9 de novembro de 2013

Portugal, crise do capitalismo e desigualdade social

Pobreza em PortugalAs pessoas mais atentas devem se perguntar a respeito da economia mundial em que estão inseridas: como um sistema – o capitalista – que desde a década de 70 do século XIX apresenta crises cada vez mais frequentes e devastadoras é capaz de se manter, mesmo provocando cada vez mais rejeição na população?

Certamente porque nem todos sofrem seus efeitos de forma idêntica.

Enquanto está tudo bem na economia, os barões do capitalismo usufruem de liberdade para praticar as suas jogatinas especulativas, inchando de modo artificial as suas riquezas. Os trabalhadores podem, por outro lado, desfrutar de alguma estabilidade. Mas eis que um dia a brincadeira dá errado, e as fortunas começam a desmoronar como um castelo de cartas, assim como os empregos começam a faltar. Quem paga a conta dessa irresponsabilidade temerária? Os trabalhadores, é claro.

Enquanto a população trabalhadora carrega nos ombros o peso dos estragos que meia-dúzia de especuladores provocaram, os barões do capitalismo conseguem enxergar novas oportunidades de negócios em plena crise para aumentarem seus rendimentos. A desgraça de uns pode ser a oportunidade de outros. E por isso o capitalismo, apesar de tão venenoso para a economia de um país, ainda se mantém de pé com todas as crises que provoca. Pelo menos por enquanto.

Um pequeno exemplo atual nos bastará para ilustrar essa tendência.

A crise econômica de 2008 foi particularmente perversa com Portugal, um país que já atravessava problemas econômicos não era de hoje nem de ontem. A partir dessa avalanche na economia, com o baixo crescimento  que o impede de saldar os compromissos, Portugal foi obrigado a recorrer a um empréstimo de 78 bilhões de euros com juros não muito satisfatórios à troika*. A recessão afeta o setor mais vulnerável da população: os trabalhadores e aposentados. O desemprego faz a oferta de mão de obra do exército de reserva do capitalismo português aumentar, achatando os salários daqueles que conseguem um tão procurado emprego.

Mas diante de um quadro tão alarmante, Portugal nos apresenta um outro lado bastante inusitado: segundo o Relatório de Ultra Riqueza no mundo em 2013, Portugal, que tinha 785 ultramilionários com mais de 22 milhões de euros em 2012, conseguiu a proeza de aumentar o número desses felizardos em 85 membros neste ano, chegando a marca de 870 magnatas com mais de 20 milhões de euros cada um. Isso em plena recessão econômica...

Todos esses apatacados representam apenas 0,009 por cento da população portuguesa, mas concentram nas mãos o equivalente a 74 bilhões de euros – quase o mesmo valor que o país precisou pedir emprestado para salvar as contas da economia nacional. E esse fenômeno do aumento da concentração de riqueza é mundial, onde quer que o capitalismo tenha se instalado, seja com crise, seja sem crise.

Houve um tempo em que estes barões da riqueza podiam brincar de ganhar dinheiro impunemente, pois as pessoas estavam tão envolvidas com a crença no sistema capitalista, que podiam acreditar no sonho de que um dia chegaria a vez delas de poderem ter um iate ou uma cobertura num condomínio de luxo também. Mas nas últimas décadas, as pessoas comuns, os estudantes, os trabalhadores, os sindicalistas, aposentados, ou seja, aquelas que carregam de fato o país nas costas, estão cada vez mais abandonando as suas fantasias para combater a realidade do sistema que tem na sua essência o aprofundamento cruel da desigualdade. Seja nos Estados Unidos, na Grécia, nos países árabes, em Portugal e agora também no Brasil, o capitalismo tem vivido cada vez mais sob uma forte e crescente pressão das ruas. Aonde isto vai dar, é um dos episódios mais aguardados para os próximos capítulos da história ocidental.

* O termo troika é usado como referência às equipes constituídas por responsáveis da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional que negociaram as condições de resgate financeiro na Grécia, no Chipre, na Irlanda e em Portugal.

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