5 de março de 2013

Hugo Chávez e a Verdade

Presidente Hugo Chavez

A busca por uma verdade universalmente válida e que se sobreponha a outras “verdades” é algo que sempre me intriga e me fascina, tamanha é a luta histórica de certos setores da sociedade para a imposição de uma própria visão de mundo aos demais grupos sociais. Essas tentativas – ora vitoriosas, ora fracassadas --, ao longo da história, foram capazes de gerar numerosos conflitos de todas as espécies, seja no campo filosófico ou nos campos de batalha.

A Ciência, a partir principalmente do século XIX, tentou estabelecer princípios e métodos para a busca de uma verdade universalmente aceita em diversas áreas do conhecimento, especialmente nas disciplinas da Natureza. E na área das Ciências Humanas, já no século XX, foi o filósofo marxista Adam Schaff quem melhor definiu, no meu modo de entender, um modelo adequado para a busca de verdades, combatendo relativismos pós-modernos inúteis e inadequados.

Definindo a Verdade

Como podemos definir uma proposição, um juízo, como verdadeiros? Em seu livro História e Verdade, Adam Schaff aponta a definição clássica de verdade para nos orientar a esse respeito: “É verdadeiro um juízo no qual se pode dizer que o que ele enuncia é na realidade tal como ele enuncia”. Parece simples (e é). Porém, nos ajuda a eliminar uma série de proposições que visam alcançar o estatuto de “verdade”, mas que não tem nenhuma correspondência com a realidade verificável, ou padecem de uma superficialidade desconcertante. A pessoa que enuncia um juízo deve ser capaz de mostrar alguma evidência sobre o enunciado; mostrar de onde vem tal informação de forma concreta, de modo que sua asserção possa ser verificada e justificada.

Veja mais em: Minhas Verdades, suas Verdades, a Verdade deles... Que Verdade?

Outra coisa importante: verdades subjetivas, do tipo “É assim porque eu creio que seja”, são totalmente inválidas. Se aceitarmos a definição clássica da Verdade descrita acima, a junção do substantivo verdade com o adjetivo subjetiva constitui-se numa tremenda contradição. Em ciência, toda a verdade deve ser válida universalmente, não para um indivíduo ou um grupo de indivíduos. Neste caso, o que é válido e o que devemos buscar é a verdade intersubjetiva, ou seja, aquela que é corroborada por um maior número possível de especialistas através da verificação ou da reflexão. Quanto mais universalmente uma verdade é aceita, mais validade ela terá, o que é justamente a verdade que vale para todos, independentemente de crenças, posições políticas, etc.. (As "verdades" religiosas, por exemplo, são aceitas por um número muito grande de pessoas no mundo, mas sua validade para a ciência é nula porque suas asserções não podem ser verificadas cientificamente, como veremos abaixo).

Interferências prejudiciais na busca da Verdade

Mas aqui temos um problema: e quando o julgamento sofre influência da ideologia dominante, sem que as pessoas tenham plena consciência desse fato? Um exemplo: 80 por cento da população brasileira considera o catolicismo a religião universalmente verdadeira. Mas isso significa que ela seja realmente, ou que outros fatores, como o ambiente, a doutrinação, a influência dos pais, a falta de critérios aceitáveis na busca da verdade, etc. tiveram um papel mais importante nessa escolha do que a reflexão racional? Penso que a resposta é clara. Cientistas têm consciência dessas influências externas, e por tê-la, tentam superá-las, por mais difícil que seja.

Eu disse tudo isso para finalmente chegar até o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, que perdeu a batalha pela vida em 2013, vítima de complicações do câncer.

Hugo Chávez, vítima da manipulação da Verdade

Os fatos frios sobre Chávez mostram claramente que todos os seus erros e acertos só foram por uma intenção: resgatar a dignidade dos milhões de pobres não só da Venezuela, mas de toda a América Latina, durante séculos deixados entregues à própria sorte enquanto as suas elites latino-americanas dominavam a maior parte da riqueza dos seus respectivos países. Os indicadores sociais e os inúmeros trabalhos de cientistas sociais provam isso. Pode-se amar ou odiar Chávez, mas não se pode ir contra esse fato: Chávez lutava pelos pobres contra os imperialistas estrangeiros e os traidores do próprio povo. E apesar disso, grande parte dessa mesma população pobre, principalmente no Brasil, não conseguiu se identificar com a luta chavista. Como pode?

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Tal qual a influência da doutrina católica, a influência externa da ideologia conservadora dominante transborda a própria origem e penetra em todas as classes sociais, desde as mais elevadas até as mais baixas. Dessa forma, apesar de ser pobre, ou de uma classe-média baixa, a pessoa, levada pela crença na ordem social vigente, tende a se identificar com seu próprio opressor, por mais que não se dê conta disso, por lhe faltar a capacidade de reconhecer a influência dos fatores externos sobre seu modo de pensar -- aquilo que os cientistas sociais procuram reconhecer e evitar.

Todos os dias, de forma sutil, a imprensa oligárquica, porta voz das elites, não só aqui, mas em toda a América Latina, martela uma satanização nem sempre dissimulada do bolivarianismo e daqueles que querem mudar as regras estabelecidas do jogo. Esses órgãos, contrariando toda a imparcialidade que deveria ser o cerne do jornalismo – como também deveria ser o da ciência – detêm o monopólio da verdade nas mãos e a manipulam como bem entendem, antes de jogar para o consumo da população, envernizada com uma fina casca de “credibilidade jornalística”. E nós que a aceitemos, passivamente -- e mais do que isso, tomemos partido dela.

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Só a má formação educacional aliada a uma poderosa máquina propaganda midiática podem explicar por que os povos desse continente miserável ainda adormecem frente a um poder absolutamente cruel: o das classes abastadas que espoliam as riquezas e o poder político dos pobres durante séculos a fio. Diante de uma realidade acachapante dessas, a verdade é um mero joguete nas mãos de quem a fabrica, e Hugo Chávez morreu como alguém que deveria ser reverenciado pelos povos latino-americanos, mas que, do contrário, sempre foi visto com desconfiança como um “ditador antidemocrático autoritário” --  como Guevara era o “terrorista”, Allende era o “subversivo das massas”, Brizola era o “amigo dos traficantes”…. E nisso, a verdade vai sofrendo duros e mais duros golpes.

Como já dizia Winston Churchill: "A mentira roda meio mundo antes da verdade ter tido tempo de colocar as calças."

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