Os atravessadores do novo Maracanã

Odebrecht

Desde que o capitalismo começou a se consolidar na Europa, a partir do século XVI, os atravessadores se tornaram figuras controversas nos negócios, rompendo com o sistema tradicional das corporações de ofício em nome do lucro fácil. Se antes o produtor fazia seus produtos diretamente para o consumidor final, com a entrada desses intermediários em cena, passaram a produzir para o comerciante, que pagava uma quantia módica pelo serviço dos artesãos para depois revender, ele mesmo, o produto para o consumidor final com os preços mais elevados.

Nesse começo de século XXI, no Brasil, assistimos a um tipo mais sofisticado desse sistema, mas, no entanto, igualmente vampiresco em sua essência. Através de concessões, o Estado se afasta da tarefa de oferecer diretamente produtos e serviços ao cidadão em favor de empresas privadas, que atuam como intermediárias entre o Estado e o cidadão consumidor, explorando a concessão não necessariamente para oferecer serviços melhores, mas para lucrarem bem com a parceria. O Maracanã é hoje o exemplo mais destacado desse fenômeno – mas não o único.

Empreiteiras, as atravessadoras modernas

Construído pelo governo em 1950 para ser palco da final da primeira Copa do Mundo no Brasil, o estádio foi administrado com problemas, mas também com relativo sucesso pelo Estado durante mais de 60 anos, quando atendia diretamente ao público. Isso até o atual governo Cabral, quando foi dado de presente a um pool de empresas lideradas por uma empreiteira – a Odebrecht, a mesma que, por acaso, também controla a Supervia – que formaram o Consórcio Maracanã, que vem administrando o estádio nesse momento. Outras empreiteiras são donas das concessões do Metrô e das Barcas.

Tal como os atravessadores do século XVI, a Odebrecht paga ao Estado uma quantia módica: 5 milhões de Reais por ano para explorar o estádio do Maracanã. Mas as estimativas de lucro do estádio são infinitamente superiores a esse valor – dinheiro que, em vez de retornar para os cofres do Estado, vai para os bolsos dos atravessadores.

Com a entrada da Odebrecht em cena, não podemos dizer que o serviço melhorou. Os antigos problemas na compra de ingresso e acesso do público persistem. O Estádio está reformado (com dinheiro público) e isso custou muito caro ao torcedor. E não estamos falando no sentido figurado. A empreiteira pratica preços obscenos ao torcedor no ingresso e na alimentação. Além disso, a parceria com o Flamengo tem deixado os dirigentes do clube indignados, a ponto de terem lançado recentemente uma carta aberta reclamando das condições da parceria. No último jogo no estádio, por exemplo, os mais de 50 mil rubro-negros proporcionaram uma arrecadação bruta de R$ 2.266.070,00, mas apenas R$ 734.623,15 couberam ao clube na divisão igualitária com o atravessador. A Odebrecht ainda descontou da renda 400 mil Reais a título de “custo operacional”. No fim das contas, a empresa ficou com mais de 1 milhão em apenas um único jogo.

É claro que os clubes do Rio ganhariam muito mais sem o atravessador no caminho, como sempre foi. Então o que explica a presença de uma empreiteira na administração do estádio? O Consórcio não construiu o estádio, não investiu na sua reforma, mas está lá, presente, entre o Estado e o “cliente” – a torcida – intermediando o serviço  que sempre coube ao governo, para por as garras no dinheiro.

Quando você entende esse fenômeno, entende também por que as passagens do transporte público ficaram tão caras, não obstante o serviço apresentar os mesmos problemas de sempre. Afinal, todos eles têm os seus atravessadores. É preciso defender que o Estado seja o gestor de serviços públicos de qualidade ao cidadão, que assuma a sua responsabilidade de oferecer diretamente ao contribuinte os serviços pelos quais ele já paga em impostos, sem o vampirismo desses atravessadores que pretendem apenas lucrar em cima dos bens públicos, seja no Maracanã, seja nas barcas, nos trens, nos hospitais ou em qualquer lugar onde tenha dinheiro do contribuinte.

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