Singapura, exemplo de sucesso neoliberal?

Pobreza em Singapura

O mundo vivia uma fase de relativo crescimento econômico nos anos pós-II Guerra, quando os países reconheceram as limitações e o fracasso do liberalismo do final do século XIX, e, principalmente, por conta do “perigo” comunista que vinha da antiga União Soviética, fato que obrigou os  governos mundiais a ceder a algumas demandas da população, como o aumento da proteção aos trabalhadores na forma do Estado de Bem-Estar Social. Além disso, resolveram que o Estado deveria tomar as rédeas da Economia, para nunca mais terem que lidar com uma nova crise como a de 29. Isso até os anos 80, quando o presidente norte-americano Ronald Reagan e a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher resolveram destruir esse modelo pelo mundo afora, defendendo reformas que, em certo sentido, resgatavam e aprofundavam alguns pressupostos do liberalismo – que ficaram então conhecidas como neoliberalismo.

O que defendem os neoliberais

Resumidamente, podemos definir algumas ideias políticas e econômicas neoliberais como essas: sistema capitalista que defende a não-intervenção do Estado na economia (Estado Mínimo) onde o Mercado é livre sem regulação estatal e a competitividade determinaria por si só o sucesso e o crescimento social de um país (“Mão invisível” do Mercado); privatização massiva de empresas estatais; livre circulação de investimentos e capitais  internacionais (com certa restrição à livre circulação da força de trabalho); abertura da economia pra a livre entrada de produtos estrangeiros, entre outras.

Fracasso do neoliberalismo pelo mundo

Depois da onda neoliberal que varreu o mundo nos anos 90 – e que chegou até nós no nefasto governo tucano de FHC – a maioria dos eleitores resolveu rejeitar esse modelo em diversos países, primeiro na América Latina, e agora pela Europa. O fracasso colossal das promessas neoliberais, o aumento do desemprego em massa, as repetidas crises econômicas que levam milhares de famílias à falência, o enfraquecimento das indústrias locais e o aumento do abismo entre ricos e pobres parecem argumentos fortes o suficiente para essa rejeição. Mas alguns defensores do sistema ainda resistem e foram procurar mundo afora algum mísero exemplo de sucesso domapa_singapura neoliberalismo, para provar que eles não estão tão iludidos assim. Foram encontrar um modelo numa pequena cidade-estado de 700Km2 na península da Malásia, na Ásia, com uma população menor do que a da cidade do Rio de Janeiro, com 5 milhões de habitantes: Singapura. Pelo menos, é o que eles pensam.

Fazendo o contrário do que manda a cartilha neoliberal

Singapura conseguiu alguns êxitos com investimentos estrangeiros diretos, mas não deixou as empresas multinacionais fazerem o que queriam, como defendiam os neoliberais. De acordo com o sul-coreano Ja-Hoon Chang, economista de Cambridge, enquanto recebiam bem as empresas estrangeiras, o governo adotava políticas seletivas para direcionar os investimentos em áreas que julgava estratégicas para o país – ou seja, a típica intervenção estatal na economia1.

O país, na verdade, não está em plena conformidade com os aspectos do ideal neoliberal como pensam seus defensores, muito pelo contrário. Indo na contramão do lema capitalista “mínima participação estatal nos rumos da economia de um país”, ele deu vários subsídios para atrair determinadas corporações transnacionais que considerava estratégicas para o país em detrimento de outras. Além disso, Singapura é um dos maiores Estados com empresas públicas do mundo inteiro. A participação de empresas públicas na economia é 4 vezes maior do que a da Argentina, por exemplo, e ainda há quem acredite que os nossos vizinhos sul-americanos quebraram a economia por conta de uma excessiva intervenção do Estado, enquanto Singapura é enaltecida como exemplo de sucesso do desenvolvimento econômico conduzido pelo setor privado…

A Singapore Airlines, por exemplo, é uma das empresas aéreas mais conhecidas e eficientes do mundo. Ao contrário da maioria das outras empresas do setor, ela nunca teve uma perda financeira em seus 35 anos de história. Não deve ser coincidência que a empresa é um empreendimento estatal, a exemplo de muitos outros no país, em mais um flagrante desrespeito às normas neoliberais – nesse caso, as privatistas…

O crescimento econômico de Singapura, baseado na sua forte indústria – 18 por cento mais produtos manufaturados per capita do que os Estados Unidos4, apesar dos teóricos do livre-comércio defenderem a vocação “agrícola” do país, ou os profetas da economia pós-industrial alegarem que seria melhor desenvolver o setor de serviços – vinha ocorrendo de forma sistemática desde os anos 60 e 70, e não por conta das políticas neoliberais dos anos 90. Aliás, hoje Singapura é um dos países mais desiguais do planeta, ocupando a posição 78º numa lista de 124 países, atrás da Guiné e da Jamaica, por exemplo, justamente por conta do seu mercado aberto. Se o país cresceu em alguns setores, foi apesar das políticas neoliberais adotadas pelo governo, e não por causa delas, como acreditam as tietes do livre-mercado, como acabamos de demonstrar.

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  1. CHANG, Ha-Joon. O Mito do Livre-Comércio e os Maus Samaritanos – A história secreta do capitalismo. Ed. Campus, Rio de Janeiro, 2008. p.93
  2. Idem, pp. 27-28
  3. Idem, 105
  4. Idem, p. 210

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