28 de outubro de 2013

A classe média e o medo do povo

Primavera dos PovosEm 1848, a Europa foi sacudida por uma série de revoluções populares que se alastraram como fogo e que entraram para a história como a Primavera dos Povos. Porém, tão rápida quanto se espalharam, também foram derrotadas pela reação conservadora, com a ajuda de uma aliada inesperada que fez  a diferença na balança. Em menos de 3 anos, praticamente todos os regimes monárquicos derrubados foram restaurados no continente. Por que isso aconteceu?

Uma das causas principais daquele fracasso, conforme veremos, pode nos ajudar a entender um pouco melhor dos protestos que estamos vivendo atualmente em nosso país, guardadas as devidas proporções, é lógico, que clamam, senão por uma revolução, ao menos por reformas na sociedade e na política. Principalmente o comportamento reacionário das classes médias brasileiras com relação aos conflitos sociais e a greves dos trabalhadores que buscam melhorar as condições de vida de si próprios e do país inteiro.

Populares nas ruas, a classe média em casa

De acordo com o historiador Eric Hobsbawm, aquelas foram “revoluções sociais levadas a cabo por trabalhadores pobres”*. Eles estavam levantando barricadas e lutando até a morte nas ruas europeias para derrubar de uma vez as estruturas da velha ordem social do antigo regime, a monarquia, os privilégios, em nome de uma república constitucional e democrática.

Bem, mas aonde estavam os profissionais liberais, os burgueses, os comerciantes e os defensores do liberalismo político (ou seja, “a classe média”, como chama Hobsbawm), tradicionalmente ligados a estas bandeiras?

Se tem uma coisa que os burgueses se empenham mais em evitar do que as amarras e os privilégios do antigo regime, é a ascensão política do povo trabalhador que luta para mudar a ordem social pelas próprias mãos. Em todos os casos em que as revoltas populares ameaçaram tomar o poder em nome do povo, a burguesia virou as costas ao movimento popular e se aliou às classes mais conservadoras e reacionárias para impedi-las. O próprio conde de Cavour, que seria uma das figuras centrais da unificação da Itália naqueles tempos, deixou bem claro esse medo dos liberais perante o levante das massas:

Se a ordem social chegar a ser genuinamente ameaçada, se os grandes princípios sobre os quais ela repousa vierem a estar diante de um sério risco, então muitos dos mais decididos oposicionistas, os mais entusiásticos republicanos serão, temos certeza, os primeiros a aliarem-se aos flancos do Partido Conservador

Foi o que, de fato, aconteceu. Sem o apoio dos burgueses liberais e das classes médias, os trabalhadores europeus se viram isolados diante da união de forças conservadoras aliadas aos burgueses que mudaram de lado. A “Primavera dos Povos” fracassou porque não foi a luta dos progressistas unidos contra as forças conservadoras, e sim, como definiu Hobsbawm, entre a “revolução social” e a “ordem”. Aquelas deveriam ter sido revoluções burguesas, mas a burguesia fugiu delas.

Liberais brasileiros com medo da democracia real

Esse foi um fato isolado? Obviamente que não. Já havia ocorrido antes, quando os burgueses usaram as forças populares para desencadear a Revolução Francesa, mas quando assumiram o poder, se tornaram, eles mesmos, aliados da antiga reação conservadora. E aconteceu depois, onde quer que os burgueses tenham alcançado o poder e se sentido ameaçado pelas revoltas populares. Inclusive no Brasil.

É famosa a frase de Holanda Cavalcanti, político pernambucano, sobre os liberais brasileiros do Segundo Reinado: “Não há nada mais parecido com um saquarema [conservador] do que um luzia [liberal] no poder”. Durante esse período da história brasileira, os liberais brasileiros adaptaram o pensamento liberal europeu, excluindo principalmente os conceitos de participação popular e de democracia real. Esse fenômeno sobreviveu mesmo no século XX no cenário político e social nacional. Pois quando os trabalhadores reivindicaram maior participação na política, as classes médias, já ideologicamente cooptadas, apoiaram, entre outras ocasiões, o golpe das forças conservadoras em 1964 por medo da ascensão das classes trabalhadoras ao poder. Se tivessem ficado ao lado do povo, a história desse país teria sido outra, como também seria a história europeia.

Esse ano de 2014 está assistindo mais uma vez a população brasileira reivindicando não apenas melhores condições de vida, protestando nas ruas contra as remoções e a farra com dinheiro público para a Copa, contra os abusos dos empresários através das greves e a violência policial. Essas pessoas estão lutando para mudar a ordem elitista e excludente que se impõe aos mais pobres nas grandes cidades, como os trabalhadores europeus de 1948 lutaram para derrubar a nobreza. Mais uma vez, grande parte das classes médias, através de seus órgãos de imprensa, enxergam os movimentos populares com medo e discriminação, preferindo criminalizá-los e se apoiarem na causa dos conservadores para que tudo fique exatamente como está. Esse é o grande dilema das lutas populares no país.

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*A Era do Capital

Editado em 27/06/2014

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