O que explica a canalhice moralista sobre o incêndio de Santa Maria?

Boate Kiss

Uma grande tragédia, de repercussões internacionais. Desde então, a imprensa nacional e internacional vem dando o devido destaque ao segundo maior incêndio em número de mortes no Brasil, perdendo apenas para o incêndio do Gran Circus em Niterói em 1961.

Mesmo diante de um quadro tão grave e alarmante, muitas pessoas conseguiram ainda tirar piada da situação ou — coisa ainda pior, o que realmente chamou a minha atenção — tecer comentários absolutamente idiotas na internet, movidos por diversos fatores, dentre os quais enumero o recalque e o moralismo religioso.

É difícil entender a cabeça desse grupo de pessoas, que devem achar importante posar como conservadores doutrinados na moral e nos bons costumes — sendo que em muitos casos, sua conduta não condiz com a imagem —, que tentam satanizar qualquer tipo de diversão e alegria alheias, encontrando razões para condenar mais de 230 jovens universitários mortos que se reuniam apenas para celebrar, na cidade de Santa Maria-RS.

Saiba mais: O conservadorismo brasileiro

Talvez o problema esteja na palavra “boate”. Na cabeça de jovens mais conservadores, especialmente os religiosos, basta pronunciar a palavra, que uma série de imagens lhes vêm à cabeça, quase como um pequeno retrato do inferno, onde a esbórnia e as tentações como as bebidas alcoólicas aparecem em destaque. Essa ideia de uma Sodoma e Gomorra (de acordo com a Bíblia, cidades destruídas por deus com fogo e enxofre por causa de sua população hedonista) talvez justifique, para eles, a canalhice de suas opiniões moralistas contra os mortos, do tipo: “bem feito, se estivessem na Igreja (ou “em casa com a família”, aí dependendo do grau de moralismo do cínico) estariam vivos”. Ou quem sabe tamanha tragédia sirva para aliviar seus recalques, por quererem secretamente viver a juventude plenamente, ou por já a terem vivido em épocas anteriores, mas terem agora que representar uma imagem de “pessoa de bem” para a família ou para a sociedade. Condenar outros jovens “que ainda não saíram dessa vida” acaba servindo também para convencê-los a si mesmos de que abrir mão da diversão “do mundo” foi a coisa certa.

Somente essas especulações podem explicar tamanha cretinice moralista que começamos a ver desde que as primeiras notícias sobre o incêndio surgiram na internet. Isso mostra que o povo brasileiro, que sempre tem a imagem de ser bastante tolerante e liberal, no fundo, não passa de um dos povos mais arraigados em tradições preconceituosas e conservadoras do passado, como machismo, paternalismo e homofobia, bem como a carolices estúpidas que mergulham as pessoas no que há de mais retrógrado e irracional.

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