3 de março de 2017

Como a publicidade ataca a democracia

censura do dinheiro

Se existe um lugar onde o pensamento dominante de uma sociedade pode ser mais bem propagado, esse lugar é na imprensa. Numa sociedade capitalista como a nossa, onde a democracia não passa de uma fachada para ocultar a manutenção de privilégios de uma classe cujo poder econômico é colossal, as mídias atuam na construção e manutenção de um modelo único de pensamento, com diversas maneiras de vetar, desacreditar ou ocultar modelos de mundo rivais aos seus, que venham a contestar esse tipo de realidade.

Um desses métodos se dá através da publicidade e do financiamento de projetos na área da Comunicação, que coincidam com as visões políticas e econômicas das classes dominantes.

Métodos de controle da sociedade

A sociedade industrial burguesa foi moldada para o controle da opinião pública, desencorajando ideias ou reivindicações de reforma ou mudanças de sistema. Tendo como modelo os Estados Unidos, berço do marketing e da publicidade que forja uma democracia de espectadores/consumidores e não de cidadãos atuantes, as elites do Ocidente aprenderam dois métodos para exercer esse domínio sobre as massas: controle da opinião e, em caso de necessidade, força policial.

Durante o século XX, o psicólogo social australiano Alex Carey descreveu a ligação de três instituições políticas que se interligavam em favor das grandes corporações: “as democracias, o poder das empresas e a propaganda das empresas como meio de preservar seu poder democrático”.1

Leia mais: Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

 

O controle das mídias através do dinheiro

Esse modelo de influência das grandes corporações sobre a democracia se dá através de uma série de filtros para orientar a produção das mídias, detonando qualquer resquício de uma imprensa livre e imparcial. Um deles é dependência em relação à publicidade. Neste modelo altamente comercial, as mídias vendem menos informação para um público do que de um público para seus próprios anunciantes. Nós, leitores e telespectadores, somos o próprio produto de barganha das grandes mídias para vender publicidade.

Segundo o escritor canadense Normand Baillargeon2, estima-se que 70 a 90 por cento das receitas de um meio de comunicação provenham da publicidade. E quem paga pela propaganda, deseja que os programas de rádio e televisão ou páginas de um blog ou jornal sejam ambientes favoráveis aos seus negócios.

Eles não chegam a determinar diretamente o conteúdo dos programas ou textos de sites, mas fazem isso de forma muito mais sutil: quem segue a sua política, ganha patrocínio e cresce; quem segue uma linha crítica, contestadora ou diferente, por exemplo, não recebe patrocínio e sofre para se manter.

Blogosfera também é controlada pela publicidade

Quem é escritor de blogs como eu, por exemplo, tem duas opções: ou escreve por prazer e para espalhar as suas ideias por aí, ou, além disso, para ganhar dinheiro na internet. Quem opta pelo segundo caso, sabe que antes de começar a ganhar algum dinheiro, tem que passar pelos diversos filtros dos programas de monetização, como o Google Adsense, o Lomadee, entre outros. Alguns desses filtros tem cunho moral, como por exemplo, não ter conteúdo adulto (erótico), insultos raciais, apologia às drogas, etc. Nesses casos seu blog não consegue permissão de fazer publicidade e ganhar dinheiro. Mas outros filtros são obscuros, secretos e nunca divulgados.

Pensamentos críticos não têm vez

Estes, críticos, não conseguem bons patrocínios; os demais que se enquadram em sua política comercial, conseguem. É uma regra que vale para qualquer tipo de mídia e outras áreas – e o pior, até para trabalhos acadêmicos. Certos temas sensíveis ao sistema são desencorajados por professores descompromissados com a crítica social.

Percebem como isso é danoso para a democracia, e ajuda a perpetuar um modelo tendencioso e parcial, que favorece as grandes empresas e cala as vozes alternativas e críticas?

É claro que o governo brasileiro precisa urgentemente atuar na regulamentação e na democratização das mídias brasileiras, para que o poder econômico não se sobreponha mais aos interesses da população em uma área tão crucial para a democracia quando a comunicação. As mídias não podem se pautar pelo poder econômico, se quisermos que a informação não seja uma mera mercadoria a serviço dos monopólios de algumas poucas famílias, que impõem uma visão de mundo tendenciosa enquanto condena todas as visões opostas à marginalidade.

Leia mais em: Pensamento crítico como arma de autodefesa intelectual


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1 BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico. Um curso completo de autodefesa intelectual. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2007, p. 198 (grifo meu)
2 Idem
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