Médicos, pacientes e indústria farmacêutica

medicinaNos dias 22 e 23 de maio de 2009 foi realizada uma série de palestras patrocinadas pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital Sírio-Libanês, idealizadas pelo clínico-geral e internista do referido hospital, Alfredo Salim Helito e pelo veterano professor emérito da Faculdade de Medicina da USP, Dario Birolini. O resultado do encontro se tornou o livro Análise Crítica da Prática Médica, publicado em 2011 e com a participação de diversos especialistas na área.

O livro faz uma análise em alguns tópicos como relação médico-paciente, médico-indústria e médico-mercado, a qualidade dos profissionais que saem das escolas de medicina, entre outros temas. Devido ao debate suscitado pela presidente Dilma Rousseff recentemente a respeito da Saúde pública no Brasil, bem como a consequente diatribe que causou no meio dos médicos, acho oportuno trazer brevemente alguns detalhes da importante análise do professor Birolini feita naquela ocasião, para nos situarmos a respeito do debate que ora acontece no país sobre esses temas.

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  1. Relação médico-paciente: até pouco tempo atrás, o médico era visto como uma espécie de semideus, e o paciente, um pecador. Ao médico não cabia dar muitas satisfações sobre seu procedimento nem justificar suas decisões, a ponto de muitos pacientes sequer saberem do que tinham sido operados. Com o passar dos anos, devido a um maior grau de informação disponível, a coisa mudou. Os pacientes passaram a conhecer mais das doenças e a cobrar resultados – inclusive porque hoje se sentem clientes além de pacientes. Com os advogados para garantir seus direitos, hoje se pratica uma espécie de “medicina defensiva”, mudando a relação de confiança entre médico e paciente em uma de formalidade e contrato de prestação de serviços, cujo símbolo mais explícito é a do consentimento informado. Esse seria um dos motivos da “desumanização” dos profissionais da saúde no país;
  2. A formação do médico: o professor de medicina não vê a vida acadêmica como uma opção de vida, mas como uma alternativa, por conta dos baixos rendimentos e falta de motivação: ele trabalha nos hospitais e consultórios e transforma a docência em bico. O resultado é a queda da qualidade no ensino de novos profissionais. Outra questão importante: muitas escolas médicas não têm hospitais-escola e não oferecem vagas para a residência. Assim temos médicos com diploma, mas sem formação. O professor traz dados interessantes publicados no Jornal da Frebasgo em 2004: apenas 62% dos recém-formados fizeram residência médica, e quando vão trabalhar, apenas 17% exercem uma única atividade. Bem de acordo com um tema bastante atual, ele afirma: “muitos migram de regiões mais pobres do país para outros Estados onde têm mais possibilidades de sucesso financeiro e profissional”.
  3. Desumanização do paciente: Dario Birolini traz um exemplo para ilustrar como a medicina entrou no modelo industrial. Conta o caso de um senhor de 81 anos, com câncer de intestino que ele atendeu. Por ser hipertenso, era acompanhado por um cardiologista; ex-fumante, tinha um pneumologista; por ter dores nas juntas, era tratado por um “reumato”; em virtude de distúrbios da memória, era atendido por um “neuro”. Queixava-se de depressão, e era tratado por um psiquiatra; por ter câncer, estava aos cuidados de um “onco”. E então foi parar nas suas mãos, o “gastro” cirurgião. Depois da cirurgia, teve uma pequena febre e foi tratado pelo “infecto”. Fora outros especialistas, com “fono”, enfermeiras, fisioterapeutas… E então ele pergunta: “Quem é ‘O médico’ desse paciente? Existe alguém que se responsabilize de forma integral por seu tratamento?”. A questão aqui é a divisão do paciente, cada especialista com uma parte do doente, sem que ninguém de fato saiba o que acontece ao paciente como um todo. “O atendimento se transforma numa linha de montagem em que cada profissional assume a responsabilidade por uma parte da máquina”.
  4. Concentração de leitos de UTI: uma das informações mais preciosas trazidas pelo doutor é a revelação da enorme concentração de leitos de UTI no Brasil. De todas as vagas disponíveis no país, metade se encontra na região Sudeste; dessas, a metade no Estado de São Paulo, metade dessas na região metropolitana de São Paulo, metade dessas na cidade de São Paulo e dessas, por fim, a metade está na Avenida Paulista, caracterizando uma enorme distorção na distribuição dessas unidades.
  5. O lobby das indústrias farmacêuticas: O Brasil é um dos países que mais consomem remédios no mundo, com quase dois bilhões de caixas comercializadas todo ano. Muitos desses remédios mascaram o problema e podem acarretar outros. Tal agressão à saúde decorre, em grande medida, pelo papel da indústria farmacêutica, que frequentemente investe em médicos que se transformam em propagandistas. Muitos resultados publicados em revistas especializadas são falsos. Não equivocados, mas intencionalmente falsos. Quanto maiores forem os interesses financeiros no campo científico, menos provável que os resultados das pesquisas sejam verdadeiros.
  6. Mercantilização da Saúde: no Brasil, a mercantilização dos cursos de medicina, fenômeno que ocorre também no Direito, fez aumentar o número de escolas de medicina, mas em compensação diminuiu o padrão de excelência. O autor cita Darcy Ribeiro, que dizia que “o Brasil é o único país do mundo que permite que se crie uma escola médica como se fosse uma padaria ou um açougue, para se ganhar dinheiro”. De 1808 a 1960, foram criadas 22 escolas médicas, uma média de uma a cada cinco anos. De 1961 em diante, foram criadas tantas que a média passou para cinco por ano. Nos Estados Unidos, com uma população bem maior que a nossa, são 126 escolas médicas, enquanto aqui temos mais de 170. Lá não existe nenhuma escola médica privada com fins lucrativos, enquanto que aqui muitas delas tem essa finalidade, onde se vendem diplomas a um alto custo. Isso cria a falsa ilusão de termos bastantes médicos no país, mas além da qualificação duvidosa, eles estão concentrados em algumas poucas regiões.

Esses importantes temas trazidos pelo professor Dario Birolini nos ajudam hoje a entender um pouco por que o Brasil passa enormes dificuldades nesse setor tão importante, apesar dos bilhões investidos. É preciso que o governo tenha coragem de enfrentar esse modelo e atacar o problema na raiz, se quiser realmente marcar posição a favor de uma Saúde pública universal e de qualidade para todos.

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pratica-medicaTÍTULO: ANALISE CRITICA DA PRATICA MEDICA

AUTORES: Alfredo Salim Helito e Dario Birolini (orgs.)

ISBN: 9788535244274

IDIOMA: Português

ENCADERNAÇÃO: Brochura

FORMATO: 16 x 23

PÁGINAS: 182  ED. Elsevier

ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2011

ANO DE EDIÇÃO: 2011 (1ª edição)

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