Continente africano: 500 anos vítima da exploração capitalista

É bastante comum, em sociedades como a nossa, onde não se têm o hábito de exercer o saudável senso crítico, olharmos para um determinado fen...

Exploracao da AfricaÉ bastante comum, em sociedades como a nossa, onde não se têm o hábito de exercer o saudável senso crítico, olharmos para um determinado fenômeno sem sermos capazes de identificar precisamente as suas causas verdadeiras. E esse vácuo de conhecimento é sempre preenchido com ideias deturpadas, pelo senso comum, pela desinformação, pela enganação e pela propaganda. E assim, preconceitos e clichês acabam se tornando verdades incontestáveis apenas pela repetição, como sabia muito bem o ministro da propaganda nazista.
 
Uma das regiões onde o desconhecimento absoluto sobre sua história só é superado pelos preconceitos absurdos que gera é o continente africano. Nesse mês da Consciência Negra, acho que seria uma boa ideia trazer alguns fatos que explicam um pouco do porquê a África permanecer durante tanto tempo com tantas dificuldades. Afinal a consciência começa com conhecimento. Certamente aqui não vamos ver as teses conservadoras disseminadas por aí de que o negro é incapaz de produzir uma sociedade próspera por conta de sua suposta inferioridade inata ou algo ainda pior, como aqueles cristãos que acham que os negros, como descendentes bíblicos de Cam, estão sofrendo um castigo celestial eterno. Vamos ser bem menos superficiais do que isso.
 

O lucrativo tráfico internacional de escravos

O drama do continente africano está intrinsecamente relacionado com o surgimento e o desenvolvimento do capitalismo. Quanto a isso não pode pairar a menor dúvida. Algumas pessoas alinhadas ao pensamento conservador – e também leitoras de almanaques de baixíssima qualidade histórica como “História politicamente incorreta do Brasil” – hoje em dia tendem a alegar que a escravidão já era uma prática local bem antes das Grandes Navegações a colocarem na rota do tráfico internacional, no século XV. Sim, é verdade. Mas o fato da escravidão ser uma prática inserida na cultura africana há muito tempo não oculta, muito menos minimiza os 300 anos em que estes seres humanos, além de escravos, se tornaram mercadorias no comércio internacional, vendidos e usados como moeda de troca para enriquecer os negócios dos mercadores europeus.
 
O resultado é catastrófico: nesse período, mais de 11 milhões de pessoas foram retiradas do continente africano para trabalhar como escravas nas fazendas do Novo Mundo, alijando a África do contingente de homens e mulheres jovens e saudáveis que poderiam desenvolver a própria região durante 3 longos séculos.
 

O fim do tráfico não foi o fim da exploração

Trezentos anos de usurpações e acumulação primitiva de capital não foram suficientes para os países europeus abrirem mão da sua cobiça pela África no século XIX. Com o Antigo Sistema Colonial perdendo espaço para o capitalismo industrial, era hora de compensar o fim da escravidão criando e garantindo mercados no combalido continente africano. Desde 1876, os países capitalistas da Europa traçaram fronteiras temerárias e criaram Estados à revelia dos africanos, colocando tribos e etnias diferentes num mesmo território, separando outras em territórios diferentes, o que certamente provocaria futuras guerras muito bem-vindas. Grandes empresas industriais e bancárias desses países europeus aproveitaram para assegurar o monopólio destes mercados e de suas matérias-primas.
 
Claro que tais motivos não poderiam ser confessados publicamente, e a propaganda tratou de difundir a ideia de que os brancos estavam levando a “civilização” e o “progresso” para as regiões “atrasadas”. Mas o que aconteceu de fato foram covardias, massacres e pilhagens que tinham como única razão de ser a sustentação do capitalismo europeu.
 
Onde estavam os liberais e os defensores da “igualdade” e da “fraternidade” nesse momento? Certamente de olhos fechados para o massacre do continente africano. Até 1946, a França, mesmo na sua fase republicana, manteve a legislação de suas colônias africanas da época monarquista. A administração francesa na África cobrava impostos dos “súditos” dos 16 aos 60 anos de idade, recrutavam pessoas para o trabalho obrigatório e exigia o “devido respeito à autoridade francesa”, que consistia, entre outras coisas, em descobrir a cabeça ou fazer uma saudação à passagem de um branco. O descumprimento de tais trivialidades resultava em sessões de golpe de chicote. A repressão de grupos contrários ao colonialismo, por sua vez, atingiu a crueldade de verdadeiros genocídios.
 

A exploração moderna: fome e dívidas

A Segunda Guerra Mundial desestabilizou os imperialistas europeus e possibilitou o processo de independência de algumas colônias africanas. Mas significou isto o fim da exploração capitalista e da influência dos interesses das grandes corporações no continente? Certamente que não. Pelo contrário.
 
Tentando eliminar a influência marxista entre os africanos que lutavam pela independência, os europeus e os Estados Unidos financiaram milícias fascistas, grupos separatistas e terroristas que combateram estes nacionalistas. As guerras civis resultantes mataram milhões de pessoas no século XX, nos campos de batalha diretamente e indiretamente quando agricultores que deveriam cultivar os alimentos nas fazendas destruídas pela sabotagem foram transformados em soldados ou milicianos.
 
O resultado é até hoje sentido: um endêmico e resistente quadro de fome que nos remete às famosas imagens tristes de crianças famintas e esqueléticas, estas que os conservadores e os cristãos usam para justificar seus preconceitos tacanhos, além dos diversos mutilados pelas até hoje ativas minas terrestres esquecidas nos campos. Pois não se trata de incapacidade ou de castigo divino: é o capitalismo internacional a resguardar seus próprios interesses, para assegurar os recursos naturais da região e para favorecer os lucros das suas empresas, que têm gerado todas as instabilidades na África. As guerras patrocinadas contra os africanos favorecem, por exemplo a indústria de armas. Para dar conta dos rebeldes, os governos são induzidos a se endividar, o que se trata de um outro tipo de escravidão. A dívida externa desses países é simplesmente impagável, mas isso não importa. Mais do que econômica, a dívida é política, e permite aos europeus impor uma série de medidas para ajustar as economias africanas aos seus interesses capitalistas.
 
Diante desse pequeno mas abrangente quadro histórico, como imputar aos africanos a culpa pelas suas próprias desgraças? Tal atitude só é possível porque olhamos a África sem conhecermos pelo menos um pouco as causas que a trouxeram até esta situação. Quando percebemos que durante mais de 500 anos o continente vem sendo atacado, usurpado e destruído por interesses que durante muito tempo não eram os seus, começamos a entender por que os africanos têm lutado sistematicamente contra um inimigo que em outras regiões do mundo veste a capa da liberdade, da justiça, do desenvolvimento e do bem-estar, mas que na região africana, ela mostra a sua verdadeira cara: escravidão, fome, miséria, guerra, holocausto e exploração: seu nome é capitalismo.

 

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