Mensalão e a Justiça seletiva

Jose GenoinoEnfim, alguns dos condenados da Ação Penal 470, alcunhada pela imprensa como “caso do mensalão”, começam a cumprir penas. Dentre eles, figuras de alta patente como José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino e Marcos Valério.

Apesar da festa dos órgãos da imprensa comercial, que saboreiam indisfarçavelmente o prazer pelo desfecho do caso – e também daqueles setores das classes médias levadas de roldão pela onda reacionária que as mídias sempre promovem – a sensação por aí não é a de que finalmente o Brasil deu cabo de sua longa tradição de impunidade contra crimes praticados por políticos. Não se percebe otimismo, muito menos esperança de que, a partir de agora, os políticos que coloquem suas barbas de molho, porque a Justiça brasileira acordou. Não é disso que se trata.

A sensação é de que a Justiça, composta por magistrados, que por sua vez compõem uma determinada classe social elevada, também atuam politicamente. Junto com a imprensa – outro setor que no Brasil se acostumou a atuar de forma política e não jornalística – formam um poderoso instrumento que pode destruir reputações daqueles que atravessam seus interesses.

Somente este fator é capaz de explicar a longa apatia e o estratégico desinteresse do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal pelos vastos e gravíssimos indícios de atividades ilegais como corrupção, enriquecimento ilícito, favorecimento indevido e formação de quadrilha praticados por membros do alto escalão do PSDB. Todos esses casos foram sumariamente ignorados, engavetados e deixaram de ser investigados e julgados, apesar dos inúmeros documentos que levam a estas conclusões – alguns desses crimes fazem o mensalão parecer coisa de criança, como foram devidamente comprovados no livro Privataria Tucana.

Antes, a impunidade de crimes cometidos por políticos era a marca da justiça brasileira; agora a justiça (ou a impunidade, como queiram) é seletiva: só atinge determinado grupo que não faz parte dos escolhidos e protegidos pelas classes dominantes brasileiras.

Que esse caso sirva de exemplo para o PT e para as esquerdas brasileiras de modo geral. Não se pode chegar ao poder e, em vez de enfrentar as oligarquias e os barões do capitalismo para impor as reformas que o país precisa, compor alianças com estes setores, achando que serão acolhidos de braços abertos, como iguais. Os petistas agora condenados acreditaram que tinham as elites como aliadas, mas, na verdade, elas nunca deixaram de tramar dia e noite para lhes puxar o tapete. Se tivessem tratado estes setores dominantes como alguns governos progressistas vêm tratando na América Latina, como uma classe de privilegiados opositores das reformas, contra os quais é preciso lutar e não se aliar, talvez o PT não estivesse passando por este papel vergonhoso no Brasil atualmente. Enquanto as classes privilegiadas sofrem derrotas no Equador, no Uruguai, na Bolívia, na Venezuela e na Argentina, aqui no Brasil elas brindam com champanhe a mancha pública que impuseram na imagem do governo.

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