Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

25 de janeiro de 2012

Professores japoneses que não se curvam ao Imperador

teacher_japanese
Já faz algum tempo que anda circulando pelo Facebook uma frase que indica um suposto comportamento cultural no Japão e que serviria para levantar o moral dos professores brasileiros. Acontece que esta frase, replicada por tanta gente, não condiz com a realidade — e o pior: se condissesse, ainda assim não deveria servir de exemplo.
 

Eis a mensagem em questão:
“No Japão, o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor, pois segundo os japoneses, numa terra que não há professores não pode haver imperadores”.
Esse boato começou esse ano na rede social do Brasil, e de repente virou uma grande verdade. Mas — eis o grande mal do brasileiro — parece que mais uma vez as pessoas estão engolindo e replicando uma mentira sem refletir sobre o assunto, fato que não é nenhuma novidade no Facebook.
 
É fato altamente verificável que em muitos outros países, a profissão de professor é respeitada, valorizada e admirada pela população e pelos governantes. Certamente é o caso do próprio Japão. Mas esse boato de que é o único profissional que “não precisa se curvar diante do Imperador” é um tanto problemática. Primeiro, porque eu nunca ouvi falar dessa situação, e esse rumor só começou a existir há poucas semanas em blogs e algumas poucas páginas brasileiras, cuja fonte é... o próprio Facebook. Fiz uma pesquisa em sites de língua inglesa e espanhola, e nada comprova essa situação; e segundo: bem, esse é o problema mais sério...
 
Segundo o texto, a justificativa dos professores não precisarem se curvar diante do Imperador é porque “numa terra que não há professores não pode haver imperadores”. Isso tem sido divulgado como um ponto positivo a nosso favor...
 
Obama_bowing_in_Tokyo Se o “imperador” americano se curva diante do imperador japonês, imagine o professor
 
Não sei se mais alguém percebeu o mal-estar dessa afirmação, mas o que está bem explicito ali é: “se não fossem os agentes do ensino em sala de aula pregar as maravilhas do nosso Império, a bondade, a lealdade e a firmeza do nosso querido Imperador, se não fosse por eles que desde cedo implantam nas cabeças de nossas crianças a ideologia do império japonês, eu não poderia estar sentado neste trono agora, obrigado professores!
 
Em nenhum lugar do planeta tal atitude deveria ser louvada, mas no Brasil... a gente vai passando adiante as coisas sem nem ao menos pensar sobre o assunto...
 
É claro que o ato de ensinar não prima pela neutralidade. Todo professor carrega consigo os seus valores e as ideias de seu tempo. Também já foi o tempo da escola tradicional onde o aluno assimila passivamente os ensinamentos do mestre. Mas uma postura francamente direcionada para a louvação de um sistema de governo, o Império japonês ou próprio imperador, não me parece algo digno de exemplo, nem que seja para evitar uma leve inclinação de cabeça.
 
Aparentemente é uma questão sem maior importância, mas esse é um exemplo modelar de como boatos e pensamentos irrefletidos e replicados podem criar uma verdade que não tem a menor base de credibilidade, e que, ainda pior, podem esconder uma característica nociva. Pense nisso.

6 comentários:

  1. O governo do Brasil domina o povo não pela cultura mas sim pela ignorância.

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  2. Talvez a frase seja ambígua quanto ao sentido... Da primeira vez que li, entendi que sem o professor, não pode haver uma pessoa com (as supostas)qualidades necessárias a um imperador, mas realmente essa cultura de "copiar e colar sem verificar" é uma praga no Brasil das redes sociais.

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  3. Acredito realmente que a informação divulgada por esse post não deva ser verdadeira, porém o autor do texto seguiu uma vertente altamente tendenciosa. Não acho que esta mensagem remete a um cenário em que o professor é um agente passivo do ensino, remete ao fato de que, ao menos em algum momento, o personagem mais importante de um governo, país ou dinastia, recebeu os ensinamentos de um mestre, não de maneira passiva, pois afinal aquele que estar a ensinar é também um ser humano que carrega consigo seus ideais, convicções e preceitos. De modo que, seria muito mais proveitoso e (talvez) verdadeiro, se os dizeres do post fossem: "No Japão, até o imperador, em sinal de respeito, se curva perante o seu mestre".

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  4. Sempre desconfiei dessa informação espalhada nas redes sociais e entendo o ponto de vista do autor, porém, concordo em termos com o Raphael e o Allan.
    Lembrando que, certa vez vi um documentário sobre a educação na Coréia do Sul. E se lá eles não se curvam diante do professor, pelo menos vemos uma profissão extremamente respeitada, valorizada e disputada. Tanto é que o processo de seleção de professores é difícil, pois corresponde aos melhores salários. Claro que dá pra fazer toda uma análise dialética em torno disso, mas, seria muito bom se a valorização do professor começasse a partir de bons salários e melhores condições.

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    1. Exatamente Alexandre.

      O que acontece no nosso país é classificado pelos especialistas como proletarização do magistério, onde as condições precárias de trabalho aliadadas a um salário aviltante (o mais baixo de todos os níveis superiores) atrai apenas aqueles que não tem outra perspectiva, e não os melhores.

      Tem que começar daí a revolução no ensino, o respeito vem na esteira.

      Grande abraço.

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