3 de maio de 2012

Movimento Zapatista, o embrião do movimento anticapitalista atual

Movimento Zapatista
 
A onda neoliberal que varreu diversos países da América Latina nos anos 90 foi ainda mais destrutiva no México. O acordo de livre comércio dos países da América do Norte (NAFTA) e a revogação do Artigo 27 da Constituição revolucionária mexicana de 1917 selou o desmonte dos ejidos, uma conquista dos tradicionais indígenas camponeses mexicanos. A solução encontrada foi a revolta, o protesto, a guerrilha. Mas de uma forma diferente do que até então se conhecia.
 
Em 1º de janeiro de 1994, à meia-noite, o presidente mexicano Carlos Salinas brindava com correligionários num resort particular na costa do Pacífico a entrada em vigor do NAFTA (Salinas assinando o acordo na imagem à direita). No mesmo dia, na mesma hora, a 800 quilômetros dali, 3 mil camponeses indígenas com máscaras de esquiar saíram das florestas de Chiapas e marcharam sobre 7 cidades do estado mais pobre do México. Em San Cristóbal de las Casas, fincaram a bandeira preta com quatro letras vermelhas do movimento: EZLN, Exército Zapatista de Libertação Nacional. Era o começo do que para muitos foi considerada a primeira revolução pós-moderna.

A resposta do governo Salinas foi rápida e violenta. Quinze mil soldados foram para Chiapas, matando 150 pessoas, e em 24 horas os guerrilheiros foram dispersados para as florestas. Mas o apoio inesperado da população aos zapatistas fez o governo cessar-fogo contra o movimento. Mais do que isso: depois de dois anos de negociações, os zapatistas conseguiram um conjunto de medidas conhecido como Acordos de San Andrés [1], e o reconhecimento mundial da sua causa. Esse tratado estava longe de ser uma maravilha, mas garantia que as comunidades indígenas tivessem autonomia, na forma política e social que bem entendessem, com base em suas tradições. No futuro, vários movimentos internacionais iriam se inspirar nesse modelo para criticar o neoliberalismo, entoando pelo mundo o “Já Basta!”, famoso lema dos zapatistas.

Em 2001, repleto de esperanças, o exército zapatista marchou mais de 3 mil quilômetros das selvas de Chiapas até a Cidade do México, para acompanhar a votação do Acordo. Infelizmente, o Congresso o aprovou com tantas emendas que os zapatistas a rejeitaram prontamente. Consideraram uma traição do governo e se retiraram de volta para a selva Lancadona, onde estão até hoje.
 

O que há de diferente no movimento zapatista

Apesar disso, desde 1994 as zonas autônomas continuam funcionando. Elas elegem seus próprios governantes, fazem suas leis e recusam ajuda do governo até que os Acordos de San Andrés se tornem lei. Mas o que esse movimento tem de tão diferente que chamou a atenção do mundo?
 
Os zapatistas surgiram com ideias novas, diferentes dos movimentos políticos de derrubada de governo e revolução violenta. Eles acreditam que o poder não deve simplesmente ser trocado de mãos, saindo do controle das elites para o povo e sim ser dissolvido ao nível das comunidades. Seria um resgate de uma “verdadeira democracia”, um modelo fragmentário de política bem ao gosto pós-moderno.

A revolução zapatista chamou a atenção do mundo quando em 1996 os guerrilheiros convidaram rebeldes e insatisfeitos do mundo a encontrá-los em Chiapas, para um “Encontro Internacional pela Humanidade e contra o Neoliberalismo”. Mais de três mil pessoas de todos os cantos do planeta compareceram. O Encuentro espalhou os ideais zapatistas pelo mundo, e no ano seguinte, foi realizado outro Encuentro dessa vez na Espanha. Era o nascimento do movimento antiglobalização que conhecemos hoje. No próximo post vamos ver mais de perto a repercussão desse movimento nas recentes manifestações contra o capitalismo pelo mundo. (leia aqui em: Superação do Capitalismo: uma certeza, muitas dúvidas)
 
 

[1] KINGSNORTH, Paul. Um não, muitos sins – uma viagem aos centros de antiglobalização. Ed. Record: Rio de janeiro, 2006
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