Minhas impressões sobre os protestos no Brasil

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O que não faltam nas redes sociais e na internet, de um modo geral, são relatos, opiniões, artigos, resenhas, críticas, apoios e todo tipo de posição sobre os últimos acontecimentos que vêm tomando conta do país inteiro. Eu também não poderia deixar de relatar as minhas impressões sobre tudo o que vem acontecendo nas manifestações que começaram com protestos contra o aumento das passagens de ônibus em todo Brasil. Primeiro, como uma pessoa interessada diretamente no que acontece na política nacional, e, segundo, porque é mais um elemento adicionado para contribuir para a reflexão daqueles que pretendem entender melhor a conjuntura atual do nosso país. São breves relatos resumidos sobre diferentes tópicos, para facilitar melhor a leitura daqueles interessados nesse assunto.
* * *
  1. Ninguém pode dizer ao certo como os protestos chegaram a tamanha proporção. Cientistas sociais e o próprio governo se esforçam para entender a direção e a força do movimento, que começou por uma causa específica, mas que agora aborda os mais variados temas, como o fim da corrupção e dos péssimos serviços públicos oferecidos. A minha desconfiança pessoal é que dois fatores contribuíram primordialmente para que chegássemos a tamanha indignação: nos últimos tempos, os governos abusaram demais da paciência do povo, talvez descrentes da força das massas populares; segundo, existia uma indignação geral reprimida há décadas contra tudo o que o brasileiro teve que suportar das suas classes dirigentes, que encontrou agora nas manifestações contra o aumento das passagens o momento ideal para ser extravasada. Deu no que deu.
  2. A conjuntura política mundial depois da queda do Muro de Berlim favoreceu a descrença nas instituições políticas. O mercado tomou o lugar do Estado de Bem-Estar Social que até então norteava as políticas nacionais, especialmente na Europa. A partir da supremacia do neoliberalismo nos anos 90, as pessoas deixaram de acreditar nas instituições e nos partidos políticos para saírem as ruas lutar, elas mesmas, pelos seus direitos. Foi assim nos famosos movimentos contra a OMC de Seattle e contra o G8 de Gênova, no Movimento Zapatista no México, dos Indignados na Espanha e no Ocupe Wall Street, em Nova Iorque, para citar alguns exemplos.
  3. Apesar disso, o movimento que ora acontece no nosso país difere do que ocorre em outros lugares do mundo em muitos aspectos. Nossa crise não é econômica nem anti-globalização. Antes de ser um movimento contra o capitalismo, parece ser um movimento por mais capitalismo, ou seja, mais acesso aos bens materiais do sistema que exclui mais do que inclui a população brasileira. Além disso, podemos identificar as causas das manifestações na imensa insatisfação geral das pessoas com as prioridades dos nossos governantes, que sempre afirmam faltar dinheiro para serviços básicos de Saúde e Educação, mas que, ao mesmo tempo, são capazes de bancar mais de 80 por cento dos gastos de um evento esportivo – a Copa do Mundo – ao custo de mais de 30 bilhões de Reais.
  4. Os governos, especialmente os da prefeitura e do Estado do Rio, resolveram dialogar com os manifestantes através da tropa de choque. O resultado disso é um campo de batalha num cenário de guerra, onde a violência parte daqueles que deveriam zelar pela ordem e pela segurança. A mensagem parece ser bem clara: amedrontar as pessoas que por ventura estejam interessadas em sair às ruas, mesmo que pacificamente. A brutalidade policial é um crime cujos resultados os governadores brasileiros terão que ser responsabilizados.
  5. A imprensa já elegeu a estratégia para lidar com as manifestações. Apesar de, a todo momento, ressaltar que os “vândalos” são a minoria dentro de um protesto pacífico bem maior, em mantras repetidos quase que exaustivamente, destacam desproporcionalmente os casos de destruição material em vez de focarem nas demandas dos protestos. A intenção é claramente fazer com que as passeatas percam aos poucos o apoio da opinião pública, aumentando a visibilidade dos confrontos em vez de cobrar das autoridades a resposta que eles devem dar às reivindicações das ruas.
  6. Além do mais, no meu modo de entender, há um equívoco na avaliação geral que as pessoas fazem dos “vândalos”. Apesar de ressaltarem que eles não fazem parte do movimento, por outro lado, também não podemos considerá-los isoladamente. Em todos os protestos mundiais que vêm ocorrendo recentemente, pelo menos desde Seattle, existem diversos grupos dentro de grupos, e alguns deles acreditam que a violência como resposta é legítima nesses casos e partem então para o confronto. Concordemos ou não, é a forma que eles têm para protestar. Vândalos são os saqueadores e furtadores que se aproveitam como hienas do clima generalizado de violência.
  7. Por fim, só o tempo dirá se a estratégia dos organizadores – ou quem sabe, de pessoas com interesses escusos infiltradas no movimento – de proibir a manifestação partidária nos protestos é a melhor. Lembremos que as elites e as classes dirigentes têm partidos e deles não abrem mão, porque sabem que é através da política institucionalizada que elas conseguem que suas demandas sejam atendidas. Enquanto isso, o povo parece querer abrir mão da sua representação partidária, deixando por conta dos governantes e dos parlamentares que não lhes são simpáticos a tarefa de atender suas vontades. É preciso lembrar também a falta de justiça contra os partidos de esquerda que desde os primeiros momentos estão na luta pelas mesmas demandas, que agora são afastados por manifestantes de última hora.
É muito difícil prever o que será daqui por diante dessas manifestações que ocorrem em todo o país. Espera-se que os infiltrados, os mal intencionados, os que querem prejudicar e desvirtuar a organização não sejam capazes de destruir esse enorme potencial que surgiu no Brasil, e que pode significar uma nova esperança para os milhões de brasileiros que até agora estiveram à parte das riquezas e do acesso às conquistas materiais do país que é a sexta maior economia do planeta, mas que também é o octogésimo quarto em qualidade de vida, educação e saúde.



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