Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

26 de abril de 2013

Pelé vs. Romário. Muito mais do que mera vaidade

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pele-romario-trocam-farpas-size-598Não vi o Pelé jogar, vi o Romário. E o Romário foi um dos maiores craques da minha geração. Mas não importa, os relatos e as imagens gravadas atestam suficientemente que Pelé, dentro de campo, foi o maior de todos os tempos. Mas seu talento com a bola nos pés talvez só se equipare à sua extrema vaidade, daquelas expressas em pessoas que só falam em si na terceira pessoa. Talvez por esse sentimento não muito louvável entre nós, e portanto nunca assumido, ele tenha sugerido a Romário encerrar a carreira antes de chegar aos pretensos mil gols, justamente uma das marcas da sua própria. E foi por esse motivo que Romário, com seu sarcasmo afiadíssimo, lançou o hoje folclórico “O Pelé calado é um poeta”. Desde então a relação dos dois ficou azeda e piorou ainda mais quando Romário foi eleito deputado federal, assumindo postura crítica sobre o modelo de futebol que tem em Pelé uma de suas vedetes.

Pelé é a situação, Romário oposição na política brasileira

Dizem por aí que Pelé foi investigado pela Ditadura Militar nos anos 80 (que figura pública de relevo não o fora?) mas sempre foi notório que Pelé, ao contrário de outros craques mundiais como Maradona,  sempre evitou se posicionar politicamente, preferindo tirar proveito do business que transformava seu nome numa marca comercial de grande valor de mercado durante e após o fim de sua carreira.
Nos anos 90, então Ministro dos Esportes de Fernando Henrique Cardoso, emprestou seu nome a uma lei que serviu apenas para implementar a cartilha neoliberal no futebol, quando os jogadores se livraram da despótica lei do passe para se transformar em mercadorias nas mãos dos empresários.
Apesar de se dizer muito católico para perdoar ignorantes, não teve muito senso de humanidade para reconhecer uma filha que nem precisava de exame de DNA para ser aceita, tal a semelhança com o pai, como expôs Romário recentemente. Mesmo assim o exame foi feito e foi comprovada a paternidade de Pelé. Sandra Regina Machado Arantes do Nascimento Felinto morreu de câncer em 2006 sem ter tido o reconhecimento oficial do cristão exemplar que em 1963 teve um caso sexual com uma empregada doméstica, mãe de Sandra.
Romário, por seu turno, nunca teve um comportamento exemplar para aqueles que pregam a disciplina total à carreira dos atletas de futebol. Apesar de não beber e não ter nenhum histórico de envolvimento com drogas (seu único incidente na carreira com doping foi por conta de um remédio para combater a calvície) era um notívago mulherengo que sempre teve problemas com treinos pela manhã. Apesar disso, levou a carreira vitoriosa até os 42 anos de idade, na intenção de chegar aos 1000 gols – fato que gerou o primeiro atrito com Pelé, como foi dito acima. Pra piorar, foi apontado como responsável direto pela conquista da Copa do Mundo de 1994, honra que apesar de tudo, Pelé jamais obteve.
Em 2005 nasce a filha caçula de Romário e a menina é portadora de Síndrome de Down, e o fato de ter assumido publicamente o problema, ainda um tabu para a nossa sociedade, o leva a ganhar o respeito cada vez maior dos brasileiros, que o elegem para a Câmara dos Deputados. A partir daí o Romário com pinta de malandro irresponsável surpreende pela postura séria.
O ex-jogador se torna um dos melhores parlamentares da Casa, presente em todas as sessões com atuação destacada. Ao contrário de Pelé, assume postura totalmente crítica com relação à Seleção, à CBF, às obras da Copa e especificamente a Ricardo Teixeira. Não seria exagero dizer que o Baixinho foi um dos responsáveis pela renúncia do ex-presidente da CBF. Vem fazendo mais pelo futebol brasileiro do que muitos que apenas tiram proveito dele.
As acusações mútuas envolvendo Pelé e Romário poderiam parecer uma mera guerra de vaidades, mas, conforme vimos, tem muito mais caroço por debaixo desse angu... Nessa queda de braço, estou com Romário.






24 de abril de 2013

23 de abril, dia de São Jorge. E dos Livros

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Sao Jorge e os Livros

Atualizado em 17 de abril de 2015

Esta é a semana do Dia Internacional do Livro, comemorado todo dia 23 de abril pelo mundo. Também é o dia em homenagem a um santo católico no Brasil, e o fato de São Jorge ser celebrado tão apaixonadamente, pelo menos no Rio de Janeiro, enquanto os livros ficam totalmente esquecidos nas comemorações oficiais, tem muito a nos dizer sobre quem somos enquanto nação.

Educação e superstição

Sabe-se muito bem que o nosso país, de uma tradição conservadora e católica, jamais fez uma reforma educacional ampla o suficiente para democratizar e disseminar a alfabetização em massa, o acesso à educação de qualidade para todos, incentivo à leitura e à cultura científica. Em vez disso, seguimos historicamente capengando pelo caminho do obscurantismo intelectual: educação de padrão satisfatório apenas para os filhos das elites, e religião para os filhos dos pobres se resignarem com suas duras realidades, sem meios (conhecimentos) para escapar de um destino perverso. Isso explica bastante o porquê de um santo católico que também é reverenciado sincreticamente pelas religiões afro-brasileiras ser tão adorado pelas massas, ao mesmo tempo em que os livros são tidos como chatos e imprestáveis,  ferramenta tão essencial para o desenvolvimento cultural e do saber de um povo. O que acontece, pragmaticamente falando, é simples: quando menos (in)formação, mais superstição. E isso é bom para os privilegiados deste país, para as coisas permanecerem sempre como estão.

Leia também no PS: 7 em cada 10 brasileiros não leram um livro sequer no ano passado

Basta uma pequena comparação com os países que saíram na frente na educação de sua população. Desde o século XIX que países do centro e do norte da Europa (menos influenciados pela Igreja Católica) alfabetizaram seu povo massivamente e suas escolas atingiram um nível satisfatório de excelência, no exato momento em que se decidiu separar de vez a Igreja dos assuntos de Estado. O resultado hoje é que a superstição, as feitiçarias, as crenças obscuras e as igrejas de um modo geral, perderam totalmente a força nesses países. Qual foram as consequências? Um povo de educação de alto nível, países com mão-de-obra qualificada, investimentos em alta tecnologia, ciência de ponta, liderança no ranking de Desenvolvimento Humano... Algumas das maiores mentes de todos os tempos saíram de lá, justamente por terem se libertado das explicações fáceis e sobrenaturais sobre os problemas do mundo. A cultura da leitura já estava amplamente disseminada por conta da maior alfabetização da população, antes do rádio e da televisão chegarem para dominar o cenário no século XX. Mas e o Brasil?

Ah o Brasil... Jamais conseguiu implementar completamente a separação de um Estado livre de influências religiosas... Políticas públicas totalmente ineficientes somadas à má vontade de uma Igreja Católica para apoiar a disseminação do conhecimento e da leitura nos tornaram um dos países mais supersticiosos do mundo. Quais foram as consequências? Um povo conformado, deseducado, obediente, apegado em soluções mágicas para seus problemas, que não luta, não tem vontade de crescer e acredita que a outra vida recompensará tudo o que passou nessa terra. A educação, apesar das dezenas de reformas, não deslancha, porque não há a menor vontade política, e a cultura de leitura nem sequer havia iniciado direito nos anos 50 e 60 quando foi totalmente engolida pelo novo meio de comunicação -- a televisão, hoje totalmente dominada por programas estupidificantes de baixíssimo nível cultural e horários comprados por igrejas -- que por isso mesmo caiu muito mais no gosto do brasileiro médio, criando um paradoxo: o brasileiro médio não tem cultura e por isso recebe programação de baixo nível, e a programação é de baixo nível, ajudando o brasileiro médio a não ter cultura.

Muito mais prático e menos trabalhoso assistir uma novela sobre um livro de Jorge Amado, por exemplo, do que ler o próprio livro, muito mais rico e detalhista. Mas a capacidade crítica de julgar as intenções do autor, de analisar a obra em seu contexto social... Isso ninguém se importa.

Tudo isso moldou o nosso caráter e a nossa identidade hoje. É o caminho que não escolhemos, mas fomos historicamente levados a seguir por autoridades políticas e eclesiásticas, mantendo a desigualdade de cultura e informação que é bem ilustrada desde a Idade Média na Europa, quando monges carregavam livros abertos nas mãos em procissão, em sinal de status e monopólio de saber, para a admiração de pobres incautos e analfabetos. Para essas elites, melhor do que saber, é o povo acreditar em santos sem questionar. Pelo menos para a manutenção do seu conforto e privilégios. E não é exatamente uma permanência disso que vemos hoje?

4 de abril de 2013

Internação compulsória: ruim para usuários, bom negócio para empresários e igrejas

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Essa semana, o Congresso Nacional está analisando o Projeto de Lei 7663, que altera alguns pontos da lei de drogas. Faz parte de mais uma proposta inserida no avanço do conservadorismo no Brasil, tanto religioso quanto político, que faz o país retroceder no assunto pelo menos uns 30 anos, época em que  se acreditava que o problema das drogas se resolveria com mais repressão policial e cadeia, enquanto outros países hoje discutem a descriminalização e a “despolicialização” do tema das drogas. Mas além dessa reação conservadora, o dinheiro e o lucro podem estar por trás dessa onda de internação compulsória que está para ser aprovada no país.

O caso PA Chil Care, na Pensilvânia

PAWilkes-Barre, na Pensilvânia, tinha uma das taxas mais altas de internação compulsória de jovens “rebeldes” de todo o Estado em 2009. O município, dentro da lógica neoliberal, foi convencido pelo juiz Conahan a fechar o reformatório público e contratar os serviços de uma empresa privada com o eufemístico nome de PA Child Care (Cuidado Infantil). Um de seus donos e diretores era Robert Powell, advogado e empresário, que construiu o reformatório privado por $ 8 milhões, e conseguiu o contrato de aluguel e prestação de serviços com a prefeitura no valor de $ 58 milhões. Um grande negócio.

Mas, para que desse lucros, era preciso o fluxo constante de “clientes”, e outro juiz tratou de fornecê-los. Mark Ciavarella condenou arbitrariamente mais de 6.500 jovens adolescentes a internações compulsórias no PA Chil Care, acusados dos delitos mais absurdos, como brigar com uma amiga num shopping ou por fumar maconha numa festa da escola.

Tempos depois, descobriu-se que o dono do estabelecimento tinha um acordo comercial com os juízes Conahan e Ciavarella. Pelos bons serviços prestados ao estabelecimento privado, ambos ganharam cerca de $ 2,6 milhões de dólares, enquanto os donos do PA Child Care recebiam dezenas de milhões de dólares da prefeitura pelos custos das internações. O reformatório foi fechado e os juízes, presos.

Internação compulsória no Brasil: coincidência?

ICNão cheguei a ler na íntegra o Projeto de Lei do deputado Osmar Terra que pretende aumentar a repressão antidrogas, mas me baseio na análise feita por Denis Russo Burgierman, escritor, diretor de redação da revista Superinteressante e membro da Rede Pense Livre – Por Uma Política de Drogas que Funcione e também por notícias de sites especializados na internet.

Nesse projeto está a proposta da internação compulsória para usuário de drogas, ou seja, a reclusão forçada de pessoas para tratamento. Tal qual os pequenos delitos que viraram crimes em Wilkes-Barre, agora uma mulher que seja coagida pelo marido preso a lhe levar drogas será condenada como traficante, ou aquele menor que solta rojões nas favelas para alertar a presença da polícia terá penas tão altas quanto a de estupradores.

Tudo isso já seria um retrocesso tremendo, a crença na punição e no encarceramento como solução dos problemas das drogas, mas eu quero focar na questão “financeira” do negócio. De acordo com o projeto, será criado um fundo com dinheiro público para financiar as políticas antidrogas no país inteiro. E esse mesmo projeto abre brecha para a criação de entidades privadas e religiosas que receberiam dinheiro público para fazer esse trabalho: são chamadas eufemisticamente (como o Child Care, dos Estados Unidos) de “Comunidades Terapêuticas”, muitas delas mantidas por igrejas, em mais um atentado brasileiro à laicidade que deveria permear as políticas públicas, especialmente na área de Saúde. Segundo Denis Russo, “o projeto não define regras claras para a atuação dessas Comunidades: é um cheque em branco para entidades privadas fazerem serviço público”. Além disso, ele afirma:

O projeto cria conselhos municipais, estaduais e federal para fiscalizar o uso desse dinheiro. Só que esses conselhos terão metade dos seus assentos reservados para “entidades da sociedade civil”. Ou muito me engano ou essas entidades tendem a ser justamente as Comunidades Terapêuticas que os conselhos deveriam fiscalizar. Ou seja, além de receberem o cheque em branco, caberá às Comunidades fiscalizarem a si mesmas.

Alguém tem dúvida de que, tal qual o caso norte-americano, é muito interessante e lucrativo que hajam cada vez mais condenações de usuários, dependentes de drogas e até de gente que não tem nada a ver com isso, para transformá-los em máquina de fazer dinheiro para entidades privadas? A questão é: quantos de nossos políticos estão levando “um por fora” para aprovar essa lei? Ou será que apenas o lobby religioso e seu trunfo de eleitores na manga é suficiente para persuadi-los?

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Fontes:

De volta a 1980

- O caso PA Chid Care pode ser visto em Capitalismo, uma história de amor, documentário de Michael Moore

1 de abril de 2013

O fetiche cristão/conservador pela “Família”

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Familia Tradicional

Repare bem: quase todas as bandeiras conservadoras, ultrarreacionárias e cristãs da sociedade brasileira podem ser levantadas “em defesa da Família”. É cada vez mais comum ouvirmos quase como um mantra esse tipo de justificativa para os pensamentos mais cretinos desse segmento da sociedade. Todos os tipos de preconceitos, intromissões em assuntos particulares, medo de propostas diferentes e reformistas, ataques a minorias étnicas e raciais, críticas a grupos LGBT, chiliques contra o direito ao aborto, a adoção de crianças por pais homossexuais, o próprio casamento gay… enfim, quase qualquer tipo de ataque como esses podem ser justificados em defesa da Família. Mas... que tipo de família é essa? Só existe um modelo de família aceitável? Quem disse isso?

Essa que é a grande questão. Cristãos fundamentalistas e conservadores acreditam que sim: só existe UM tipo de família – naturalmente a que ELES foram ensinados a achar que é a certa. Qualquer pessoa que queira o direito de formar uma família diferente dos moldes tradicionais – digamos, especificamente, um casal homossexual com filho adotado – estaria produzindo um ataque (?) aos valores da Família tradicional. Existe argumento mais cretino e falacioso do que esse para impor desrespeitosamente suas crenças infundadas e se intrometer na vida particular de outros cidadãos?

Em defesa da Família (conservadora, cristã e burguesa)

O que os religiosos e conservadores precisam ter em mente é que, ao defender a Família, eles estão defendendo apenas um tipo, um modelo de família, aquele que eles consideram o ideal. Ninguém quer nem pode lhes tirar o direito de viver sob o regime da família tradicional cristã e conservadora, ou seja, um patriarcado onde o pai provedor é o chefe e autoridade máxima da casa, a mãe é a criadora dos filhos e a rainha do lar, com filhos educados na rigidez e no castigo físico como corretor de desvios e “formador de caráter”. Mas isso não lhes dá o direito de avançar mais um pouco e achar que todas as pessoas do mundo devem se manter seguindo o que eles, ou as suas igrejas, ou a suas facções políticas acham que é o certo. A “família cristã”, burguesa, rígida, patriarcal e machista, que se opõe a qualquer tipo de modelo que não seja o seu, já teve sua predominância na história, mas hoje o mundo avançou e novas opções surgiram. Já não temos um, mas diversos modelos de família, então não faz o menor sentido toda essa gritaria fascista e preconceituosa que, para se impor, precisa se opor a outras famílias ou a seus membros. O que faz supor a um desses reacionários de plantão que a sua família seja melhor do que as outras? Propor um modelo diferente não quer dizer que se esteja querendo acabar com o modelo tradicional.

Sejamos francos, quem ataca outras famílias - como fazem paradoxalmente os que se denominam “defensores da Família” - onde a mulher seja a provedora e a chefe da casa, ou com casais do mesmo sexo, ou seja lá de que tipo, apenas mostra para todos sua faceta mais reacionária, retrógrada e alienada, seu conservadorismo mais tacanho e obsoleto. Não deveríamos ter que explicar coisas tão simples como essas em pleno século XXI, mas infelizmente ainda precisamos.