Mídia, Polícia e Manifestações

repressao policial

Ontem eu tive o privilégio de assistir a uma aula aberta do professor da UERJ e especialista em Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, no auditório desta Universidade, que, na verdade foi um debate com uma mesa que contava com o deputado Marcelo Freixo, o delegado de polícia civil Orlando Zaccone e um representante da Mídia Ninja. Os temas não poderiam ser mais pertinentes neste momento que vivemos no Brasil e em especial no Rio de Janeiro: política, polícia, as novas mídias e as manifestações. Acho interessante trazer e comentar alguns assuntos que considerei mais importantes nas palestras.

As bombas de efeito moral enriquecem os fabricantes

Penso que, hoje, o problema da brutalidade policial seja o tema mais oportuno, e por isso mesmo o delegado Zaccone foi o que trouxe os dados mais relevantes da noite. E não por acaso foi o que teve que responder a mais questionamentos quando as perguntas foram abertas ao público. O delegado chamou a atenção para um fato que pouca gente até agora se deu conta, apesar do nosso blog ter chamado a atenção justamente sobre esse detalhe dias atrás: as bombas de efeito moral, que a polícia do Rio de Janeiro joga aos montes na população, são mercadorias que precisam ser usadas, para que o governo do Estado do Rio as compre mais, até porque a Condor, que as fabrica, certamente é uma das doadoras de campanha de Sérgio Cabral. Daí a relação entre as muitas bombas que precisam ser usadas e o estoque que precisa ser constantemente renovado. Uma mina de ouro para os fornecedores.

Criminosos podem (e devem) ser brutalizados pela polícia?

Zaccone também afirmou que é a sociedade brasileira que legitima a violência policial, quando a opinião pública não acredita no valor dos Direitos Humanos. O exemplo que usou para ilustrar essa fala é sintomático. No primeiro filme Tropa de Elite, na cena final em que um capitão experiente (Nascimento) induz um policial novato (Mathias) a atirar a queima-roupa na cara de um traficante já dominado, várias pessoas em diversas sessões de cinema pelo país chegaram a aplaudir de pé quando o policial puxou o gatilho. Isso realmente é um triste retrato de uma sociedade que dá ao policial esse poder que ele não deveria ter.

A lógica militar do “inimigo interno”

Os recentes conflitos entre policiais e manifestantes têm colocado uns contra os outros, mas Zaccone acha que culpar apenas o policial pela violência é um tiro no pé. Ele acha que ambos deveriam se juntar e, por exemplo, protestar na porta da fábrica da Condor em Nova Iguaçu, no que eu concordo. Só que o que ele não disse é como mudar a cabeça de policiais como a desse Tiago Tiroteio e de seus colegas já animalizados, quando são amplamente “ideologizados” na lógica do inimigo interno. Antes, as polícias tinham o “subversivo”, o “comunista” a justificar seus atos de arbitrariedade. Com o fim da Guerra Fria e da ditadura militar brasileira, esse inimigo interno passou a ser o traficante varejista de drogas, negro e favelado. E agora foi criada a ideia do “vândalo” que precisa ser combatido. Só que, na prática, o “vândalo” é qualquer um visto como inimigo na ótica do governo. Pode ser você, eu ou até professores em luta por melhores condições de trabalho, como temos visto.

Amarildo

Marcelo Freixo trouxe temas relacionados com Direitos Humanos, tendo como exemplo principal o do pedreiro Amarildo. Hoje se sabe o que a polícia tentou esconder o tempo todo: Amarildo foi torturado e morto dentro da UPP da Rocinha. O detalhe é: a primeira (e última) coisa que o pedreiro pediu à sua mulher antes de ser levado pelos PMs, foi para que ela pegasse seus contracheques. Freixo explica com razão que, numa sociedade como a nossa, a violência policial revolta menos contra “vagabundos” e Amarildo já estava querendo se prevenir.

Quando Amarildo não voltou, sua esposa Beth foi à delegacia procurar informações, e aí teve o desprazer de conhecer o famigerado delegado Ruchester Marreiros, que disse essas palavras desdenhosas e revoltantes à esposa do pedreiro: “Ele deve estar bêbado por aí, volte daqui a 48 horas”.

CEIV

Ruchester é o mesmo delegado que tentou de todas as formas ligar Amarildo ao tráfico de drogas, como se isso justificasse o seu desaparecimento. Pra piorar ainda mais, este mesmo delegado faz parte da Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV), uma aberração criada por Sérgio Cabral, numa tentativa inacreditável de abafar as reivindicações das ruas, e pior, criminalizar as manifestações democráticas.

O representante da Mídia Ninja apresentou a história do grupo, sua forma de atuação, a necessidade de democratizar as mídias no país, mas sem dúvida o tema policial foi o mais requisitado da noite.

Nas próximas postagens voltaremos a dar sequência na série sobre a polícia militar.

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