O Brasil é democrático e cuba é uma ditadura. E eu sou o Papai Noel

yoani_sanchezBastou a “turnê” mundial da blogueira cubana Yoani Sanchez desembarcar no Brasil para reacender alguns debates sobre ditaduras e democracias. Parece que isso é tudo o que importa, quando o assunto é a ilha caribenha.
 
Algumas pessoas já internalizaram tão bem a ladainha da "democracia" (burguesa) versus ditadura demoníaca, inculcada pelos aparelhos ideológicos capitalista-burgueses, que colocam essa farsa como a coisa mais importante de tudo, na frente de qualquer outra conquista de uma sociedade, como bem-estar, Saúde, Educação. Cuba está 33 posições acima do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano, mas tudo o que importa para essas pessoas é que Cuba é uma “ditadura”, que está errada e deve copiar nosso belo modelo “democrático”, repleto de Renans Calheiros, favelas, miséria, bolsa-família, violência, corrupção, desigualdade social, latifúndios, Eikes Batistas, Rede Globos, empreiteiras, Cavendishes, Mensalões, Privatarias, Sarneys... ahh sim, mas vivemos uma "democracia", e de tempos em tempos temos o direito de apertar uns botões na urna eletrônica e pronto, isso é tudo o que importa. Podemos falar o que quisermos, e isso é tudo que a Yoani Sanchez quer também, coitada...
 
Quem não conhece as condições históricas que levaram Cuba a restringir algumas liberdades e apenas diz que Cuba é uma “ditadura”, ou está mal intencionado, ou muito mal informado. Ao contrário da nossa farsesca democracia burguesa, Cuba optou pelo modelo político de participação popular, muito mais democrático que o nosso.
 
A maioria dos cubanos é interessada na política e participa de diversas reuniões de células partidárias, de sindicatos e outras organizações sociais. Segundo o jornalista Breno Altman,
O modelo cubano não nasceu expurgando seus opositores ou instituindo o mono-partidarismo. Poderia ter se desenvolvido com maior grau de liberdade, mas teve que se defender de antigos grupos dirigentes que se decidiram pela sabotagem e o desrespeito às regras institucionais como caminhos para derrotar a revolução vitoriosa. Na outra ponta, as diversas agremiações que apoiavam a revolução (além do Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel, o Diretório Revolucionário 13 de Março e o Partido Socialista Popular) foram se fundindo em um só partido, o comunista, oficialmente criado em 1965.
 
Enquanto isso, uma breve e superficial olhada na história do Brasil no século XX mostra que nossa “democracia” foi entrecortada com Golpes de Estado, autoritarismos e ditaduras, conchavos e arranjos políticos, sempre que os interesses das elites se viram ameaçados pelo crescimento da consciência política e das reivindicações populares. E só os mais ingênuos acham que não é isso que acontece neste exato momento, apesar das aparências, no nosso país. Isso é democracia?
 
Tal cá, como lá, a CIA esteve por trás dos reacionários e ditadores para sabotar governos e democracias, mas a diferença é que aqui as elites usaram as Forças Armadas e a Igreja para derrotar o povo e lá o povo derrotou as Forças Armadas e a Igreja com armas na mão. Mas eles são persistentes, e vez ou outra voltam escondidos em pele de cordeiro, como no caso da Yoani Sánchez agora. Por isso que me parte o coração ouvir besteiras como críticas aos protestos contra esta agente da CIA no Brasil, vindo de gente até de partidos de esquerda. São “democráticos”, mas querem restringir o legítimo direito à livre manifestação?
 
Um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém, então por que não olhamos o nosso próprio rabo antes de criticar o rabo dos outros? Ainda mais se nossa crítica não corresponder com a verdade do fatos e for uma mera reprodução do pensamento burguês-capitalista das elites brasileiras.

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