Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

16 de julho de 2012

Rosane Collor e a “magia negra”

Rosane_CollorRaramente vejo televisão e muito menos a rede Globo, mas graças às facilidades da internet, eu pude assistir a entrevista da ex-primeira dama Rosane Collor ao Fantástico. Tirando as já conhecidas questões políticas de 1992 e a ridícula reclamação da “pequena” pensão de 18 mil Reais, o que chamou a atenção mesmo foram as revelações de prática de “magia negra” pelo casal na Casa da Dinda.
 
As pessoas costumam trocar de religião. Isso é mais comum do que se imagina. Assim como é comum também as pessoas que trocam de religião satanizarem suas crenças anteriores, tachando-as de “erradas”, de “ilusão”, de “engano”, enquanto que a nova religião abraçada é a “certa”, o “verdadeiro caminho”, a “luz”.
 
Evangélicos têm por hábito dar testemunhos nas igrejas de como eram suas vidas antes da conversão. Tais relatos costumam impressionar os presentes, e inconscientemente ou não, os recém-convertidos tendem a exagerar quando se referem à sua conduta passada ou à sua antiga religião.
 
Rosane Collor hoje é evangélica e afirma na entrevista que participou de sessões de “magia negra” com o ex-marido na época em que Fernando Collor era o presidente da República. “Magia negra” é um termo genérico que os evangélicos costumam usar quando se referem especialmente às práticas de religião afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé. Assim eles impressionam seus novos colegas cristãos quando dão a entender que se livraram de um poder “maligno”, “diabólico” e aceitaram a verdadeira fé, o caminho e a luz na religião evangélica, quando na verdade apenas trocaram de religião.
 
O que Rosane fez foi apenas repetir o que acontece todos os dias em igrejas evangélicas pelo país: pessoas que, quando precisaram de alguma coisa fácil no passado, recorreram aos “poderes” dos Orixás para conseguir; mas na hora do acerto de contas, se dizem arrependidas e abraçam a religião evangélica. E nos seus testemunhos, mostram todo o preconceito contra suas antigas superstições, associando-as a magia negra e ao diabo — este, mero personagem da superstição cristã.
 
O que a Globo fez por sua vez, quando colocou trechos da fala de uma pobre, crédula e ingênua senhora chamada Maria Cecília na entrevista, mulher que, na época, envolvida com as tais práticas de “magia negra”, se dizia responsável pela vitória do então candidato Collor, foi colocar uma cortina de fumaça na realidade. Só os mais incautos podem levar a sério essa versão, por acreditar em superstições religiosas e por ignorar toda a campanha midiática e das oligarquias em favor de Fernando Collor de Melo, escolhido pelas elites para barrar o então indesejável Lula e para implementar no Brasil o projeto neoliberal.
 
Essa entrevista é mais um desserviço global à verdade e mais uma tentativa de fortalecer o preconceito evangélico contra as religiões alheias. Lixo da pior qualidade.

2 comentários:

  1. Oi, Almir!
    É sempre bom me deparar com os textos de grande qualidade você escreve com opiniões tão sensatas. Eu não assisti à entrevista, e só de ler, já perdi completamente a vontade de ver na íntegra o que essa mulher disse. Sou espírita-umbandista e já me deparei com o preconceito de religião nas formas mais diferentes. Desde piadas e perguntas desnecessárias que eu encarava com bom-humor, até insinuações completamente desrespeitosas, feitas em público. Embora eu saiba que o preconceito existe em todo mundo, acredito que no nosso país, os evangélicos sejam os piores de todos. Se sentem no direito de querer converter e "salvar" todos ao seu redor; de destruir o sagrado alheio; e ainda de exigir que as pessoas vivam conforme aquilo que eles acreditam ser correto (vale lembrar que eles são maioria no Legislativo, e que foi um deles que criou o P.L. 5069). Me preocupa muito saber que no Brasil a religião predominante tenha tanta influência, e que pessoas sejam levadas a sério ao fazer declarações como essa da Roseana.

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    1. Oi Lethycia,

      Essa também é a religião da minha irmã, e o que eu vejo de pessoas leigas que procuram opinar sobre o assunto é um misto de ignorância (no sentido de ignorar mesmo) o que causa "medo", e preconceito, tudo num mesmo caldeirão que potencializa a falta de respeito. Respeito que toda religião deve ter.

      E você tem toda razão: infelizmente os evangélicos são os mais ignorantes de todos em se tratando de entender as outras religiões.

      Grande beijo e obrigado pela participação.

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