tão baixos e deselegantes em rede nacional como "Dilma é completamente inapta, não sabe falar, não sabe fazer nada. É de uma estupidez galopante" constrange. Até os mais exaltados dos inimigos políticos em guerra chegam a demonstrar algum elegante respeito pelos adversários, por mais que, no fundo, queiram trucidá-lo no campo das discussões. Lobão, por sua vez, foi de uma baixeza imensurável. É do tipo que, se precisar ganhar, atira pelas costas.

Eu estou bem a cavaleiro para criticar essa postura odiosa, porque não sou dilmista nem petista, muito pelo contrário; mas eu não deixo de lamentar o tipo de análise tacanha que a direita sempre faz em relação ao governo, daquele repleto de maniqueísmo: nós, os bons, eles, os maus.

Lobão não consegue perceber avanços na condução do governo, apenas porque odeia o PT tão cegamente que é incapaz de ver alguma coisa positiva nos últimos governos petistas. Para ele, com seu discurso da tragédia nacional, é tudo horrível, tudo pior, tudo aterrorizante, tudo uma roubalheira, e estaríamos à beira de uma convulsão social.

Infelizmente esse tipo de análise pobre é o que prenomina na mídia e na oposição de direita. E é espantoso que Lobão tenha tanta repercussão positiva como analista político no seio de uma determinada camada social brasileira, que está longe de ser pequena.

Para fechar esse show de horrores onde a verdade é só um detalhe que pode ser moldado ao gosto do freguês, Lobão – um notório ex-usuário de drogas, diga-se de passagem – está muito “preocupado” com a descriminalização da maconha no Uruguai. Para ele, as FARC (!!??) estariam se beneficiando desse processo, porque “controlam muitos governos na América do Sul”. Fontes? Pra quê?

E assim se cria mais um monstrengo reacionário pronto para ter suas “análises” replicadas pelos seus simpatizantes da direita brasileira. E assim nosso debate sobre política nacional continua padecendo de uma pobreza atroz. E Lobão se promove na onda reacionária que ele sabe surfar muito bem.

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