23 de abril, dia de São Jorge. E dos Livros

Sao Jorge e os Livros

Atualizado em 17 de abril de 2015

Esta é a semana do Dia Internacional do Livro, comemorado todo dia 23 de abril pelo mundo. Também é o dia em homenagem a um santo católico no Brasil, e o fato de São Jorge ser celebrado tão apaixonadamente, pelo menos no Rio de Janeiro, enquanto os livros ficam totalmente esquecidos nas comemorações oficiais, tem muito a nos dizer sobre quem somos enquanto nação.

Educação e superstição

Sabe-se muito bem que o nosso país, de uma tradição conservadora e católica, jamais fez uma reforma educacional ampla o suficiente para democratizar e disseminar a alfabetização em massa, o acesso à educação de qualidade para todos, incentivo à leitura e à cultura científica. Em vez disso, seguimos historicamente capengando pelo caminho do obscurantismo intelectual: educação de padrão satisfatório apenas para os filhos das elites, e religião para os filhos dos pobres se resignarem com suas duras realidades, sem meios (conhecimentos) para escapar de um destino perverso. Isso explica bastante o porquê de um santo católico que também é reverenciado sincreticamente pelas religiões afro-brasileiras ser tão adorado pelas massas, ao mesmo tempo em que os livros são tidos como chatos e imprestáveis,  ferramenta tão essencial para o desenvolvimento cultural e do saber de um povo. O que acontece, pragmaticamente falando, é simples: quando menos (in)formação, mais superstição. E isso é bom para os privilegiados deste país, para as coisas permanecerem sempre como estão.

Leia também no PS: 7 em cada 10 brasileiros não leram um livro sequer no ano passado

Basta uma pequena comparação com os países que saíram na frente na educação de sua população. Desde o século XIX que países do centro e do norte da Europa (menos influenciados pela Igreja Católica) alfabetizaram seu povo massivamente e suas escolas atingiram um nível satisfatório de excelência, no exato momento em que se decidiu separar de vez a Igreja dos assuntos de Estado. O resultado hoje é que a superstição, as feitiçarias, as crenças obscuras e as igrejas de um modo geral, perderam totalmente a força nesses países. Qual foram as consequências? Um povo de educação de alto nível, países com mão-de-obra qualificada, investimentos em alta tecnologia, ciência de ponta, liderança no ranking de Desenvolvimento Humano... Algumas das maiores mentes de todos os tempos saíram de lá, justamente por terem se libertado das explicações fáceis e sobrenaturais sobre os problemas do mundo. A cultura da leitura já estava amplamente disseminada por conta da maior alfabetização da população, antes do rádio e da televisão chegarem para dominar o cenário no século XX. Mas e o Brasil?

Ah o Brasil... Jamais conseguiu implementar completamente a separação de um Estado livre de influências religiosas... Políticas públicas totalmente ineficientes somadas à má vontade de uma Igreja Católica para apoiar a disseminação do conhecimento e da leitura nos tornaram um dos países mais supersticiosos do mundo. Quais foram as consequências? Um povo conformado, deseducado, obediente, apegado em soluções mágicas para seus problemas, que não luta, não tem vontade de crescer e acredita que a outra vida recompensará tudo o que passou nessa terra. A educação, apesar das dezenas de reformas, não deslancha, porque não há a menor vontade política, e a cultura de leitura nem sequer havia iniciado direito nos anos 50 e 60 quando foi totalmente engolida pelo novo meio de comunicação -- a televisão, hoje totalmente dominada por programas estupidificantes de baixíssimo nível cultural e horários comprados por igrejas -- que por isso mesmo caiu muito mais no gosto do brasileiro médio, criando um paradoxo: o brasileiro médio não tem cultura e por isso recebe programação de baixo nível, e a programação é de baixo nível, ajudando o brasileiro médio a não ter cultura.

Muito mais prático e menos trabalhoso assistir uma novela sobre um livro de Jorge Amado, por exemplo, do que ler o próprio livro, muito mais rico e detalhista. Mas a capacidade crítica de julgar as intenções do autor, de analisar a obra em seu contexto social... Isso ninguém se importa.

Tudo isso moldou o nosso caráter e a nossa identidade hoje. É o caminho que não escolhemos, mas fomos historicamente levados a seguir por autoridades políticas e eclesiásticas, mantendo a desigualdade de cultura e informação que é bem ilustrada desde a Idade Média na Europa, quando monges carregavam livros abertos nas mãos em procissão, em sinal de status e monopólio de saber, para a admiração de pobres incautos e analfabetos. Para essas elites, melhor do que saber, é o povo acreditar em santos sem questionar. Pelo menos para a manutenção do seu conforto e privilégios. E não é exatamente uma permanência disso que vemos hoje?

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