Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

28 de dezembro de 2012

Respirar taxas desumanas de enxofre nas grandes cidades: coisas do Brasil

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Poluição automotiva

Os críticos desse nosso nocivo sistema de mercado desregulado sempre fizeram uma brincadeira sobre o avanço do capitalismo em todas as áreas da vida humana: chegaria o dia em que até o ar que respiramos seria comercializado por alguma empresa privada. Esse dia ainda não chegou, felizmente, mas não quer dizer que ele já não esteja envolvido em questões econômico-políticas.

O brasileiro, este pobre ser vilipendiado de cima abaixo por seus próprios governantes, aquele cidadão pacato e festivo que paga as taxas mais caras do mundo por serviços de péssima qualidade e produtos que custam o dobro do que custariam lá fora; que paga os impostos mais elevados do planeta Terra sem ver o retorno em melhorias na qualidade de vida porque o país prefere dar lucro aos rentistas; que vive no país do baixíssimo octogésimo-quarto nível de IDH (a piorar com a crise); que banca os maiores salários do mundo para os políticos mais corruptos e juízes que dormem sobre uma montanha de processos parados… nem sequer tem o direito de respirar um ar puro de qualidade nas grandes cidades.

O Brasil tem por predominância o transporte rodoviário, tanto de carga quanto de passageiros, e este consome em quase sua totalidade óleo diesel como combustível. Nos anos 80 e 90, o nível de enxofre do óleo diesel brasileiro alcançava a inacreditável marca de 13 mil partes por milhão. Hoje a marca atinge “suaves” 1.800 partes por milhão no interior e 500 partes por milhão nas grandes cidades, de acordo com as regras do governo, o que ainda é um absurdo.

Em 2002, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) publicou a Resolução 315, que obrigava as montadoras de veículos e a indústria do petróleo a reduzirem as partículas de enxofre, mas sem determinar o quanto, o que não adiantava nada. Somente em 2007 a Agência Nacional do Petróleo (ANP) determina que o óleo diesel brasileiro deve conter “apenas” 50 partes de enxofre por milhão (chamado de S50).

Leia também:

  1. Europeus votam na ONU contra punição a empresas poluidoras

  2. Desenvolvimento Econômico, mas a que preço?

Enquanto que na Europa, há muito tempo, é proibido óleo diesel com mais de 10 partes por milhão (S10), aqui o jogo de empurra e o lobby político de montadoras e distribuidoras emperram o cumprimento total da resolução. As montadoras, durante muito tempo, afirmaram que não iam produzir carros para um combustível que não estava no mercado, e as refinarias alegavam que se não se fabricassem carros respeitando a resolução não poderiam fazer o combustível menos poluente. O que está por trás de toda essa dissimulação é o medo dos custos elevados para a mudança de tecnologia e a consequente redução imediata dos lucros, interesses acima do bem-estar da população brasileira.

Mas só depois de estudos comprovando que o enxofre do óleo diesel mata 3 mil brasileiros por ano, as coisas começam a mudar vagarosamente. A Petrobras, depois de lutar anos contra a resolução usando as mais descabidas desculpas, mudou de postura, mas ainda tem a cara de pau de alardear que “lançou no mercado um novo óleo diesel” e que “essa iniciativa da companhia segue sua tradição de pró-atividade no exercício da responsabilidade ambiental e social”. Isso depois de tentar adiar a resolução e de jogar durante décadas milhões de toneladas de enxofre no nosso ar sem o menor remorso...

Se depender da “vontade” e do “empenho” dos governos brasileiros em fiscalizar a indústria automotora e de combustíveis no país, dada a morosidade da implementação do óleo S50, o brasileiro, além de ser enganado, maltratado, roubado e esquecido pelas autoridades, ainda continuará respirando veneno por muito tempo nas grandes e médias cidades.

26 de dezembro de 2012

Qual é o termo gentílico mais adequado para quem nasce nos Estados Unidos?

26 dezembro 12
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Esse foi um tema proposto recentemente numa comunidade de história na internet, e que gerou calorosos debates. Aparentemente esse é um assunto sem muita importância, mas só o fato de envolver questões de profundo cunho ideológico e psicológico já faz desse, um debate muito importante.

O nome do país suscita as controvérsias. Eles são os Estados autônomos que se uniram para formar um país no continente americano. Daí Estados Unidos da América. Alguns participantes da comunidade na internet defenderam que os nascidos naquele país sejam considerados “americanos” e não “estadunidenses” porque “Estados Unidos” é “relativo à sua forma de organização político-administrativa” sendo que em outros países “a construção do gentílico se dá com base apenas no último termo”. Daí Brasil resulta brasileiros, Canadá – canadenses, Argentina – argentinos, e assim por diante.

Temos dois equívocos neste argumento. Primeiro, porque a forma de organização político-administrativa do país é República Constitucional. “Estados Unidos” é relativo apenas ao contexto histórico da formação do país, ou seja, a união de Estados autônomos. Segundo, Brasil, Canadá, Argentina são, de fato, nomes de países. O mesmo não se aplica a “América”, que é o nome do continente. Portanto, Brasil – brasileiro, Argentina – argentino, não é o mesmo que América – americano. Isso só é verdade se você estiver se referindo a quem nasceu no continente americano e não nos Estados Unidos.

“Americanos” por costume

Há quem sustente que eles são “americanos” porque na Europa e no resto do mundo eles são tratados assim. Mas imagine o que aconteceria se hipoteticamente existisse um país no continente europeu chamado "Estados Unidos da Europa", cujos habitantes se autodenominassem "os europeus"... O que será que portugueses, alemães, franceses, italianos, pensariam disso? Será que concordariam e abririam mão de serem lembrados também como europeus? É claro que não.

É óbvio que o resto do mundo nomeia quem nasceu nos Estados Unidos como “americanos”, não por costume, mas pela força da sugestão. Quem pode resistir a tamanha máquina de propaganda, à cultura de massa dos seus filmes e produtos midiáticos e do peso da sua influência ideológica que impõe a sua maneira de viver e pensar a todo o planeta?

Como então devem ser chamados?

Quem nasce nos Estados Unidos também é norte-americano, mas esse termo não se aplica corretamente caso você esteja se referindo apenas a quem nasceu naquele país. Pois canadenses e mexicanos também são norte-americanos, é bom lembrar. Portanto, a única maneira de se referir corretamente a quem nasceu nos Estados Unidos é chamá-los estadunidenses. Americanos somos todos nós deste vasto continente, desde os índios quéchua da Bolívia até os esquimós do norte do Canadá, e o fato deles se apropriarem do termo para si é mais uma questão de poder e ideologia do que de "terminologia gentílica". Afinal, a subordinação de outras culturas e ideologias não se dá apenas através das armas. A destruição da autoestima e da cultura de outros povos se dá também através do sequestro da sua identidade. E é esse o papel da ideologia por trás de um assunto aparentemente tão banal, como tantos outros do nosso dia-a-dia, mas que estão cheios de segundas intenções escondidas.

20 de dezembro de 2012

Adiado para 2016 o Novo Acordo Ortográfico

20 dezembro 0
Adiado para 2016 o Novo Acordo Ortográfico

O governo brasileiro resolveu adiar para 2016 a vigência do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, já utilizado por setores públicos e privados brasileiros desde o final de 2008 e previsto inicialmente para ser adotado definitivamente em 1º de janeiro de 2013. Com a medida, a duas formas de ortografia, a antiga e a nova, serão utilizadas simultaneamente durante mais 3 anos.

Os portugueses, seja por razões nacionalistas, políticas ou sentimentais, resistem mais à implementação do acordo, que foi discutido no longínquo ano de 1990 e ratificado em 2008 por todos os países lusófonos. Por causa disso, o governo português definiu um prazo maior para a sua implementação definitiva: 2014. O Brasil vem adotando mais fortemente as mudanças, mas mesmo assim, o governo decidiu adiar a implementação definitiva do novo acordo para dois anos além do estipulado pelos portugueses.

Esse adiamento não tem uma explicação convincente das autoridades. A alegação oficial é de que “há muita insatisfação” e assim “se ganharia mais tempo para discutir as mudanças”. Novas propostas poderiam ser feitas, e as mudanças previstas poderiam ser revogadas. Enfim, uma tremenda confusão.

Livros já foram editados com a nova ortografia, concursos já foram feitos com a nova ortografia, a imprensa escrita já está perfeitamente adaptada à nova ortografia, e no entanto, ainda querem discutir a nova ortografia, depois de quase 23 anos de reuniões e discussões desde 1990?

A principal razão não dita é que os portugueses, de modo geral, não aderiram ao novo acordo, emperrando a sua implementação simultânea entre os países. Muitos deles afirmam que não vão deixar de escrever como escrevem nem com a entrada em vigor do acordo. E o governo brasileiro acha que entrar no ritmo lento de Portugal vai causar menos embaraços e ser bom politicamente, para não dar a ideia de que a “colônia do Brasil está invertendo os papéis [sic] e impondo sua ortografia à sua metrópole, verdadeira pátria-mãe e guardiã da pureza da língua”, que é o grande receio de muitos portugueses.

Por este prisma, mais três anos não parecem ser suficientes para mudar uma mentalidade tão entranhada no imaginário português, e se a ideia for esta, este acordo pode estar rumando fragorosamente para o fracasso.

11 de dezembro de 2012

Como tirar melhor proveito da cultura maia do “fim do mundo”.

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calendário
Nunca a cultura maia foi tão comentada e discutida quanto neste final de 2012. Isso por conta de apenas duas pequenas citações encontradas em inscrições em pedra, no Monumento 6 de Tortuguero, no México, e mais recentemente nas densas florestas de La Corona, noroeste da Guatemala, onde a data 21 de dezembro de 2012 aparece como o momento de grandes transformações na vida dos indígenas que viveram na América Central.
maiasO problema é que a civilização maia já não existe desde antes da chegada dos espanhóis no Novo Mundo e sua cultura hoje se restringe a pequenos povoados na região do México e da Guatemala, onde os descendentes dos antigos indígenas lutam para manter vivas certas tradições dos seus antepassados.
Mas por que então o calendário maia ganhou tanta notoriedade nos últimos tempos, e por que a chamada “profecia maia” do fim do mundo ganhou tantos adeptos neste começo de Terceiro Milênio?
poster-filme-2012-rioA resposta passa por uma série de fatores. Destacaremos dois. Em primeiro lugar, o fim do mundo rende muito dinheiro a editores, escritores, cineastas e à mídia de modo geral. O tema do fim do mundo baseado na “profecia maia” já foi alvo de documentários, programas de TV, artigos de jornal, livros e revistas, e até empresas que constroem bunkers andam recebendo muitas encomendas nos Estados Unidos, assim como pilhas e estoques de água e comida têm sido vendidos cada vez mais, conforme o fatídico dia 21 de dezembro vai se aproximando. Em segundo lugar, estes produtos midiáticos só vendem porque a nossa civilização judaico-cristã está desde muito cedo familiarizada com profecias do fim do mundo, muitas delas inspiradas no Apocalipse bíblico. As pessoas realmente acreditam que o mundo em algum momento vai passar por uma espécie de Juízo Final, e embora todas as outras datas estipuladas ao longo da história para o fim do mundo tenham falhado categoricamente, parece que esse tema ainda exerce um grande fascínio na sociedade ocidental, pessimista com os rumos do mundo e impotente para mudar alguma coisa.
Neste quadro, fica fácil de compreender porque muitas pessoas associaram a cultura maia com a sua própria ideia de fim do mundo e Juízo Final, esperando que em dezembro de 2012 a população mundial passe por algum tipo de acerto de contas. Mas a verdade é que mais esta “profecia” não vai finalmente se concretizar. Até porque os maias não previram nenhum fim do mundo.
Se as pessoas quisessem realmente se inspirar na cultura maia, em vez de levar o assunto para o superficial e inútil lado da profecia do fim do mundo, deveriam se inspirar no calendário maia de modo objetivo para começar um novo ciclo em suas vidas – talvez este o verdadeiro sentido da “profecia”. O fim de um ano e o começo de outro é o período em que as pessoas geralmente estão mais propensas a fazer mudanças em suas vidas, em seus comportamentos e em seus hábitos. Quem sabe este 21 de dezembro de 2012 não seja o momento mais indicado para que as pessoas possam deixar de lado as coisas que atrapalham as suas vidas, em busca de novos rumos e novos desafios -- a começar pelo abandono de crenças em superstições tolas e profecias.
Em vez do fim do mundo, que tal o começo de uma nova vida?

22 de novembro de 2012

Abusos do agronegócio: os transgênicos em xeque

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agronegocio-sojaO agronegócio representa hoje uma das maiores forças econômicas e políticas no mundo capitalista. Ainda mais no Brasil, país onde a concentração de terras é histórica e quase 3 por cento da propriedade rural são enormes latifúndios que cobrem mais da metade de extensão territorial agricultável do país (56,7%), segundo dados do IBGE de 2006. Essa força se expressa em pressão no governo, que permite que seus negócios sujos sejam mais relevantes que a saúde da população brasileira.

Um dos maiores mercados do agronegócio é a área de sementes transgênicas e agrotóxicos. Aqui também se verifica um oligopólio que gera bilhões de lucros para grandes proprietários, sem a menor preocupação com as consequências a longo prazo para saúde dos consumidores.

Estudo comprova que transgênicos causam câncer em cobaias

Recente pesquisa publicada no Food and Chemical Toxicology Review, importante publicação científica, reacendeu o debate sobre os perigos deste tipo de alimento modificado geneticamente. Cerca de 200 ratos-cobaias foram alvo de uma experiência durante dois anos, separados numa dieta com milhos transgênicos do tipo NK603 – um dos mais consumidos no mundo – enquanto outros grupos se alimentavam somente de milho natural. O grupo dos transgênicos apresentou 3 vezes mais casos de câncer, sendo que os primeiros tumores surgiram depois de 4 a 7 meses de testes. Curiosamente, os órgãos de fiscalização pelo mundo exigem apenas 3 meses de testes para aprovar um produto transgênico... Coincidência?

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Ratos da experiência apresentaram tumores ao se alimentar com transgênicos
Cientistas que estudam os riscos dos produtos transgênicos e que consequentemente causam um grande inconveniente para as poderosas indústrias de biotecnologia costumam ser ameaçados e ter suas carreiras prejudicadas, como no caso do bioquímico Arpad Pusztai, que em 1998 foi forçado à aposentadoria pelo Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, após divulgar efeitos do consumo de batatas transgênicas em ratos de laboratório, e de Ignacio Chapela, professor na Universidade de Berkeley, nos EUA, que publicou na revista Nature uma pesquisa demonstrando a contaminação de variedades tradicionais de milho no México (centro de origem da espécie) por transgênicos, entre outros casos.
Infelizmente a grande mídia, patrocinada pelas multinacionais do agronegócio, não está do nosso lado. Não contem com ela para divulgar este tipo de assunto lesivo ao interesse dos grandes negócios capitalistas. Cabe a nós mesmos tomar ciência dos fatos, porque somos vítimas diretas deste abuso do poder econômico, num país que é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e o segundo maior produtor mundial de transgênicos, onde 80 por cento da soja já é modificada geneticamente, enquanto o milho e outros produtos vão pelo mesmo caminho.

7 de novembro de 2012

O QUE PRECISAMOS SABER SOBRE Redução da maioridade penal

07 novembro 1

Atualizado em 3 de maio de 2015

Tem crescido nas redes sociais campanhas para a redução da maioridade penal de 18 para 16 e até para 14 anos, sempre na carona de alguma comoção recente que tenha ocorrido por conta de algum crime envolvendo a participação de menores. Mas seria esta realmente a solução para os nossos problemas de violência urbana? O que sabemos de fato sobre esse tema? Talvez um pouco mais de reflexão sobre o assunto seja necessário antes de uma opinião tão contundente.

O Estatuto da Criança e Adolescente permite a impunidade? NÃO

Muita gente diz que o jovem pratica o crime sabendo que não vai para a cadeia por causa da suposta benevolência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Puro equívoco. Primeiro, é sabido por todos os médicos e pedagogos que o jovem age no crime por puro impulso, oportunidade e por falta de perspectiva. Quem disser que um menor de idade se sente acolhido pelo ECA para praticar crimes, dá a entender que o jovem leu o Estatuto ou descobriu que poderia fazer qualquer coisa impunemente, o que é um grande absurdo. Segundo, o ECA só é lembrado convenientemente quando um adolescente comete um crime, mas nunca quando ele é vítima de maus tratos, violência sexual ou abandono. Dois pesos, duas medidas?

De acordo com o advogado Ariel de Castro Alves, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos,


Nos últimos meses, pesquisas divulgadas por algumas instituições reforçaram o entendimento de que as principais vítimas da violência alarmante que toma conta do Brasil são crianças, adolescentes e jovens. Um recente trabalho coordenado pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) analisou mortes de jovens entre 1980 e 2002, concluindo que os homicídios contra crianças e adolescentes representaram nesse período 16 % do total de casos ocorridos no País; 59, 8% dos crimes foram praticados com armas de fogo. O último estudo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), divulgado no final do ano passado, afirmou que 16 crianças e adolescentes são assassinados por dia no Brasil. Entre 1990 e 2002, essas mortes aumentaram 80%.

Desconfie de qualquer coisa que contenha a máxima “Acorda Brasil!”

Depois vêm aquelas frases de efeito na internet – porém totalmente falsas – que dizem “no Brasil, menor pode roubar, pode matar, pode estuprar, etc.”. Pode mesmo?

Redução da maioridade penal

Essas pessoas que repetem os clichês mais idiotas que veem e ouvem precisam saber que, no Brasil, a vida de grande parte desses jovens está muito longe de ser uma maravilha. Ao contrário do que diz o cartaz acima, que circula pela internet, milhões de crianças e adolescentes trabalham muito e no serviço pesado desde cedo, quando não deviam. Quando chegam perto dos 18 anos, por não terem sido educados no tempo devido, não conseguem emprego. Muitos não levam “palmadinhas” mas são surrados por suas famílias, espancados, mortos de tanto apanhar. E dos 12 aos 17 anos, não podem ser presos, mas respondem por seus crimes de diversas maneiras, com penas em estabelecimentos socioeducativos ou medidas corretivas diversas. Não poderia ser mais enganosa a propaganda acima.

Como a prisão pode ser a melhor solução?

É claro que não podem cometer crimes, nem eles, nem ninguém. Agora eu me pergunto: o que se ganha tirando um menor de idade infrator de um estabelecimento corretivo para jogá-lo dentro de uma penitenciária, sujeito a todo tipo de perigo e má influência, verdadeiras escolas do crime como as que conhecemos? Isso resolveria o quê? Nada. Mas continua sendo vendida como solução da criminalidade para uma classe média estúpida e medrosa.

Cada menor carente preso é um concorrente a menos para os filhos da classe média

De cada 100 crimes no Brasil, apenas 1 é praticado por menor de idade. Seria inteligente nos concentrar neste 1 por cento para solucionar a criminalidade? Muito mais importante e produtivo do que sugerir o aumento da punição, é atacar o verdadeiro problema da violência brasileira: a brutal desigualdade social e econômica que joga milhares de jovens na criminalidade todos os dias por pura falta de perspectiva, especialmente nas grandes cidades brasileiras. Mas isso a sociedade não quer discutir, pois interfere muitas vezes na condição social privilegiada da qual as classes médias desfrutam, tendo medo de perdê-la com uma melhor distribuição de renda e educação de qualidade para todos, o que refletiria na competição pelos melhores postos de trabalho.

Enquanto as pessoas não atentarem para este fato crucial, se distraindo com superficialidades como a diminuição da maioridade penal em vez de exigir políticas públicas para diminuir o fosso social entre ricos e pobres, nada será realmente resolvido.

17 de outubro de 2012

Monteiro Lobato contextualizado

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Monteiro-Lobato
Esse texto combate anacronismos e tenta corrigir distorções de interpretação de épocas diferentes com a mentalidade do presente.
 
[lock]Anos atrás, Esmeralda Z. Parola escreveu uma história para crianças sobre uma ovelhinha chamada Roberta, muito triste porque nenhuma das outras ovelhas queria conversar nem andar com ela.
 
Uma vez ela foi perguntar à sua mãe o motivo. A ovelha mãe então disse:
— Bééé... ovelha tola! Não gostam de você porque você é diferente, esquisita. Você é a ovelha negra do pasto.
 
Roberta fica deprimida, mas encontra uma solução. Ela descobre que nas montanhas vive um rebanho de ovelhas bem pretinhas, de lã crespa e rija. Assim, dando adeus à sua família (que finge não a conhecer) ela parte sozinha. Chegando lá, é recebida como se fosse uma filha perdida há muito tempo, vivendo feliz o resto dos dias.
O livro é um sucesso de vendas, sendo inclusive recomendado pelo Ministério da Educação. Dirigentes do Movimento Negro apoiam o livro, que denuncia o preconceito das “ovelhas brancas” contra Roberta. Dona Esmeralda é agraciada com honrarias da Academia Brasileira de Letras, e se torna uma das maiores expoentes da literatura nacional.
 
Alguns anos depois, porém, começam a surgir pesadas críticas ao livro: “Este é o pior espécime de espalhafatosa bobagem racista que jamais li em toda a minha vida”, diz o crítico da editora Meu Primeiro Livro. “Repugnante!”, diz outro. Em pouco tempo, o livro é banido das escolas e até retirado das prateleiras. Dona Esmeralda, apesar de já falecida, é colocada nos banco dos réus, acusada de racismo em sua obra.
 
* * *
 
Esse pequeno texto de ficção foi adaptado do livro 101 Problemas de Filosofia, de Martin Cohen. Se há alguma lição embutida nessa história é que, muito mais do que a intenção de um autor, é a interpretação que cada sociedade dá ao livro em cada época que conta mais no seu entendimento. O livro que atravessa gerações acaba ganhando vida própria, sendo muito mais um espelho de nossa própria visão do mundo do que da época em que foi lançado.
 

Obras racistas?

Muita gente a esta altura já notou a semelhança desse caso com a acusação sofrida atualmente por Monteiro Lobato, um dos escritores mais renomados do país. O Instituto de Advocacia Racial (IARA), bem como outros movimentos negros, afirmam que as obras “As caçadas de Pedrinho” e agora também “Negrinha” contêm “elementos racistas” e entraram com representação na Procuradoria Geral da União para que as obras deixem de integrar o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que distribui livros a bibliotecas escolares do país. A alegação é que na primeira obra Lobato diz que Tia Nastácia subiu numa árvore tal como “macaca de carvão”; e na outra, a personagem principal, a negrinha, sofre violência diária da patroa, “sem [que o autor explique] que aquilo você não pode fazer”, nas palavras do diretor do IARA, Humberto Adami.
 
mono carvoeiroAcredito que há enorme exagero no patrulhamento recente dos ativistas racialistas e dos movimentos raciais em relação a obras do passado. Vejam o caso da “macaca de carvão”. Tirada do contexto, parece um insulto racista. Mas “macaco de carvão” ou “macaco mono carvoeiro” (Brachyteles arachnoides, imagem ao lado) na realidade tem os pelos claros, “loiros”. É muito mais provável que Lobato estivesse se referindo à destreza da personagem, não à sua aparência física.

Cada macaco no seu galho

Essas pessoas e organizações precisam saber interpretar o pensamento de cada época para não cair em anacronismos tolos, como defender a censura a Monteiro Lobato usando como parâmetro a noção atual de racismo do século XXI. É muito provável que Monteiro Lobato fosse, de fato, eugenista (veja eugenia aqui), um fenômeno de sua época que seduziu países inteiros como os EUA e a Alemanha no começo do século XX. No entanto, muito mais indicado do que confundir as obras hoje com a postura ideológica pessoal do autor, perfeitamente comum no seu tempo, e censurar o acesso das crianças a elas, é a contextualização de Monteiro Lobato em sua época e a leitura crítica de seu trabalho. Cada professor em sala, em vez de apontar o dedo e acusar personagens literários do passado com a cabeça de hoje, deveria mostrar a evolução do pensamento racial, com suas contradições, enganos e influências, e localizar o autor nesse debate, bem como os caminhos que o tema vem tomando atualmente.
 
Censurar nunca é positivo. Não é obstruindo o conhecimento das obras em bibliotecas que vamos formar uma sociedade mais ou menos racista e sim entendendo a nossa história, nossa mentalidade, nossos erros e acertos, para podermos compreender nossa situação e construir uma sociedade menos desigual daqui por diante. Afinal, como bem mostrou o conto narrado acima, o que hoje é o pensamento dominante, amanhã pode ser condenado, em vez de compreendido. O MEC já entendeu isso. Espero que o Supremo Tribunal Federal também, no seu julgamento do caso.[/lock]
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26 de setembro de 2012

Poluição visual das cidades não incomoda só em época de eleição

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poluição-visualRealmente elas são chatas, inconvenientes e invasivas. As propagandas políticas incomodam bastante os cidadãos em épocas de eleição. Estão em todos os lugares, seja nas ruas, causando poluição visual, material e sonora, seja na TV, entrando em nossos lares sem serem chamadas. Mas elas passam. Só voltam depois de dois anos, na eleição seguinte.

Mas por que as pessoas não têm a mesma reação negativa com relação à publicidade comercial, que polui a cidade do mesmo jeito, com banners espalhados pelos prédios, outdoors instalados em cada rua, e com as propagandas da TV que nos empurram goela abaixo produtos que não queremos? Aí está uma coisa curiosa.
Será que nos acostumamos com esse abuso e pensamos que ele é normal e que deve ser assim mesmo?
Recentemente uma ex-deputada federal relatou em seu blog a primeira impressão que teve assim que desceu em Havana, numa viagem de férias: olhou em volta da cidade não viu sequer uma publicidade de grandes empresas poluindo o visual! Muito diferente da sensação de quem desce no aeroporto Santos Dumont e pega um taxi até a zona sul do Rio de Janeiro. O visitante é bombardeado por imensos painéis de publicidade, que transformam os prédios em totens gigantes de propaganda.

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Em maio desse ano o atual prefeito do Rio colocou em prática um projeto copiado de São Paulo, chamado Rio Mais Limpo, que visava restringir tais propagandas, mas neste mês de setembro, a Justiça cassou o decreto da prefeitura e as empresas colocaram de volta suas propagandas pela cidade.
Então eu volto à questão: a população das grandes cidades reclama da sujeira da propaganda política em épocas de eleição. Mas por que elas não se incomodam e se mexem para cobrar das autoridades o fim da poluição das publicidades comerciais que estão entre nós não só em épocas de eleição, mas o ano inteiro, em todos os lugares?

4 de setembro de 2012

O mercado da informalidade na campanha política

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O mercado da informalidade na campanha política

Estamos vivendo em todo o Brasil o período de campanhas eleitorais e é difícil escapar do tema quando a gente quer escrever sobre algo da atualidade. O assunto de hoje é o mercado informal na eleição, que ocorre a cada 2 anos no país e corrompe o que se esperaria de uma verdadeira democracia e de uma plena cidadania, porque envolve interesses e favores imediatos e pessoais e não o bem estar da comunidade. Embora a eleição abra uma série de oportunidades para cantores de jingles, compositores, produtores de faixas, banners e cavaletes, donos de carros de som, etc., vamos nos ater a um tipo bem específico que costuma ser o mais explorado: o cabo eleitoral.

Uma das coisas mais belas da democracia é quando você se presta a fazer campanha para seu candidato de predileção. Num país em que este sistema está plenamente implementado, os cidadãos escolhem, apoiam e divulgam aquele que consideram o melhor postulante ao cargo político, não porque queriam alguma vantagem pessoal em troca, mas porque acreditam que ele fará um bom governo para todas as pessoas.

Agora, o que dizer quando um país apresenta apenas um arremedo de democracia como o nosso, com uma população que carece de entendimento sobre política e sofre com a baixa escolaridade e com o abandono dos governantes? Esse é o quadro geral no nosso país, mas principalmente das áreas carentes, onde a política se faz mais necessária. E falando especificamente, da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A cada esquina se vê pessoas empunhando e agitando bandeiras de algum candidato; muitas vezes, no centro dos bairros, eles aparecem às dezenas, com camisas, bonés, bandeiras, santinhos e carros de som. De repente aparece não um daqueles onipresentes carros, mas sim uma “bicicleta de som” com um sujeito pedalando alegremente uma bicicleta com um sistema de som embutido, tocando o jingle de algum outro candidato. Na beira das ruas, eles, os famosos cabos eleitorais passam o dia inteiro sentados numa cadeira de praia, zelando pelo cavalete de mais um outro postulante ao cargo público. E pelos muros e janelas das casas, só se vê galhardetes dos mesmos candidatos de sempre que dominam seus currais eleitorais, aqueles a quem se pode recorrer para um atendimento num hospital ou uma cadeira de rodas para um parente. Esse é o cenário da região, bem como de muitas outras regiões do país. “Festa da democracia”, como diz a mídia?

Usar a eleição para faturar um troco é errado

Infelizmente, não. A esmagadora maioria dessas pessoas não está ali manifestando sua preferência política porque acredita que aquele candidato seja mesmo o melhor e mais preparado para a função. Elas passaram dois anos esperando esse momento, o de trabalhar para “algum candidato” (quem quer que seja), fazendo um bico, se prestando a serem galhardetes ambulantes, guarda-cavaletes, balançadores de bandeiras e entregadores de santinhos, pra ganhar 50, 100 reais por semana talvez. São literalmente usadas pela classe política, cujo poder econômico baseado em vultosas doações de campanha permitem a contratação desses fantoches ambulantes que, sem o saber, fazem a apologia da sua própria miséria, quando empunham a bandeira dos mesmos algozes que vão abandoná-los pelos próximos quatro anos. E não podia ser diferente mesmo: se todas aquelas pessoas tivessem emprego, saúde, educação, transporte, moradia e todas aquelas velhas promessas de campanha realmente cumpridas, talvez não precisassem se prestar a isso. Quando é que essas pessoas vão entender que são exploradas por elementos que se servem da política em vez de servir à política?

18 de agosto de 2012

Votar nulo é um desperdício e não anula a eleição

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Votar nulo é um desperdício e não anula a eleição

Toda vez que estamos nas vésperas de uma eleição, vemos campanhas para o voto nulo nas redes sociais, especialmente dos setores mais radicais da esquerda e daqueles que optam pela posição mais cômoda. Alguns destes cidadãos afirmam que votam nulo porque “políticos são todos iguais, e assim que chegam ao poder, eles mudam”. Quem vê imagina que esta seja uma pessoa que pesquisou todas as opções, que investigou a vida de todos os candidatos, e depois desta exaustiva labuta, chegou a esta conclusão. Mas a verdade é bem outra. Outros não confiam no “sistema eleitoral burguês”, apesar deste mesmo sistema ter aplicado derrotas vexatórias nas burguesias da América Latina, todas elas através do voto – inclusive no Brasil. Ou será que a própria vitória do Lula em 2002 não foi um desses casos? (a virada para o centro que o PT deu logo depois é outra história). 

Infelizmente, essa foi a má impressão geral que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ajudou a disseminar. Outros políticos foram apenas ruins, mas não se esperava muito deles. Mas Lula chegou ao poder carregado de expectativas que não foram cumpridas. Fortaleceu-se a ideia de que, tal como ele, todos os políticos progressistas tendem a amenizar o discurso quando alcançam o poder.

Mas nem sempre isso acontece – e mais: em alguns casos, o político muda para melhor. Vejamos dois exemplos:

  1. Getúlio Vargas, que tomou o poder para satisfazer os interesses da burguesia industrial em 1930, mas em 1950 retornou pelo voto e teria revolucionado a questão social brasileira, não fosse seu suicídio em 1954 devido a pressão dos setores reacionários ao seu alinhamento com os trabalhadores.
  2. João Goulart chegou ao poder de forma indireta, com a renúncia de Jânio em 61, mas durante seu mandato lutou pelas tão esperadas Reformas de Base, contrariando os interesses das elites e sendo deposto em 1964 também por se alinhar aos interesses sociais.

É verdade que, naquela época, as elites ainda tinham mais condições de “corrigir” um resultado eleitoral indesejado através de pressões e golpes, mas apesar desse risco ainda existir hoje, é muito mais difícil, porque as Forças Armadas perderam seu pretexto para isso: a Guerra Fria já não existe mais.

O que acontece com uma maioria de votos nulos: nada

A virada de postura do PT no poder, de quem muito se esperava, não passa de um pequeno mau exemplo. Outras pessoas alegam que votar nulo anula a eleição. Esse boato foi espalhado na internet em 2004 e até hoje há quem o leve a sério. Só que este pobre infeliz não sabe é que a única coisa que ele fez foi jogar o próprio voto no lixo.

Na hora da contagem, esses votos são considerados inválidos e simplesmente descartados junto com os votos em branco. Aí vem o segundo problema: quanto mais pessoas votarem nulo, menos votos um mau candidato precisará para se eleger. Vejamos: se todo mundo votasse, o candidato X precisaria de 50 por cento de votos mais 1 para se eleger. Mas se 60 por cento dos eleitores votarem nulo (o mito diz que, com mais de 50 por cento de votos nulos, a eleição é anulada) sobram 40 por cento dos votos válidos, e aquele candidato precisará apenas de 20 por cento mais 1 para se eleger. E isso favorece a eleição dos representantes das alas mais conservadoras da sociedade, porque essas votam e votam nos seus.

É por isso que eu digo: as pessoas precisam, de uma vez por todas, parar de repetir e de engolir tudo o que escutam por aí. Essa é mais uma mentira inventada maldosamente para enganar os eleitores e que acaba servindo a interesses de terceiros.

As pessoas têm todo o direito de votar nulo ou em branco porque não encontraram nenhum candidato que representasse seus anseios. Mas é difícil isso acontecer, tendo em vista o amplo espectro ideológico abrangido pelos atuais candidatos – desde a extrema-esquerda, passando pelo centro até a extrema-direita.

O problema de quem prega o voto nulo em nome de uma suposta revolução, é que nem vota e nem faz uma revolução.

2 de agosto de 2012

“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte 3/3)

02 agosto 0
Essa postagem é a terceira e última parte da matéria sobre o Mensalão do PT, que começou a ser julgado hoje.

Voltando a Roberto Jefferson

roberto-jefferson Dos 20 milhões de reais prometidos pelo PT em troca de “aliança política”, o PTB de Jefferson recebera “apenas” 4 milhões. O ex-deputado petebista estava perdendo a paciência.
Roberto Jefferson foi procurado por um dos arapongas de Artur Wascheck, que relatou ao então deputado a existência do vídeo que mostrava Mauricio Marinho recebendo propina e denunciando o esquema de corrupção nos Correios. Jefferson sentiu que ali tinha o dedo do governo para tentar calá-lo. Logo depois, a revista Veja publica uma matéria sobre o esquema de corrupção nos Correios supostamente comandado pelo PTB e gerenciado por Jefferson. O vídeo chegou às mãos do repórter Policarpo Júnior — o mesmo que hoje é suspeito de envolvimento com Carlinhos Cachoeira.
Sentindo-se abandonado e jogado aos leões, Roberto Jefferson resolveu falar. Em 6 de junho de 2005, o então deputado dá uma entrevista à Folha de São Paulo e revela o esquema do chamado mensalão do PT. Seis dias depois, outra entrevista no mesmo veículo, com mais detalhes do esquema. Nessa segunda entrevista, surge o nome de Marcos Valério, até então uma figura anônima no cenário nacional.

Mais dinheiro para evitar a CPI

Os partidos de oposição e a mídia se eriçaram com a oportunidade de atacar o governo. Para evitar a criação de uma CPI, primeiro o PT e seus aliados cheios de dinheiro do mensalão tentaram desqualificar o acusador. Não colou. As acusações eram bastante concretas.
Restou ao governo apelar para o velho plano B, ou seja, abrir o cofre. Segundo Figueiredo, para evitar que um terço dos senadores e deputados assinasse a criação da CPI, “o Planalto despejou 400 milhões de reais no Congresso, na forma de emendas parlamentares”. Não adiantou.

No dia 9 de junho de 2005, a CPI dos Correios deu início aos seus trabalhos

cpi-dos-correios Apesar de ter sido transformada em show, passando ao vivo nas TVs, a CPI não foi tão longe quanto deveria. Apesar de ter criado o valerioduto e de ter se servido dele de 1998 a 2004, o PSDB passou ileso. Apesar de haver dezenas de razões para colocar o então governador de Minas, o tucano Aécio Neves, sentado no banco dos réus, a CPI nunca o fez. Deixaram passar a oportunidade de perguntar ao tucano mineiro por que seu governo tinha tantos laços financeiros com Marcos Valério.
Na verdade, essa omissão é explicada como fruto de mais um dos acordos subterrâneos entre o governo e a oposição: a comissão deixaria de investigar a conexão tucana de Minas com o valerioduto e, em troca, não levou a fundo as investigações sobre o esquema milionário de caixa dois e propinas do PT. Há muito tempo eu já dizia que PT e PSDB eram farinha do mesmo saco.
Dessa maneira, por mais que produzisse boas manchetes, a CPI não conseguiu responder dúvidas que assolavam o país: de onde vieram os 55 milhões de reais movimentados pelo PT no valerioduto, e quem foram os beneficiados com esse dinheiro?
Se fosse a fundo, a CPI poderia revelar uma lista de corruptos brasileiros que certamente passaria dos cem. Em vez disso, a Comissão Parlamentar de Inquérito ofereceu à opinião pública apenas 38 nomes. Mesmo assim, figuram ali nomes importantes como o próprio Roberto Jefferson, José Dirceu, José Genoíno, Bispo Rodrigues, Duda Mendonça, Marcos Valério, entre outros. Pela primeira vez na história desse país, pessoas investigadas por uma CPI podem ir presas. Não pretendo que se faça um linchamento público das pessoas envolvidas no julgamento que começou hoje no Supremo. Desejo apenas que o STF cumpra seu papel e puna quem merecer, pois a sociedade não aguenta mais tanta impunidade nesse país. Agosto promete grandes expectativas.
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Fonte: FIGUEIREDO, Lucas. O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT. Ed. Record: Rio de Janeiro, 2006.
“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte1/3)
“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte2/3)

31 de julho de 2012

“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte2/3)

31 julho 0
Essa postagem é a segunda e penúltima parte da matéria sobre o Mensalão do PT, que será julgado nesta semana.

Marcos Valério, o operador do mensalão do PT, era operador do caixa dois do PSDB mineiro

valerio-marcos Marcos Valério Fernandes de Souza nasceu em 1961 em Minas Gerais. Desde muito jovem trabalhava em bancos, mas aos poucos foi se tornando lobista do mercado financeiro. Sua função era negociar com credores de bancos o pagamento de créditos já dados como perdidos. Assim ele ficava com uma porcentagem do dinheiro que conseguisse reaver.
Sua ambição se tornou a porta de entrada para o meio político mineiro em 1996, através de duas siglas: PSDB e SMP&B. A primeira, do partido que todo mundo conhece. A segunda, da maior agência de propaganda de Minas. Em estado falimentar, Marcos Valério ainda assim enxergou oportunidade na agência — com o apoio da outra sigla, o PSDB.
Nos anos 70 e 80, as empreiteiras serviam para fornecer caixa dois a campanhas políticas, mas desde a eleição de 1989, as agências de publicidade haviam se tornado operadoras de caixa dois preferenciais em campanhas eleitorais. Em 1996, sabendo que os tucanos mineiros estavam com grandes planos para a agência (leia-se, com intenção de usar a agência para operar caixa dois da campanha do tucano Eduardo Azeredo em Minas), Marcos Valério resolveu ajudá-la a sair do buraco. Através de manobras jurídicas, Marcos Valério sugeriu aos donos da SMP&B Publicidade a abandonar o barco velho e montar um barco novo: a SMP&B Comunicação. Por ter intermediado a transação, Valério ficava com 10 por cento da agência e o cargo de diretor financeiro. Assim ele abandonava o ramo bancário e se tornava o “publicitário” Marcus Valério.

PT no poder utiliza os métodos do PSDB

Para conseguir o dinheiro para pagar aos aliados, o PT, quando chegou ao poder, recorreu ao mesmo operador do caixa dois do PSDB mineiro, Marcos Valério. Através dos seus contatos com os bancos mineiros como o Rural e o BMG, Valério conseguia milagrosos “empréstimos” que alimentavam o caixa dois do partido. Nessa operação, o PT arrecadou a bolada de 66,1 milhões de reais.
Quando o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, precisava de dinheiro, ligava para Valério. Dessa maneira, de janeiro de 2003 a maio de 2005, o PT movimentou de forma ilegal “uma média de 63.380 reais por dia, incluindo sábados, domingos e feriados”. Segundo Lucas Figueiredo,
O dinheiro jorrou. Dívidas de campanha foram pagas, ‘compromissos políticos’ do PT com seus aliados foram saldados, corruptos enriqueceram, advogados e prostitutas receberam por serviços prestados e até a amante de um ex-deputado já morto teve a sua pensão garantida

Como funcionava o esquema

Ainda segundo o autor:
Para desaguar os recursos sem despertar suspeitas, o empresário utilizou o velho expediente já testado e aprovado em 1998 na campanha do PSDB mineiro. Na maioria das vezes, o truque funcionava da seguinte forma: a SMP&B emitia cheques nominais a ela mesma, que eram então endossados e sacados na boca do caixa. Como a SMP&B costumava movimentar anualmente dezenas de milhões de reais, ninguém notava se a empresa havia sacado 10 milhões de reais a mais ou a menos num determinado mês. Só o banco poderia desconfiar de tantos saques na boca do caixa, mas para isso Marcos Valério tinha seus amigos no Rural.

E como esse dinheiro chegava nas mãos dos destinatários?

Quando Delúbio ligava para Marcos Valério, dizia que o político X tinha que receber a quantia Y. A diretora da SMP&B, Simone Vasconcelos ligava para o parlamentar para perguntar como deveria ser feito o pagamento. De olho na farra do dinheiro, muitos políticos passaram para os partidos da base aliada do governo. Só no PTB, no PL e no PP, o número de deputados e senadores passou de 101 para 154. Na base do mensalão o PT garantiu a maioria de votos no Congresso.
O fato totalmente estranho é que o PT poderia estar comprando deputados da direita para aprovarem projetos contrários aos deles, mas não... O PT, supostamente de esquerda, pagava a partidos de direita para aprovarem uma agenda liberal, como a Reforma da Previdência, por exemplo. Difícil de entender...
Continua…
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Fonte: FIGUEIREDO, Lucas. O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT. Ed. Record: Rio de Janeiro, 2006.

Parte 3: “Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte 3/3)

30 de julho de 2012

“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte1/3)

30 julho 0
No próximo dia 2 de agosto começa o esperado julgamento do suposto esquema de corrupção no governo Lula que ficou conhecido como “mensalão”. Para aqueles que ainda duvidavam que o PT já não era mais o partido que dizia ser, o chamado “mensalão” foi um choque de realidade em suas cabeças. Estava ali desnudado por um dos próprios participantes o gigantesco esquema de corrupção na política somente superado pelo processo de privatizações do PSDB de alguns anos antes. Com base no livro O Operador, de Lucas Figueiredo, vamos relembrar em três partes alguns momentos deste vergonhoso evento, nas vésperas do julgamento no STF de alguns dos envolvidos.

Correios: a estatal cobiçada pelos corruptos

Com um faturamento de quase 9 bilhões de Reais em 2005, os Correios eram uma das estatais mais cobiçadas por fornecedores. Mas também por políticos e por partidos ávidos por nomeações nos diversos setores da empresa. Assim que chegou ao poder, o PT fez exatamente como seus antecessores: premiou os aliados com indicações em diversas estatais — dentre elas, os Correios. Ao PMDB entregou a presidência; o PTB levou a diretoria administrativa; e para si, o PT reservou a melhor parte: o setor de tecnologia. Por indicação do PTB, em junho de 2004, Maurício Marinho assumiu o Departamento de Compras e Contratações (Decam).

A gravação que desencadeou a crise

mauricio_marinho Artur Wascheck Neto era um empresário que disputava licitações para fornecer desde botas até cofres, jaquetas e capas de chuva para o governo. Sentindo-se prejudicado nos Correios, contratou arapongas para gravar um vídeo em que Maurício Marinho aparece recebendo propinas e denunciando sem saber o grande esquema de corrupção envolvendo o PTB (imagem), sob as bênçãos de Roberto Jefferson.
Roberto_Jefferson_PTB O então deputado federal Roberto Jefferson era um destes novos aliados petistas de última hora. Para chegar ao poder, o PT teve que mudar, e quem dirigiu a mudança foi José Dirceu. Em 1995 ele expulsou do partido as alas esquerdistas (alguns saíram por livre e espontânea vontade, como os ex-petistas históricos Plínio de Arruda Sampaio e Hélio Bicudo). Outra mudança: se nas eleições anteriores o PT se aliou com os partidos de esquerda, em 2002 esse critério foi para o espaço. O PT resolveu jogar seu passado no lixo e se alinhar com a direita através do PL e do PTB. O apoio destes partidos ao governo Lula não se deu por afinidades ideológicas — muito longe disso — e sim por dinheiro, muito dinheiro. Somente ao PTB, o apoio custou ao PT 20 milhões de reais. O apoio do PL custou mais 10 milhões. Além disso, só ao “marqueteiro” da campanha, Duda Mendonça, o PT devia outros 25 milhões. O partido não tinha todo esse dinheiro. Como iria resolver? Aí que entra a figura de Marcos Valério...
Continua...

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Fonte: FIGUEIREDO, Lucas. O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT. Ed. Record: Rio de Janeiro, 2006.
Parte 2 “Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte2/3)
Parte 3 “Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte 3/3)

16 de julho de 2012

Rosane Collor e a “magia negra”

16 julho 2
Rosane_CollorRaramente vejo televisão e muito menos a rede Globo, mas graças às facilidades da internet, eu pude assistir a entrevista da ex-primeira dama Rosane Collor ao Fantástico. Tirando as já conhecidas questões políticas de 1992 e a ridícula reclamação da “pequena” pensão de 18 mil Reais, o que chamou a atenção mesmo foram as revelações de prática de “magia negra” pelo casal na Casa da Dinda.
 
As pessoas costumam trocar de religião. Isso é mais comum do que se imagina. Assim como é comum também as pessoas que trocam de religião satanizarem suas crenças anteriores, tachando-as de “erradas”, de “ilusão”, de “engano”, enquanto que a nova religião abraçada é a “certa”, o “verdadeiro caminho”, a “luz”.
 
Evangélicos têm por hábito dar testemunhos nas igrejas de como eram suas vidas antes da conversão. Tais relatos costumam impressionar os presentes, e inconscientemente ou não, os recém-convertidos tendem a exagerar quando se referem à sua conduta passada ou à sua antiga religião.
 
Rosane Collor hoje é evangélica e afirma na entrevista que participou de sessões de “magia negra” com o ex-marido na época em que Fernando Collor era o presidente da República. “Magia negra” é um termo genérico que os evangélicos costumam usar quando se referem especialmente às práticas de religião afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé. Assim eles impressionam seus novos colegas cristãos quando dão a entender que se livraram de um poder “maligno”, “diabólico” e aceitaram a verdadeira fé, o caminho e a luz na religião evangélica, quando na verdade apenas trocaram de religião.
 
O que Rosane fez foi apenas repetir o que acontece todos os dias em igrejas evangélicas pelo país: pessoas que, quando precisaram de alguma coisa fácil no passado, recorreram aos “poderes” dos Orixás para conseguir; mas na hora do acerto de contas, se dizem arrependidas e abraçam a religião evangélica. E nos seus testemunhos, mostram todo o preconceito contra suas antigas superstições, associando-as a magia negra e ao diabo — este, mero personagem da superstição cristã.
 
O que a Globo fez por sua vez, quando colocou trechos da fala de uma pobre, crédula e ingênua senhora chamada Maria Cecília na entrevista, mulher que, na época, envolvida com as tais práticas de “magia negra”, se dizia responsável pela vitória do então candidato Collor, foi colocar uma cortina de fumaça na realidade. Só os mais incautos podem levar a sério essa versão, por acreditar em superstições religiosas e por ignorar toda a campanha midiática e das oligarquias em favor de Fernando Collor de Melo, escolhido pelas elites para barrar o então indesejável Lula e para implementar no Brasil o projeto neoliberal.
 
Essa entrevista é mais um desserviço global à verdade e mais uma tentativa de fortalecer o preconceito evangélico contra as religiões alheias. Lixo da pior qualidade.

24 de junho de 2012

Rio + 20: mudar para continuar tudo como está

24 junho 0
Debater uma forma de acabar com os prejuízos causados pela grande demanda de recursos naturais do sistema só tem uma saída: acabar com esse sistema. O resto é falácia.

industria-poluidora Desviar o foco. Dessa forma pode ser resumida a tentativa de líderes mundiais, setores privados, ONGs e outros grupos que se reuniram no Rio de Janeiro no fim desse mês para determinar como é possível reduzir a pobreza, promover a justiça social e a proteção do meio ambiente. Economia verde, capitalismo verde, desenvolvimento verde... a nova moda das classes dirigentes é esverdear todas as modalidades de destruição que o sistema atual causa no planeta e nas comunidades mais pobres.
Durante vários dias, tentou-se chegar a um acordo para diminuir as consequências da exploração dos recursos naturais da Terra, mas a declaração final foi considerada um tremendo fracasso. E não podia ser mesmo diferente. Por quê?
Porque já não é de hoje que os governos vêm atuando cada vez mais em sintonia com os interesses das grandes corporações e menos com o dos eleitores. Diminuir a poluição e preservar o meio ambiente, para estes grupos, representa uma única consequência: diminuição dos lucros. Como as grandes empresas, por um acaso, também são as grandes patrocinadoras das campanhas eleitorais dos atuais governantes eleitos nos países “democráticos”, fica claro que defender propostas de proteção ao meio ambiente não é necessariamente uma boa jogada.
Dessa forma é que surgem eufemismos como a moda do momento: “desenvolvimento sustentável”. Nada mais é do que um paradoxo insustentável. O sistema econômico tem o seu pilar na produção em larga escala de um número cada vez maior de mercadorias, que precisam ser vendidas em quantidades cada vez maiores — não por acaso eles são também os defensores da globalização e do mercado livre — para produzir ainda mais mercadorias, demandando mais e mais recursos naturais. Tudo isso é agravado por uma estratégia imoral das corporações capitalistas, que colocam no mercado produtos que são feitos para durar pouco e serem descartados rapidamente.

Obsolescência programada, o debate que não aconteceu

obsolescencia-programada Todos nós já notamos que, em tempos passados, os produtos, especialmente os eletrônicos, tinham uma vida útil muito maior do que têm hoje. Isso não é por acaso. Essa falta de durabilidade das mercadorias chama-se “obsolescência programada”, ou seja, os produtos são feitos para durarem apenas um determinado tempo, tornando-se obsoletos, devendo ser trocados por outro modelo, mais moderno, mais sofisticado. Qualquer criança de 5 anos é capaz de perceber as razões dessa estratégia: fazer a roda da economia girar mais rápido, gerando mais lucros para as empresas. Mas também gera mais demanda de recursos, mais destruição ambiental e mais lixo.
Está mais do que na hora de se atacar o problema de frente, com todas as letras: esse sistema econômico atual não combina com sustentabilidade. Se quisermos realmente ter condições de viver neste planeta de maneira sustentável, só existe uma maneira: excluir o lucro das grandes corporações da equação. E isso só é possível num outro sistema em que as pessoas e o meio ambiente tenham preferência, não o capital e o lucro.

22 de junho de 2012

Turismo em assentamentos israelenses: a prática de simular tiros em palestinos

22 junho 0
Trechos do artigo publicado em Net Magazine traduzido por Almir Ferreira


alex 170612 desk-116.jpg Acampamento de verão, estilo de guerra: como um peru congelado mergulhado em óleo fervente, um grupo de turistas norte-americanos desce de uma van com ar-condicionado para o calor escaldante da Cisjordânia. Distribuindo sorrisos por toda parte, eles marcham para Caliber 3, um campo de tiro local.
"Mexam-se!", o guia israelense de repente grita. "Destruam os terroristas*", ordena, e eles atacam, com armas carregadas, em alvos de papelão.
Gush Etzion tornou-se um destino quente nos últimos meses para os turistas que procuram uma experiência em Israel como nenhuma outra: a oportunidade de uma falsa operação de atirar em "terroristas". Os moradores judeus dos assentamentos próximos que cercam o local, oferecem aos turistas a oportunidade de ouvir histórias do campo de batalha, assistir a um assassinato simulado de terroristas pelos guardas e de atirar com armas de fogo no stand de tiro.

Atiradora de cinco anos



alex 170612 desk-135.jpg Michel Brown, 40, um banqueiro de Miami, escolheu levar sua esposa e três filhos para o stand de tiro com o objetivo de "ensinar-lhes valores."
Ao entrar no stand, sua filha de cinco anos de idade (imagem ao lado), Tamara, explode em lágrimas. Meia hora depois, ela está segurando uma arma e dispara balas de barro como uma profissional.
"Isso é parte de sua educação", Michel diz enquanto orgulhosamente observa a sua filha. "Eles devem saber de onde vêm e também sentir alguma ação."

* A palavra usada para “terrorista” em hebraico é "Mechabel" (mechablim para terroristas). No discurso israelita este é um sinônimo para palestino.

8 de junho de 2012

Spray de pimenta é a nova tortura de policiais sádicos

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Especialmente na época da ditadura civil-militar brasileira, as polícias atuavam em cooperação com o Exército na repressão a atos políticos, considerados movimentos subversivos contra a ordem conservadora-burguesa das elites. Faziam parte da rotina a captura, a prisão, a arbitrariedade, e principalmente, a tortura de cidadãos inocentes. São repletos os casos divulgados pela Comissão da Verdade nos últimos anos.
 
A ditadura acabou — pelo menos oficialmente — e com ela chegou a democracia e o Estado de Direito — pelo menos em tese — mas a nossa polícia, pasmem, continua a mesma. É lógico que, em pleno século XXI, não temos mais como capturar subversivos comunistas por aí, mas na democracia burguesa, qualquer movimento popular, pacífico, que junte meia-dúzia de manifestantes, já é motivo de medo e repressão. E lá vai a polícia cumprir o seu velho papel de cão de guarda das classes médias.
 
Hoje não temos o pau de arara, o telefone na orelha, o banho de mangueira, o choque e a queimação com ponta de cigarro. Mas temos o spray de pimenta, lançado indiscriminadamente às vistas — e nos olhos — de todo mundo ao bel prazer dos guardas.
 
Desenvolvido pelo FBI na década de 80, essa arma considerada pelas autoridades como “não letal” à base de óleo de pimenta é proibida em vários países, como na Austrália, pois pode causar a morte de pessoas com problemas respiratórios ou se combinada com algumas condições específicas, como a prisão em lugares fechados. A União das Liberdades Civis Americanas afirma ter documentado pelo menos 40 mortes pelo uso de sprays de gás-pimenta.
 
A Anistia Internacional emitiu um comunicado em 1997 em que considerava o spray de pimenta uma arma de tortura. No Brasil cada vez mais aparecem relatos de uso indiscriminado dessa arma pelos policiais militares, especialmente no Rio de Janeiro. Policiais despreparados, desorientados, violentos, que parecem ter o prazer de torturar a população sem o menor pudor, nos fazem um link direto com o passado de arbitrariedades da ditadura militar.
 
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Se o Brasil quiser entrar para o rol das nações civilizadas de uma vez por todas, deve começar de cima, educando os agente de segurança, ensinando-os a respeitar a população que paga os seus salários. Não podemos ser vítimas de animais fardados como esses, quando um policial incompetente se acha no direito de jogar spray na nossa cara. Eu já vi métodos mais velados de fechar os olhos da população para os nossos problemas cotidianos, mas nada tão explícito quanto o uso de spray de pimenta na cara.

5 de junho de 2012

Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

05 junho 1
imprensa-oligarquica Uma das características mais intrigantes da população brasileira era a total apatia frente aos sucessivos escândalos de corrupção envolvendo políticos e empresários, pelo menos até este ano de 2013. Muitas pessoas defendem que essa é uma marca inata do nosso povo, que elege a festa e o futebol como interesses maiores. Eu pretendo ir por outro caminho. Nossa opinião pública excessivamente moldada pelas mídias monopolistas sempre foi a maior responsável pelo desinteresse nacional pela política.

Nosso problema maior é que no Brasil, a televisão chegou antes da educação. Em outros países, como por exemplo na França, na Inglaterra e na Suécia, no final do século XIX, houve uma pressão enorme para o investimento na educação pública para todos e para a erradicação do analfabetismo. Em meados do século XX, grande parte de suas populações já era perfeitamente politizada, alfabetizada e educada.
No Brasil, por outro lado, com uma elite tacanha, egoísta e sem um projeto nacional de desenvolvimento para o país, a população ficou jogada a sua própria sorte. Em 1950, ano que marca a chegada da televisão ao país, numa população de quase 52 milhões de pessoas, mais da metade (50,5%) eram analfabetas. Nos anos 60 a situação melhora um pouco (39,6% de analfabetos) mas ainda assim um número espantoso para a segunda metade do século XX. E é esse cenário que assiste a chegada da Rede Globo de Televisão.
Com o beneplácito dos militares da ditadura e com verbas do grupo norte-americano Time-Life, a rede Globo só fez crescer no país. Sua programação teve nas novelas e no telejornalismo seus maiores destaques. Cumpria-se aqui, ainda com maior êxito, a função de moldar e domesticar a perigosa opinião pública, como foi mostrado no post anterior.

O monopólio das mídias

Se as mídias fossem diversificadas e tivessem uma variedade de pontos de vista, a rede Globo seria apenas mais uma entre tantos outros veículos de informação. O problema é que, desde os anos 60, ela concentra todos os meios de comunicação de massa (jornais, rádios, televisão, revistas, editoras, gravadoras, canais a cabo...) e com isso também os principais patrocínios, convergindo todos eles para uma única linha ideológica – a deles, não a nossa, obviamente.
Do fato que ocorre, seja ele qual for, até a notícia que chega até nós, a realidade já foi completamente moldada pelas empresas de comunicação, da seguinte forma:
Toda e qualquer notícia passa, necessariamente, por uma série de filtros antes de ser veiculada. Entre os principais filtros, destacam-se: a linha editorial do grupo proprietário; a influência das empresas anunciantes; as fontes de informação; e a ideologia dominante que impregna os profissionais da área de comunicação.

Além disso,
há uma série de práticas sistemáticas bem estabelecidas que reforçam o direcionamento das notícias e que distraem as pessoas, impedindo-as de desenvolver um pensamento crítico. Entre estas principais práticas destacam-se: a repetição, o distinto tratamento concedido às partes adversárias (tempo, momento de cessão da palavra, uso de determinados termos, qualidade do orador), a citação sem crítica, a utilização de espaços dedicados a fatos corriqueiros, o recurso ao entretenimento em programas informativos e o uso excessivo das imagens ao vivo.

Esqueça aquela velha história de “imprensa imparcial” e “a voz dos cidadãos”. Tudo isso é uma arma poderosa que induz a população brasileira, em grande parte despreparada e deseducada para o senso crítico, a ser exatamente o que as classes dominantes querem que sejamos: desinteressados, festivos, pacatos, sem visão política, telespectadores, não participantes.

Como combater a imprensa oligárquica: Marco Regulatório e democratização das mídias

Em 2012 o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) debateu a forma de impor uma nova regulação de mídia no Brasil, mas as resistências dos políticos, óbvio, são enormes. Segundo a deputada federal Luíza Erundina (PSB-SP),
Não dá para esperar que os membros do parlamento estejam abertos [ao marco regulatório] porque eles têm interesses muito claros: são concessionários de outorgas, de veículos de comunicação de massa".

Já os órgãos monopolistas de imprensa tratam o marco regulatório como uma tentativa de censura do direito de “liberdade de imprensa”.
O passo seguinte tem que ser a democratização das mídias. Não podemos assistir o mesmo conteúdo, a mesma visão política, a mesma linha editorial voltada para os interesses do capital em todos os veículos de imprensa. Isso fere o pressuposto democrático e impõe à sociedade apenas a condição de telespectador e consumidor. É preciso recuperar a imprensa como veículo de informação e de transformação, que atenda aos interesses da população, e não das grandes empresas. É preciso tirar das mãos dos oligarcas da comunicação o poder de nos dizer o que é certo e o que é errado. Só assim a imprensa será livre de verdade.

Leia também:
A culpa é do povo? Como as mídias influenciam nossas opiniões e interferem na democracia
(editado por Almir Ferreira em 8/10/2013)

30 de maio de 2012

Guerra de chapas-brancas nas mídias

30 maio 0
Guerra de chapas-brancas nas mídias
 Direita e "Esquerda" duelam para saber quem consegue apontar mais para o rabo do outro, ignorando as próprias escorregadas dos seus correligionários. Esse é o quadro político do Brasil de hoje.

Guerra de chapas-brancas nas mídias

27 de maio de 2012

Como as mídias influenciam nossas opiniões e interferem na democracia

27 maio 0
Como as mídias influenciam nossas opiniões e interferem na democracia

Todos nós estamos muito acostumados a culpar a falta de interesse do povo na política como causa principal de todos os nossos problemas. De fato, o brasileiro médio é passivo, alienado e alheio qualquer tipo de participação e envolvimento com a política. Mas até que ponto ele é o vilão da história? Será que ele não é vítima de um sistema que subverte o papel dos meios de comunicação, que molda a sua forma de ver o mundo?

Muitas pessoas têm a tendência de acreditar que as mídias apresentam os fatos de forma neutra, imparcial, sem nenhum interesse no que é veiculado. Essa crença é o primeiro passo rumo a uma perda de autonomia crítica frente ao mundo. Delegamos a terceiros a tarefa de pensar por nós sobre o que queremos.

As mídias estão completamente inseridas no jogo comercial do mercado. Sua função básica há muito tempo deixou de ser a informação e passou a ser o controle da opinião pública, para domesticar nossa visão de mundo, criando o consenso e o consumidor dos produtos que são anunciados em suas páginas ou em sua programação. E os anunciantes, aqueles que bancam de 70 a 90 por cento da receita de um jornal, de uma TV ou de uma revista, se não chegam a determinar diretamente o que será veiculado na programação, influenciam a decisão, ao colocar ou retirar patrocínio em determinada linha jornalística, de acordo com seus interesses mercadológicos.

Moldar a opinião pública norte-americana, o começo dessa tendência

É obvio que, para que essa tática funcionasse, era preciso transformar a própria ideia que as pessoas tinham sobre democracia. O cidadão deveria deixar de se interessar em participar das decisões sobre todos os assuntos que lhe dizem respeito, desde em quem votar até o que comprar, deixando tudo a cargo de especialistas em relações públicas.

Foi nos Estados Unidos, durante a Primeira Guerra Mundial, que nasceu essa subversão do cidadão atuante em consumidor passivo. Durante o conflito armado, foi criada a Commission on Public Information [1] — ou Commission Creel — para convencer a opinião pública americana, tradicionalmente isolacionista com relação aos problemas europeus, de que era importante os Estados Unidos entrarem na guerra. Através de uma série de métodos apelativos de patriotismo, emoção, amor à “liberdade”, ideia de predestinação, eles conseguiram.

Walter Lippmann [2], jornalista e membro da comissão, externou os objetivos do grupo, e é importante que saibamos reconhecer suas intenções, porque esse modelo foi posteriormente adotado em diversos países do mundo — e continua sendo até hoje. Segundo ele, essa comissão era uma “revolução na prática democrática”, em que “uma minoria inteligente” é encarregada de “fabricar cientificamente o consentimento do povo”, o que formaria uma população com uma opinião pública “saudável”, cujo papel seria a de “expectador” e não de participante nas decisões.

Já conhecemos aqui no Panorâmica Social um dos principais mentores dessa manipulação: o sobrinho de S. Freud, Edward Bernays, um dos maiores aliados das grandes corporações na função de criar psicologicamente o consenso e o desejo de consumo. Nos anos 50 ele ajudou a criar o mito, através de falsa propaganda, do perigo comunista na Guatemala, em favor dos interesses da corporação norte-americana United Fruits. O resultado foi o golpe de Estado com o apoio da CIA em 1954, que derrubou o governo democraticamente eleito do país.

Dez anos mais tarde, o mesmo método, a mesma mentira, a mesma propaganda, a mesma CIA ajudaram a derrubar outro governo democrático latino-americano: o de João Goulart no Brasil. Um ano mais tarde, em 1965, com apoio e investimento da empresa norte-americana Time-Life, nascia a Rede Globo de Televisão. Coincidência?

Vamos ver no próximo post como a mídia controla desde então a opinião pública no Brasil.

Próximo post: Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

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[1] BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico. Um curso completo de autodefesa intelectual. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2007
[2] Idem

8 de maio de 2012

Superação do capitalismo: uma certeza, muitas dúvidas

08 maio 0
 Nós somos 99 por cento
 
Fechando as postagens que pretenderam mostrar até aqui como começou e para onde está indo o atual movimento mundial de contestação ao capitalismo, chegou a hora de ver as características das reivindicações, suas formas de atuação, suas conquistas e seus rumos daqui por diante.
 
Uma certeza que marca os protestos dos diversos movimentos sociais pelo mundo: o capitalismo e o mercado fracassaram rotundamente em suas promessas de gerar riquezas e prosperidade para todos. As dúvidas: qual das dezenas e dezenas de propostas é ideal para superar este modelo? Existe alguma? Deveria haver uma conjunção de propostas? O que manter? O que descartar? Infelizmente, parece que as pessoas que contestam o sistema andam falhando em deixar claras essas respostas.
 
Conforme foi mostrado na segunda postagem sobre a série, a grande maioria desses novos movimentos, fragmentários e diversificados, teve inspiração no movimento zapatista, cuja figura mais destacada é a do subcomandante Marcos, chamado de “Che Guevara pós-moderno” (como se isso fosse um elogio...). Os zapatistas, conforme deixaram claro no encontro internacional promovido em Chiapas em 1996, se recusaram a propor soluções globais ou modelos para a crise global. Eles propõem soluções locais, e cada local teria suas próprias e especificas demandas. A deles, por exemplo, é autonomia política.
 

O Culture Jamming

 

coca-cola A Coca-Cola ama (“o lucro”)

 
Por se inspirarem em tal exemplo, os atuais movimentos sociais se recusam a admitir quaisquer ideologias como forma de confrontar o capitalismo; seus líderes recusam o papel de líder, como vemos nos atuais protestos na Espanha e em Nova Iorque, e cada qual aponta soluções diversas para a superação do atual modelo político-econômico. Vejamos alguns exemplos, de forma bem resumida:
 
· Nos Estados Unidos, o irreverente “pastor” Billy (na verdade, o ator Bill Talen) fundou a Church of Stop Shopping (Igreja Pare de Comprar), que critica o consumismo absurdo da sociedade norte-americana, indo nas lojas Starbucks “pregar” contra as grandes corporações.
· O California Department of Corrections é uma coalizão secreta de sabotadores da publicidade, dedicada a “corrigir” os anúncios de propaganda. Com tinta, spray, papel, etc. eles “retrabalham” os outdoors, revelando a verdade por trás de slogans que te induzem a comprar. (clique nesse link para ver algumas de suas “correções”) 
· Uma rede global anticapitalista chamada Fanclubbers tem uma tática que consiste em comprar produtos de grandes marcas — especialmente em locais cheios — e logo em seguida devolvê-los, com uma mensagem. Em Londres, dezenas de militantes do Fanclubbers compareceram em uma loja da Nike, compraram lotes de camisas da marca e logo em seguida devolveram, para o espanto dos demais consumidores e dos vendedores. A alegação era que todas as camisas vieram com marcas de sujeira — as marcas eram o logo da Nike...
· O Biotic Baking Brigade (BBB) é um movimento californiano voltado para a justiça social, os direitos da mulher, da natureza e dos animais. Sua forma de protesto é esfregar, em atos públicos, tortas de coco orgânico no rosto de políticos, economistas e celebridades que consideram inimigos.
 
Tais movimentos são criativos e interessantes, podendo apresentar resultados imediatos, mas e a longo prazo?
 
Não sei até onde vai esse movimento internacional de contestação ao capitalismo. O sistema tem o poder de absorver e domesticar todos os movimentos de contestação desse tipo, tornando-os parte do próprio sistema. A GAP, um dos alvos favoritos dos ativistas, chegou a exibir bandeiras vermelhas e falsas pichações em suas vitrines como forma de publicidade. O símbolo da Anarquia, as camisetas de Che Guevara e os moicanos são exemplos claros disso.
 
Ao descartarem todas as ideologias e as lideranças como algo ultrapassado, eles fazem um favor ao capitalismo. Combater a ideologia capitalista-liberal-burguesa sem um quadro determinado de reivindicações de superação do próprio capitalismo, e sim com uma miríade de pequenas reformas e protestos inusitados, me parece uma medida bastante superficial e totalmente inócua. Qual o problema dos líderes? Liderança não tem que ser uma imposição de cima para baixo, mas um posto conquistado de baixo para cima. Seguir uma liderança conscientemente, seguir uma grande ideia, não é submeter-se passivamente, é fortalecer ideais e centralizar ações num objetivo claro. Do jeito que está, o capitalismo agradece.

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