5 de novembro de 2013

O rei do camarote e os números da violência

 Violencia

Essa semana, dois fatos aparentemente isolados foram noticiados nas mídias brasileiras. Primeiro, em reportagem da revista Veja de São Paulo, conhecemos a vida fútil e ostentatória de um playboy paulistano conhecido como “Rei dos Camarotes”, ao mesmo tempo que tomamos ciência de números estarrecedores sobre a violência no nosso país. Para onde quer que se olhe, há estatísticas e mais estatísticas sobre o crescimento de diversas modalidades de atos violentos, neste que é paradoxalmente conhecido como o país da festa e da alegria – pelo menos para as elites ignorantes que vivem no luxo supérfluo.

Quase 50 mil homicídios em um ano

De acordo com dados publicados recentemente, 47.136 pessoas foram vítimas de homicídio doloso (quando há a intenção de matar) em 2012, um número exorbitante que excede todas as medidas de uma nação democrática e sem guerras. Isso dá uma média de 129 assassinatos por dia, salvo algum erro matemático de minha parte, o que não seria inesperado.

O dobro de estupros da Índia

Aí quando você pensa que nada pode ser pior do que isso, a mesma publicação relata que o número de estupros é ainda maior: 50.617 casos de estupro em 2012, o que equivale a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes – um aumento de 18,17% em relação ao ano passado, quando a taxa foi de 22,1 por grupo de 100 mil. Isso se você levar em conta apenas os casos registrados oficialmente..

Só a título de comparação: a Índia é reconhecida como um dos países onde a incidência de estupros é uma realidade cotidiana alarmante. No entanto, segundo dados do governo indiano, em 2011 foram registrados 24.206 estupros, menos da metade dos casos no Brasil, que tem uma população 6 vezes menor...

Para fechar esse quadro de calamidades brasileiras, duas mil das vítimas de assassinato foram mortas pela polícia, que é a mais violenta do mundo. Nenhuma mata mais do que a nossa.

Como nos tornamos uma das nações mais violentas do mundo?

Não existe resposta fácil para esta pergunta. É claro que uma série de fatores convergiram no passado para que chegássemos a essa condição atual, fatos complexos que não cabem neste espaço. Mas se pudéssemos apresentar uma causa bastante segura como base para este estado de coisas, certamente seria a profunda desigualdade social brasileira – também ela uma das maiores do planeta – que nos fornece miseráveis de um lado, burgueses inúteis como o rei do camarote de outro e uma polícia que mata os primeiros para garantir a festa dos segundos.

 contraste social

Não é que a pobreza esteja automaticamente ligada à violência, como já explicamos aqui. Mas quando a ostentação, o luxo, a posse, o consumo, se tornam valores em si mesmos, uma meta a ser alcançada em detrimento de outros mais nobres, como a cooperação e a solidariedade, para que você seja reconhecido como alguém que mereça respeito e dignidade, então as pessoas fazem de tudo para conquistá-la. Como já foi explicado pelo psicanalista e professor de Medicina Social da UERJ, Benilton Bezerra Júnior,

Somente numa cultura que enaltece a posse do dinheiro e bens como expressão de sucesso, de uma vida digna de ser vivida, a pobreza tende a ser vivida como exprimindo o contrário. Num contexto como esse, a pobreza não implica apenas restrição material, mas, sobretudo, uma restrição simbólica [moral], e como tal precisa ser negada de qualquer forma, mesmo com o recurso à violência

Em sociedades capitalistas onde as elites se tornaram egoístas e guardaram apenas para si o acesso à educação e a grande parte dos bens materiais de um país, jogando milhões de pessoas na vida precária, a violência tende a ser uma realidade cotidiana.

Para que diminuam os casos de violência, não existem soluções mágicas, mas somente quando a distância colossal entre os mais ricos e o mais pobres for trazida para mais perto de um equilíbrio, é que se poderá pensar seriamente em diminuí-los. Enquanto isso, ainda teremos que conviver com números aterradores de violência junto com parasitas ostentadores das elites como “o rei do camarote” e suas lições de indignidade superficiais.

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