As contradições das áreas econômica e social do Brasil nos dez anos de BRICS

brics Nos últimos dez anos o Brasil é tido e havido como um país que vem assumindo a cada dia a sua condição de potência econômica. Mas até que ponto este otimismo é sentido pela grande maioria da população comum do nosso país, que não faz transações bancárias, não compra ações na Bolsa e não participa diretamente dos ganhos da economia?


vende-se-o-brasil Havia um tempo em que as pessoas, confiantes no potencial do nosso país, bradavam que o Brasil era o país do futuro. No entanto, as promessas e as esperanças da era pós-ditadura-civil-militar pareceram se dissolver em pessimismo, com a desastrosa década de 90, que começou com o fim do mandato do governo Sarney, cuja política econômica legou uma inflação estratosférica que tirava o poder de compra do brasileiro em questão de horas. A seguir veio o governo corrupto de Collor de Mello, impedido pelo Congresso e substituído pelo governo-tampão de Itamar Franco, antes da chegada da onda neoliberal comandada por Fernando Henrique Cardoso. Este, se por um lado, ganhou os louros da estabilização da moeda, também ficou marcado por crises econômicas incontroláveis, sucateamento dos serviços públicos, desempregos em massa, apagões, e agora também por conta de um dos maiores esquemas de corrupção jamais vistos no Brasil e que acaba de vir à tona, durante o processo de entrega do patrimônio público a estrangeiros a troco de propinas, conforme é denunciado no bombástico livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr: A Privataria Tucana, cuja resenha estará estampada aqui no Rama em breve.

A virada de rumo na política

lula povo A chegada do século XXI e da rejeição do modelo econômico neoliberal de FHC por parte dos brasileiros na eleição presidencial de 2002 fez bem ao Brasil. Se o governo do PT também teve problemas sérios de corrupção a partir de então e também não foi capaz de aprofundar as mudanças que o povo queria, por outro lado conseguiu dinamizar a distribuição de renda, a ascensão de milhões de pobres para a classe média, o fortalecimento do mercado interno e a diversificação de países importadores de nossos produtos. O vislumbre desse novo país que surgia contribuiu para que o economista inglês Jim O’Neill incluísse o Brasil no seleto grupo de países emergentes que, num futuro próximo, se tornariam as novas potências mundiais. Os outros eram Rússia, Índia e China, que em 2010 ganharam a companhia da África do Sul, acrescentando assim um “S” (de South Africa) no acrônimo BRICS. Passados dez anos, parece que o futuro profetizado finalmente chegou para nós. Chegou?

A contradição entre o capital e o social

pobreza Existe uma grande contradição nos números do Brasil. Somos a segunda economia do bloco, atrás apenas da China. Nosso PIB hoje é de impressionantes 2 trilhões de dólares e em breve, segundo algumas projeções, seremos a quarta ou a quinta economia mundial. O que isso representa para a maioria dos cidadãos?
Por enquanto, muito pouco. É claro que os programas de ajuda governamental a casos mais imediatamente prioritários, como o Bolsa-Família, têm contribuído; o país vem crescendo, empregos têm sido gerados, mas o foco das análises sempre tem um cunho econômico, e não social. Por conta desse tipo de análise, não se chama a atenção sobre o fato de que ainda somos o 84º país no índice de desenvolvimento humano (IDH), que mede quesitos como qualidade de vida e educação. Algo está muito errado nesta discrepância.
Se o Brasil não corrigir essa calamidade social o mais rápido possível, apenas aumentará o já profundo fosso entre ricos e pobres no país. De acordo com o Índice de Gini, que calcula a desigualdade social, o Brasil passou de 0,61 pontos na escala para 0,55 entre 1993 e 2008 (quanto menor o valor, melhor o índice), uma pequena e razoável melhora. Nosso país foi o único do BRICS que conseguiu diminuir a desigualdade social na última década, mas mesmo assim, o Gini do Brasil é o maior entre todos os membros do BRICS e o dobro da média dos países ricos: no Brasil, 10% dos mais ricos ganham 50 vezes mais do que os 10% mais pobres.
Dessa maneira podemos perceber que o futuro chegou, mas apenas para alguns poucos setores da sociedade brasileira, não para todos. O tempo, como já dizia Einstein, é relativo, diriam os cínicos como Delfim Netto, ministro da economia da época da ditadura, que defendia que era preciso deixar o bolo crescer primeiro para depois reparti-lo. Pois já se passaram quase trinta anos desde então, o bolo cresceu e as classes dominantes do Brasil continuam se lambuzando de glacê, enquanto a maioria da classe trabalhadora ainda aguarda diante da mesa a sua devida parte. Afinal, quem é que faz o bolo?