Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

30 de agosto de 2013

Os atravessadores do novo Maracanã

Odebrecht

Desde que o capitalismo começou a se consolidar na Europa, a partir do século XVI, os atravessadores se tornaram figuras controversas nos negócios, rompendo com o sistema tradicional das corporações de ofício em nome do lucro fácil. Se antes o produtor fazia seus produtos diretamente para o consumidor final, com a entrada desses intermediários em cena, passaram a produzir para o comerciante, que pagava uma quantia módica pelo serviço dos artesãos para depois revender, ele mesmo, o produto para o consumidor final com os preços mais elevados.

Nesse começo de século XXI, no Brasil, assistimos a um tipo mais sofisticado desse sistema, mas, no entanto, igualmente vampiresco em sua essência. Através de concessões, o Estado se afasta da tarefa de oferecer diretamente produtos e serviços ao cidadão em favor de empresas privadas, que atuam como intermediárias entre o Estado e o cidadão consumidor, explorando a concessão não necessariamente para oferecer serviços melhores, mas para lucrarem bem com a parceria. O Maracanã é hoje o exemplo mais destacado desse fenômeno – mas não o único.

Empreiteiras, as atravessadoras modernas

Construído pelo governo em 1950 para ser palco da final da primeira Copa do Mundo no Brasil, o estádio foi administrado com problemas, mas também com relativo sucesso pelo Estado durante mais de 60 anos, quando atendia diretamente ao público. Isso até o atual governo Cabral, quando foi dado de presente a um pool de empresas lideradas por uma empreiteira – a Odebrecht, a mesma que, por acaso, também controla a Supervia – que formaram o Consórcio Maracanã, que vem administrando o estádio nesse momento. Outras empreiteiras são donas das concessões do Metrô e das Barcas.

Tal como os atravessadores do século XVI, a Odebrecht paga ao Estado uma quantia módica: 5 milhões de Reais por ano para explorar o estádio do Maracanã. Mas as estimativas de lucro do estádio são infinitamente superiores a esse valor – dinheiro que, em vez de retornar para os cofres do Estado, vai para os bolsos dos atravessadores.

Com a entrada da Odebrecht em cena, não podemos dizer que o serviço melhorou. Os antigos problemas na compra de ingresso e acesso do público persistem. O Estádio está reformado (com dinheiro público) e isso custou muito caro ao torcedor. E não estamos falando no sentido figurado. A empreiteira pratica preços obscenos ao torcedor no ingresso e na alimentação. Além disso, a parceria com o Flamengo tem deixado os dirigentes do clube indignados, a ponto de terem lançado recentemente uma carta aberta reclamando das condições da parceria. No último jogo no estádio, por exemplo, os mais de 50 mil rubro-negros proporcionaram uma arrecadação bruta de R$ 2.266.070,00, mas apenas R$ 734.623,15 couberam ao clube na divisão igualitária com o atravessador. A Odebrecht ainda descontou da renda 400 mil Reais a título de “custo operacional”. No fim das contas, a empresa ficou com mais de 1 milhão em apenas um único jogo.

É claro que os clubes do Rio ganhariam muito mais sem o atravessador no caminho, como sempre foi. Então o que explica a presença de uma empreiteira na administração do estádio? O Consórcio não construiu o estádio, não investiu na sua reforma, mas está lá, presente, entre o Estado e o “cliente” – a torcida – intermediando o serviço  que sempre coube ao governo, para por as garras no dinheiro.

Quando você entende esse fenômeno, entende também por que as passagens do transporte público ficaram tão caras, não obstante o serviço apresentar os mesmos problemas de sempre. Afinal, todos eles têm os seus atravessadores. É preciso defender que o Estado seja o gestor de serviços públicos de qualidade ao cidadão, que assuma a sua responsabilidade de oferecer diretamente ao contribuinte os serviços pelos quais ele já paga em impostos, sem o vampirismo desses atravessadores que pretendem apenas lucrar em cima dos bens públicos, seja no Maracanã, seja nas barcas, nos trens, nos hospitais ou em qualquer lugar onde tenha dinheiro do contribuinte.

3 comentários:

  1. Adilson Fernandes Azevedo21 de setembro de 2013 10:57

    Sou flamengo e essa diretoria tentou resistir ao maximo que deu contra o consórcio, mas os resultados ruins em brasilia obrigaram o mengão a aceitar jogar no maraca.
    Pra mim isso é tudo culpa do governador que se vendeu e prejudicou o flamengo. Outra coisa: tem que baixa o preço, tá muito caro

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  2. MUITOS DEFENDEM QUE UMA EMPRESA FEITA COM DINHEIRO PÚBLICO NÃO DEVE SER PRIVATIZADA, VAMOS VER SE ISSO TEM LÓGICA?

    Pense em construir uma casa para alugar.
    Você não vai morar nela é só um jeito de guardar capital enquanto está na fase produtiva.
    Sua capacidade de ganhar dinheiro aos 30 anos pode não ser a mesma aos 60.
    A casa foi construída com seu dinheiro mas outros irão usufruir.
    Em troca você fica com o rendimento do aluguel.
    Quem já alugou sabe que não é melzinho na chupeta tudo depende de conseguir um bom inquilino
    Alugar imóveis pode ser fonte de muita dor de cabeça.
    Muita gente desisti de alugar, é muito calote e muita destruição do imóvel.
    Se o seu imóvel fica um tempo sem inquilino vira alvo de depredação, pode até ser invadido por sem teto.
    Se o imóvel fica em condomínio fechado você se livra da depredação, mas não escapa da taxa de condomínio...algo que era para lhe render algum dinheiro acaba dando PREJUÍZO.

    Por vezes é melhor vender tudo e se contentar com o rendimento da poupança que é baixo, mas isento de dor de cabeça...quando não há risco de confisco de poupança.

    Veja a Filosofia Matemática em ação:

    Em 2013 a Poupança rendeu 5,91%.
    Quer dizer que se você tinha 500.000 no início de 2013 chegou em 2014 com 529.550
    Como a inflação acumulada em 2013 também foi de 5,91%... esses 29.550 de “ganho” é pura ilusão.
    De qualquer forma se você não ganhou dinheiro também não perdeu.
    Se tivesse guardado embaixo do colchão teria “perdido” 29.550 reais.

    Para as pessoas mais leigas: Não é que debaixo do colchão você não tem mais os 500 mil é que o preço das coisas subiram em média 5,91% e o que você comprava no início de 2013 com 500 mil já não consegue comprar em 2014.

    Humm... mas estou fugindo do tema, vamos voltar ao que interessa nesse texto.
    ==========================
    Vamos pensar em termos de governo.
    Suponhamos que você é Presidente o país cresceu e necessita urgentemente de mais energia.
    Construir hidroelétricas demora, a melhor opção e Termelétricas.
    O investimento inicial é alto.
    Você não encontrou empresários com capital para bancar esse projeto ou com disposição para correr esse risco.
    Do outro lado você não pode deixar a população sem eletricidade.
    A solução tecnicamente e fácil.

    A população entende a urgência da obra e aprova a construção da termelétrica com o dinheiro dos impostos.

    E depois o que fazer?
    Sabemos que o governo é bom para construir grandes obras, sabemos também que ele é ruim para gerir.
    A solução técnica continua fácil.
    Com a termoelétrica já construída o risco diminui bastante.
    O grupo empresarial que achava arriscado construir agora se interessa em operar.
    Você como Presidente pode optar por vender a construção já pronta ou alugar “conceder” seu uso por determinado período.

    CONCESSÃO OU PRIVATIZAÇÃO?

    As duas opções se feitas com honestidade e inteligência são boas.
    Historicamente a pior decisão é o governo operar.

    http://terapiadalogica.blogspot.com.br/2014/11/petrobrax.html
    ________________

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    Respostas
    1. "Sabemos que o governo é bom para construir grandes obras, sabemos também que ele é ruim para gerir"

      Essa é uma das maiores falácias propagadas por gente interessada em iludir leigos sobre a capacidade do Estado de gerir empresas públicas.

      Chega a ser infantil o argumento. Como um Estado pode ter capacidade de construir gigantescas e complexas obras de infraestrutura, e não tem a simples capacidade de mantê-la??

      Você pode argumentar que basta dar uma olhada nos serviços públicos. De fato não são dos melhores. Mas isso não é por acaso, e nem prova de incapacidade gerencial. Isso é uma postura calculada, o sucateamento dos serviços públicos,primeiro para reforçar a falácia que você defende, e depois para que uma empresa privada a possa comprar em boas condições, fazer uma maquiagem e voilá, todo mundo fica admirado com a "melhoria".
      Mas olhe a Vale, olhe os trens do Rio, o serviço de telefonia, olhe tudo o que foi privatizado: são os campeões de reclamação do Procon... Isso sem falar que a Odebrecht, cujo presidente está preso por corrupção, está em vias de devolver o Maracanã por ser incapaz de gerar lucro com o estádio. Quer incompetência administrativa maior que essa??

      Então, não caia nessa esparrela de que o Estado malvadão e incompetente deve deixar tudo para a iniciativa privada e o Mercado bonzinho. Se querem tem um hospital, um transporte público, um sistema de telefonia,que invistam, construam e assumam os riscos inerentes ao capitalismo!

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