Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

2 de abril de 2012

Trabalho, senso-comum e ideologia dominante

 TEMPOS MODERNOS
 
Muitos de nós temos nossas opiniões sobre diversos assuntos do dia-a-dia. Damos nossos pitacos sobre futebol, falamos sobre nossos gostos, apoiamos ou criticamos alguma religião... até aí, tudo bem. Uma sociedade multicultural é uma sociedade com muitos pontos de vista. Como já dizia o jornalista Walter Lippmann, “Quando todos pensam igual, ninguém está pensando”. Mas quantas vezes paramos para analisar até que ponto nossas opiniões são realmente nossas, fruto de uma reflexão e uma conclusão bem feitas, ou apenas meras reproduções da opinião geral, conhecida como senso-comum?
 
O senso-comum é recheado de frases feitas, que são consideradas “verdades da sabedoria popular”. Mas essas frases muitas vezes escondem uma visão de classe, contendo uma ideologia por trás da sua fachada neutra. Vamos ver um exemplo muito conhecido:
 
“O Trabalho dignifica o homem”
Avenida_Paulista
 
De fato, esta afirmação não é falsa. Olhe para uma cidade: agora imagine que você possa retirar mentalmente tudo o que não é natural. Retire as ruas, os postes de luz, os carros, as lojas, as fábricas, os prédios, as casas... O que sobra é um terreno vazio, a Natureza em seu estado original. Tudo o que você retirou mentalmente é trabalho, a mão do homem modificando a Natureza, e assim distinguindo-se do restante dos animais. Isso é positivo, mas essa frase pode se tornar ideológica quando mascara relações de exploração do trabalho alheio por outros homens. Defender que o trabalho, deste tipo, o alienado (no sentido de que o resultado do trabalho não pertence a quem produziu a riqueza), dignifica o homem, é um sinal de que você não refletiu bem sobre o que isso significa.
 
Segundo a professora Maria Lúcia de Arruda Aranha[1]:
O trabalho alienado não dignifica, mas degrada o homem, porque além de retirar dele o fruto de sua produção, reduz suas possibilidades de crescimento. Quando a característica pervertida do trabalho não é reconhecida, esse ocultamento beneficia não o trabalhador, já prejudicado, mas aqueles que se ocupam com as atividades menos penosas.

Como a ideologia atua no senso comum

Dessa maneira, é muito fácil vermos a sociedade aprovar (senso-comum) e as mães se orgulharem de seus filhos que acordam às 4 da manhã, que pegam o trem de Japeri lotado, que dão duro no trabalho o dia inteiro, para à noite pegar outro trem lotado até seus bairros-dormitórios, para chegarem perto de meia-noite, tendo que acordar novamente na manhã seguinte às 4 horas. Porque “o trabalho dignifica o homem”, é o que se escuta por aí. Em casos assim, a ideologia está trabalhando fortemente. Para onde está indo o fruto deste trabalho tão intenso? 

A ideologia naturaliza a realidade, faz parecer que tudo tem que ser assim mesmo, ocultando o fato de que não é natural que haja ricos e pobres, exploradores e explorados. Tudo o que as classes dominantes pretendem é criar o consenso, quer que “todos pensem igual”. São estas as partes silenciadas por trás do senso-comum, e você encontra uma série de outros exemplos por aí. Quando repetimos essas coisas sem refletir, ajudamos a manter as coisas “do jeito que tem que ser”. Mas é preciso mudar.
 
Portanto, O trabalho dignifica o homem, desde que a riqueza gerada pelo seu trabalho não seja apropriada por terceiros. Aí a coisa começa a mudar.

[1] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. São Paulo: Moderna, 1998.

2 comentários:

  1. É natural que existam ricos e pobres, dada a assimetria da concepção do ser humano em seus corpos e mentes, moldando de diferentes maneiras suas habilidades. Con corso com vc no que tange o alto grau de desigualdade, onde os meios de produçao criam distanciamento gigantesco entre o patta e o trabalhador, provendo uma distrobuiçao de recursos nao natural

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    1. Olá Anônimo,
      Permita-me discordar de você com relação à suposta naturalidade da riqueza e da pobreza, porque isso não é natural. É resultado de um modelo econômico, uma construção histórica, que é mantida por uma série de fatores, como o conformismo espiritual, a falsa consciência ideológica e outras ferramentas.
      O restante de seu comentário sim, aí eu concordo.
      Grande abraço.

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