23 de maio de 2013

Pobreza gera violência? Depende

A violência nas grandes cidades e na sociedade brasileira, de modo geral, está tão presente no nosso cotidiano, que temos dificuldade de tomar a devida distância para torná-la objeto de reflexão. Estamos tão acostumados com ela, que podemos nos chocar com um ou outro evento isolado – que suscitam reações como as campanhas fascistas pela diminuição da maioridade penal – mas já não nos surpreendemos mais com sua onipresença. Aliás, é justamente por essa dificuldade que vemos tais opiniões distorcidas, tão superficiais e no entanto, carregadas de certezas de serem a verdadeira solução para todos os problemas sociais. É preciso deixar de lado o comodismo das opiniões fáceis, para, além de deixar de ser massa de manobra de setores conservadores, poder entender melhor os problemas do nosso país e propor soluções mais certeiras.

Pobreza e violência

É muito comum entre os brasileiros a ideia de que a violência é fruto direto da desigualdade, da distribuição injusta de renda, da dificuldade do acesso dos mais pobres aos bens de consumo, etc. Isso realmente é verdade, mas explica apenas um detalhe do nosso problema. A pobreza só é fonte de violência na medida em que a riqueza econômica e o consumo de bens materiais se tornam valores hegemônicos na sociedade, deixando todos os outros valores para trás. Segundo o psicanalista e professor de Medicina Social da UERJ, Benilton Bezerra Júnior,

Somente numa cultura que enaltece a posse do dinheiro e bens como expressão de sucesso, de uma vida digna de ser vivida, a pobreza tende a ser vivida como exprimindo o contrário. Num contexto como esse, a pobreza não implica apenas restrição material, mas, sobretudo, uma restrição simbólica [moral], e como tal precisa ser negada de qualquer forma, mesmo com o recurso à violência

O que o professor pretende chamar a atenção é para o fato de que a pobreza econômica não pode ser automaticamente ligada à produção da violência, como se houvesse um vínculo intrínseco entre elas. Só há violência onde a riqueza é o maior valor de uma sociedade, como nas populações urbanas das grandes cidades.

Onde o capitalismo não penetrou, a violência também não

Nas sociedades mais rurais do nordeste brasileiro e na Índia, por exemplo, regiões de grandes disparidades econômicas e fortes tradições, outros valores se impõem sobre a ideia de sucesso através do consumo, comum nas grandes cidades. Cada lugar com suas características diferentes, mas ambas tendo em comum o fato de que as disparidades econômicas entre as minorias ricas e as massas pobres não causam conflitos nem violência. Por quê?

 

casta

 

Porque essas sociedades são fundadas em valores diferentes da busca pelo sucesso, consumo material e pela riqueza, marcas das sociedades capitalistas. E além do mais, a religião desempenha um forte papel na estrutura social dessas regiões, bem maior do que nas grandes cidades. O catolicismo do Sertão impõe a ideia de hierarquização social, do sofrimento como provação de fé e a esperança na justiça no outro plano, o sobrenatural. O hinduísmo da Índia, por sua vez, afirma que as características da vida atual são determinadas pelas ações e o tipo de existência que tivemos em vidas passadas. Apesar do sistema hierárquico de castas ter sido abolido em 1948, o costume persiste e o conformismo também. Em sociedades assim, é mais fácil uma explosão de violência insurgir contra as mudanças do que as permanências da desigualdade. Portanto, é preciso tomar cuidado quando se diz que a pobreza está intrinsecamente ligada à violência, se não entendemos o que está por trás delas.

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Fonte:

FEGHALI, Jandira; LENGRUBER, Julita; MENDES, Cândido. Reflexões sobre a violência urbana – (In)Segurança e (Des)Esperança. Rio de Janeiro, Mauad X, 2006.

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