Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

31 de julho de 2012

“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte2/3)

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Essa postagem é a segunda e penúltima parte da matéria sobre o Mensalão do PT, que será julgado nesta semana.

Marcos Valério, o operador do mensalão do PT, era operador do caixa dois do PSDB mineiro

valerio-marcos Marcos Valério Fernandes de Souza nasceu em 1961 em Minas Gerais. Desde muito jovem trabalhava em bancos, mas aos poucos foi se tornando lobista do mercado financeiro. Sua função era negociar com credores de bancos o pagamento de créditos já dados como perdidos. Assim ele ficava com uma porcentagem do dinheiro que conseguisse reaver.
Sua ambição se tornou a porta de entrada para o meio político mineiro em 1996, através de duas siglas: PSDB e SMP&B. A primeira, do partido que todo mundo conhece. A segunda, da maior agência de propaganda de Minas. Em estado falimentar, Marcos Valério ainda assim enxergou oportunidade na agência — com o apoio da outra sigla, o PSDB.
Nos anos 70 e 80, as empreiteiras serviam para fornecer caixa dois a campanhas políticas, mas desde a eleição de 1989, as agências de publicidade haviam se tornado operadoras de caixa dois preferenciais em campanhas eleitorais. Em 1996, sabendo que os tucanos mineiros estavam com grandes planos para a agência (leia-se, com intenção de usar a agência para operar caixa dois da campanha do tucano Eduardo Azeredo em Minas), Marcos Valério resolveu ajudá-la a sair do buraco. Através de manobras jurídicas, Marcos Valério sugeriu aos donos da SMP&B Publicidade a abandonar o barco velho e montar um barco novo: a SMP&B Comunicação. Por ter intermediado a transação, Valério ficava com 10 por cento da agência e o cargo de diretor financeiro. Assim ele abandonava o ramo bancário e se tornava o “publicitário” Marcus Valério.

PT no poder utiliza os métodos do PSDB

Para conseguir o dinheiro para pagar aos aliados, o PT, quando chegou ao poder, recorreu ao mesmo operador do caixa dois do PSDB mineiro, Marcos Valério. Através dos seus contatos com os bancos mineiros como o Rural e o BMG, Valério conseguia milagrosos “empréstimos” que alimentavam o caixa dois do partido. Nessa operação, o PT arrecadou a bolada de 66,1 milhões de reais.
Quando o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, precisava de dinheiro, ligava para Valério. Dessa maneira, de janeiro de 2003 a maio de 2005, o PT movimentou de forma ilegal “uma média de 63.380 reais por dia, incluindo sábados, domingos e feriados”. Segundo Lucas Figueiredo,
O dinheiro jorrou. Dívidas de campanha foram pagas, ‘compromissos políticos’ do PT com seus aliados foram saldados, corruptos enriqueceram, advogados e prostitutas receberam por serviços prestados e até a amante de um ex-deputado já morto teve a sua pensão garantida

Como funcionava o esquema

Ainda segundo o autor:
Para desaguar os recursos sem despertar suspeitas, o empresário utilizou o velho expediente já testado e aprovado em 1998 na campanha do PSDB mineiro. Na maioria das vezes, o truque funcionava da seguinte forma: a SMP&B emitia cheques nominais a ela mesma, que eram então endossados e sacados na boca do caixa. Como a SMP&B costumava movimentar anualmente dezenas de milhões de reais, ninguém notava se a empresa havia sacado 10 milhões de reais a mais ou a menos num determinado mês. Só o banco poderia desconfiar de tantos saques na boca do caixa, mas para isso Marcos Valério tinha seus amigos no Rural.

E como esse dinheiro chegava nas mãos dos destinatários?

Quando Delúbio ligava para Marcos Valério, dizia que o político X tinha que receber a quantia Y. A diretora da SMP&B, Simone Vasconcelos ligava para o parlamentar para perguntar como deveria ser feito o pagamento. De olho na farra do dinheiro, muitos políticos passaram para os partidos da base aliada do governo. Só no PTB, no PL e no PP, o número de deputados e senadores passou de 101 para 154. Na base do mensalão o PT garantiu a maioria de votos no Congresso.
O fato totalmente estranho é que o PT poderia estar comprando deputados da direita para aprovarem projetos contrários aos deles, mas não... O PT, supostamente de esquerda, pagava a partidos de direita para aprovarem uma agenda liberal, como a Reforma da Previdência, por exemplo. Difícil de entender...
Continua…
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Fonte: FIGUEIREDO, Lucas. O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT. Ed. Record: Rio de Janeiro, 2006.

Parte 3: “Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte 3/3)

30 de julho de 2012

“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte1/3)

30 julho 0
No próximo dia 2 de agosto começa o esperado julgamento do suposto esquema de corrupção no governo Lula que ficou conhecido como “mensalão”. Para aqueles que ainda duvidavam que o PT já não era mais o partido que dizia ser, o chamado “mensalão” foi um choque de realidade em suas cabeças. Estava ali desnudado por um dos próprios participantes o gigantesco esquema de corrupção na política somente superado pelo processo de privatizações do PSDB de alguns anos antes. Com base no livro O Operador, de Lucas Figueiredo, vamos relembrar em três partes alguns momentos deste vergonhoso evento, nas vésperas do julgamento no STF de alguns dos envolvidos.

Correios: a estatal cobiçada pelos corruptos

Com um faturamento de quase 9 bilhões de Reais em 2005, os Correios eram uma das estatais mais cobiçadas por fornecedores. Mas também por políticos e por partidos ávidos por nomeações nos diversos setores da empresa. Assim que chegou ao poder, o PT fez exatamente como seus antecessores: premiou os aliados com indicações em diversas estatais — dentre elas, os Correios. Ao PMDB entregou a presidência; o PTB levou a diretoria administrativa; e para si, o PT reservou a melhor parte: o setor de tecnologia. Por indicação do PTB, em junho de 2004, Maurício Marinho assumiu o Departamento de Compras e Contratações (Decam).

A gravação que desencadeou a crise

mauricio_marinho Artur Wascheck Neto era um empresário que disputava licitações para fornecer desde botas até cofres, jaquetas e capas de chuva para o governo. Sentindo-se prejudicado nos Correios, contratou arapongas para gravar um vídeo em que Maurício Marinho aparece recebendo propinas e denunciando sem saber o grande esquema de corrupção envolvendo o PTB (imagem), sob as bênçãos de Roberto Jefferson.
Roberto_Jefferson_PTB O então deputado federal Roberto Jefferson era um destes novos aliados petistas de última hora. Para chegar ao poder, o PT teve que mudar, e quem dirigiu a mudança foi José Dirceu. Em 1995 ele expulsou do partido as alas esquerdistas (alguns saíram por livre e espontânea vontade, como os ex-petistas históricos Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo). Outra mudança: se nas eleições anteriores o PT se aliou com os partidos de esquerda, em 2002 esse critério foi para o espaço. O PT resolveu jogar seu passado no lixo e se alinhar com a direita através do PL e do PTB. O apoio destes partidos ao governo Lula não se deu por afinidades ideológicas — muito longe disso — e sim por dinheiro, muito dinheiro. Somente ao PTB, o apoio custou ao PT 20 milhões de reais. O apoio do PL custou mais 10 milhões. Além disso, só ao “marqueteiro” da campanha, Duda Mendonça, o PT devia outros 25 milhões. O partido não tinha todo esse dinheiro. Como iria resolver? Aí que entra a figura de Marcos Valério...
Continua...

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Fonte: FIGUEIREDO, Lucas. O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT. Ed. Record: Rio de Janeiro, 2006.
Parte 2 “Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte2/3)
Parte 3 “Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte 3/3)

16 de julho de 2012

Rosane Collor e a “magia negra”

16 julho 2
Rosane_CollorRaramente vejo televisão e muito menos a rede Globo, mas graças às facilidades da internet, eu pude assistir a entrevista da ex-primeira dama Rosane Collor ao Fantástico. Tirando as já conhecidas questões políticas de 1992 e a ridícula reclamação da “pequena” pensão de 18 mil Reais, o que chamou a atenção mesmo foram as revelações de prática de “magia negra” pelo casal na Casa da Dinda.
 
As pessoas costumam trocar de religião. Isso é mais comum do que se imagina. Assim como é comum também as pessoas que trocam de religião satanizarem suas crenças anteriores, tachando-as de “erradas”, de “ilusão”, de “engano”, enquanto que a nova religião abraçada é a “certa”, o “verdadeiro caminho”, a “luz”.
 
Evangélicos têm por hábito dar testemunhos nas igrejas de como eram suas vidas antes da conversão. Tais relatos costumam impressionar os presentes, e inconscientemente ou não, os recém-convertidos tendem a exagerar quando se referem à sua conduta passada ou à sua antiga religião.
 
Rosane Collor hoje é evangélica e afirma na entrevista que participou de sessões de “magia negra” com o ex-marido na época em que Fernando Collor era o presidente da República. “Magia negra” é um termo genérico que os evangélicos costumam usar quando se referem especialmente às práticas de religião afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé. Assim eles impressionam seus novos colegas cristãos quando dão a entender que se livraram de um poder “maligno”, “diabólico” e aceitaram a verdadeira fé, o caminho e a luz na religião evangélica, quando na verdade apenas trocaram de religião.
 
O que Rosane fez foi apenas repetir o que acontece todos os dias em igrejas evangélicas pelo país: pessoas que, quando precisaram de alguma coisa fácil no passado, recorreram aos “poderes” dos Orixás para conseguir; mas na hora do acerto de contas, se dizem arrependidas e abraçam a religião evangélica. E nos seus testemunhos, mostram todo o preconceito contra suas antigas superstições, associando-as a magia negra e ao diabo — este, mero personagem da superstição cristã.
 
O que a Globo fez por sua vez, quando colocou trechos da fala de uma pobre, crédula e ingênua senhora chamada Maria Cecília na entrevista, mulher que, na época, envolvida com as tais práticas de “magia negra”, se dizia responsável pela vitória do então candidato Collor, foi colocar uma cortina de fumaça na realidade. Só os mais incautos podem levar a sério essa versão, por acreditar em superstições religiosas e por ignorar toda a campanha midiática e das oligarquias em favor de Fernando Collor de Melo, escolhido pelas elites para barrar o então indesejável Lula e para implementar no Brasil o projeto neoliberal.
 
Essa entrevista é mais um desserviço global à verdade e mais uma tentativa de fortalecer o preconceito evangélico contra as religiões alheias. Lixo da pior qualidade.