O economicismo e suas consequências para a desigualdade social

desigualdade-socialQue o Brasil viva sob uma colossal, desumana e degradante desigualdade social, não é novidade para ninguém. O fato mais intrigante disso, porém, é que possamos conviver com esse aspecto lastimável da sociedade brasileira sem nos importar muito, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Para expor as engrenagens ideológicas que legitimam e permitem esse tipo de comportamento conformista, bem como as consequências diretas para milhões de desclassificados da pobreza, o professor e sociólogo Jessé Souza escreveu o excelente livro A Ralé Brasileira – Quem é e como vive. Conforme o prometido, a começar de agora, pretendo vir trazendo os assuntos mais importantes e esclarecedores tratados pelo professor no livro para entendermos de uma vez por todas o que está por trás da nossa sociedade dividida entre aqueles poucos que tudo tem, aqueles muitos que não têm nada e aqueles que têm um pouco e por isso acham tudo isso muito normal.

Legitimando a desigualdade

Os jornais, a TV, as mídias em geral, por fim, os pesquisadores e especialistas afirmam cotidianamente que “todos os problemas sociais e políticos brasileiros já foram devidamente mapeados”. Curioso que, apesar de conhecidos os problemas, não se perceba nenhuma grande e radical mudança nas últimas décadas na vida de milhões de pessoas condenadas a humilhações e privações diárias. A desculpa desses especialistas, dos políticos e dos jornalistas é que “a desigualdade brasileira vem de muito tempo e não se pode acabar com algo assim na base da canetada...”

Leia mais: Como se perpetuam os mitos da sociedade brasileira

E assim, com ideias conformistas como essa, é que se cria o consenso que legitima e naturaliza a desigualdade como algo a ser resolvido lá no eterno futuro, um dia, quem sabe... O Estado, com suas medidas paliativas de assistencialismo, mas que não vão a fundo na estrutura social, não ataca a raiz do problema histórico e acaba contribuindo para essa violência simbólica que é milhões de pessoas sem acesso aos meios mais básicos de vida, como Saúde e Educação decentes. Nossa desigualdade social tem sim uma ligação com o nosso passado colonial e escravocrata, mas o processo de legitimação e perpetuação dessa desigualdade não tem nada a ver com o chicote do senhor de escravos ou com o poder do dono de terras; ela é reproduzida, no dia a dia, por meios “modernos”, como afirma o professor Jessé em seu livro, especificamente simbólicos.  

A ideologia do economicismo

Certamente os economistas tomaram dos bacharéis de direito do século XIX o prestígio perante as elites. E o resultado disso é que o economicismo extrapolou as barreiras da disciplina e tomou conta do senso comum. Agora só enxergamos nossos problemas, sejam eles tanto sociais quanto políticos, através de esquemas, equações, cálculos, numa confusão entre “quantificação” e “fetiche dos números” com “interpretação” e “explicação”. As palavras bonitas e rebuscadas dos doutores e intelectuais do passado agora dão lugar a estudos técnicos vazios e estatísticas que nada dizem ao cidadão comum.

Segundo o professor, essa visão economicista não passa de um subproduto de um determinado modelo econômico hoje hegemônico no mundo e que ele denomina “liberalismo triunfalista” – que no fim das contas, reduz todos os problemas brasileiros à lógica da acumulação econômica (ou da falta dela).

Estado versus Mercado

A base dessa visão predominante é a falsa oposição, bastante difundida, entre Estado e Mercado. Segundo a tendenciosa e conveniente tese do liberalismo triunfalista (neoliberal de fato), basicamente, a mão invisível do Mercado livre e desregulado seria capaz de realizar a tão desejada justiça social que o Estado, identificado sempre com a incompetência e a corrupção, não podem fazer. Curioso é o fato de que, apesar desses pressupostos estarem em vigor no Brasil há pelo menos 20 anos, o fosso de desigualdade só foi ser remediado com medidas assistencialistas – do Estado! – para corrigir as distorções econômicas e sociais – do Mercado...

Veja também: Desvendando o segredo da desigualdade social brasileira

Na verdade, a perpetuação dos privilégios econômicos de uns poucos nos é vendida como se fosse o interesse de todos os cidadãos, o que está longe da verdade, muito longe. Abertura de mercado, queda de barreiras tarifárias, pode ser ótimo para o megaempresário do setor de importação e exportação, mas é péssimo para o pobre trabalhador que busca uma colocação num mercado de trabalho local arruinado pela competição com os produtos do exterior.

Na próxima postagem daremos continuidade à crítica à visão economicista, suas consequências nefastas, a falácia da meritocracia, e outras questões importantes tratadas no livro do professor Jessé Souza.

Editado por Almir Ferreira em 29/12/2013

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