Mídia e Violência

Dez anos atrás, o jornalista e professor de Sociologia Muniz Sodré participou do seminário Violência Urbana, Segurança Pública e Cidadania no Rio de Janeiro: Prevenção e Ação. Sua participação levantou pontos importantes que nos servem de reflexão neste momento de espetacularização da violência e clima de insegurança, reação conservadora e polarização de opiniões. Para isso, Sodré tratou todas essas questões pelo viés da mídia, tendo como foco o imaginário que causa essas sensações e comportamentos na sociedade.

Segundo o autor, as ciências sociais têm levantado a hipótese de que o homem é um ser social, mas afirma que, na verdade, o ser humano pode ser gregário, mas não social. Para justificar, relembra a famosa parábola do porco-espinho do filósofo Schopenhauer: no inverno, o porco-espinho procura chegar perto um do outro para se aquecer. Mas existem os espinhos, o que faz com que quanto maior a proximidade, maior o atrito também, numa analogia para a condição social da humanidade. Mas por que então se agregar?

matematicoSodré cita Hobbes para explicar: por medo. O medo faz as pessoas se agregarem por proteção, sendo esse o menor do males. Mas mesmo assim, permanece um enrustido desejo de eliminação do outro, de rivalidade e de desconforto, que se realiza então na violência social, na crueldade e no assassinato, características puramente humanas. E então, temos que “o fascínio existente pela narrativa da violência na vida real, na literatura, no cinema e na televisão seria sintoma desse mal-estar comunitário”. Vendo os comentários de alegria e satisfação de setores da sociedade brasileira pela eliminação violenta de um bandido dentro de uma comunidade carente em 2012, exibida no último domingo pela televisão, fica difícil não concordar com essa tese.

Os tipos de violência

favelas do RioNa verdade, o que vemos na TV todos os dias é apenas uma faceta da violência. Existe outra, geralmente ocultada pela mídia, e ignorada pela população. Trata-se da violência do poder instituído; dos órgãos burocráticos ineficientes que agridem o cidadão em seus direitos básicos; a violência do Estado em si, na área educacional, social, oferecendo um ensino precário a camadas gigantescas da sociedade; um Estado onde o serviço público oferecido é criminoso, especialmente na Saúde. Essas são violências contínuas, onipresentes, estruturais, que segundo o autor, “deriva de um efeito de inércia que é ao mesmo tempo social e psicológico sobre os indivíduos e é imposto por uma ordem cosmopolita, que é a ordem do Estado, com seus aparelhos e suas articulações políticas”. É o estado de violência.

O resultado de tudo isso é então a violência visível, essa que vemos na TV. Delinquência, marginalidade, tráfico de drogas, os crimes de morte, assassinatos e outras ilegalidades, além da própria reação violenta do Estado, tentando remendar aquilo que ele próprio causou.

Portanto, percebemos que a violência é um dado complexo que ocorre em todos os planos: no econômico, no político, no social, no psicológico, etc. Só que no jornal, nas mídias e nas narrativas que fazem, a violência é só o ato, jamais o estado de violência. Aprendemos pelos jornais e pela TV que a violência é aquela visível, que pode ser encenada ou dramatizada, como no caso da execução do traficante Matemático. Mas atentem para outro detalhe importante: quando a violência mostrada na TV é praticada pelos órgãos de segurança pública, os agentes da repressão e a imprensa naturalmente trocam a palavra violência por força, um eufemismo que faz muita diferença. Por exemplo: “A Guarda Municipal empregou a força para retirar os ambulantes das ruas”. Por outro lado: “Manifestantes reagiram com violência contra a intervenção policial”.

Nessa nossa era de telespectadores e de não-cidadãos, há um recrudescimento dos piores instintos humanos, provocados pela sensação de perigo e violência. Um ódio de classes que faz da polícia um agente a serviço de uma pequena parcela da sociedade, a serviço de interesses elitistas. A dramática operação que deixou bem claro para todo o Brasil e o mundo o amadorismo e o despreparo das nossas polícias só ganha legitimidade porque a sociedade resolveu abraçar essa causa, numa das maiores ondas de conservadorismo que se tem notícia nos últimos tempos. Parece que nossos espinhos nunca estiveram tão afiados.