Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

24 de novembro de 2011

Pela primeira vez, Brasil poderá ter imposto sobre fortunas para financiar a Saúde Pública.

24 novembro 0
esmola_saude_publica Você está cansado de pagar impostos? Você tem razão. O Brasil é o país onde a carga tributária é uma das mais pesadas no mundo. Mas os ricos até pouco tempo não contribuíam proporcionalmente à sua renda, ficando livre de grandes impostos sobre a fortuna. Mas isso está prestes a acabar.


kassab_saudejt Todo mundo sabe que a Saúde Pública no Brasil vai de mal a pior. Quem precisa de atendimento nas emergências e nos postos de saúde sabe muito bem o que é passar um inferno em busca de atendimento. Pra piorar, o Ministério da Saúde acaba de informar que existe a estimativa de que 1 milhão de brasileiros tenham algum tipo de câncer nos próximos dois anos — e é justamente nos hospitais públicos de alta complexidade que estas pessoas recorrerão.
Para arcar com os custeios de toda essa demanda, o governo está propondo a criação de alguns impostos — e isso já começa a causar alvoroço entre alguns setores da burguesia brasileira.
A classe média brasileira está tão impregnada da ideologia das elites, está tão submetida aos caprichos das classes dominantes, que ecoa roboticamente os protestos dos ricos e poderosos neste país. Nesta última quarta-feira, a Comissão de Seguridade Social e Família aprovou um relatório que traça as mazelas do Sistema Único de Saúde (SUS) bem como algumas possíveis soluções, como aprovar novos tributos para financiar o setor.
Aí você há de pensar, engrossando o grito das elites: “mais um imposto? Já pagamos muitos impostos, não aguentamos mais!!” Quem paga muitos impostos, cara-pálida?
Historicamente, o Brasil resolveu colocar todo o peso de sua carga tributária no consumo, e não na renda. Isso quer dizer que todo brasileiro, seja ele um trabalhador que ganhe um salário mínimo ou o bilionário Eike Batista, paga o mesmo valor de imposto quando consome, por exemplo, um quilo de arroz ou um litro de leite, alimentos essenciais. Se o Brasil optasse pela forma mais justa de tributação, o pobre pagaria menos pelos alimentos básicos, e pelos seus luxos o Eike pagaria mais.
O que o governo pretende agora, caso não recue ante a choradeira das elites reverberadas pela classe-média, é tributar…
…grandes fortunas, como, por exemplo, o patrimônio sobre jatinhos, helicópteros, iates e lanchas, a tributação de remessa de lucros para o exterior, além da criação de um imposto sobre grandes movimentações financeiras (similar à extinta CPMF) para transações acima de R$ 1 milhão. (fonte)
Hoje na rádio CBN, a jornalista Roseann Kennedy disse que acha o assunto “polêmico”, porque o governo “não vem fazer publicamente esta discussão”, o que não é verdade. A jornalista está é muito apreensiva. A seguir, de forma totalmente cínica, afirma que “vem de novo esse fantasma (sic) de tributar novamente mais ainda a população” (!?) (ouça o áudio abaixo)


Tem que ser muito cara-de-pau para tentar jogar uma falácia dessas pra ver se cola. “População”? Que população é essa que tem jatinho particular, grandes fortunas acumuladas, que faz transações acima de 1 milhão e remete lucros para o exterior?? Essa jornalista pensa que nós somos otários não é?
É preciso estarmos atentos a essas mentiras que serão contadas nas redes tradicionais de mídia daqui por diante, para que não sejamos iludidos e possamos defender essa medida importante, que pretende fazer quem ganha mais pagar mais, como deveria ser a lógica. Fique de olho para não cair na conversa das classes dominantes.

8 de novembro de 2011

Cinegrafista foi vítima do jornalismo-espetáculo da imprensa brasileira

08 novembro 0
cinegrafista_band Nesse domingo passado (6/11) aconteceu aquilo que mais cedo ou mais tarde era esperado: um cinegrafista morreu na cobertura de uma ação policial no Rio de Janeiro. A cada ano que se passava, os jornalistas estavam mais envolvidos nas operações, participando ao vivo direto do confronto. Agora, com a morte de Gelson Domingos, emissoras e órgãos representativos de jornalistas prometem rever esse tipo de cobertura.


embedded reporter A tendência de levar o telespectador para dentro dos acontecimentos começou na terra do show business. Nos Estados Unidos, grandes tragédias naturais, perseguições policiais e guerras são cenários perfeitos para repórteres eloquentes e sensacionalistas prenderem a atenção dos telespectadores ávidos pelo jornalismo de espetáculo. Essa tendência foi levada à Guerra do Golfo pela CNN em 1991, seguidas por outras redes como a ABC. Na Guerra do Iraque em 2003, os bombardeios às cidades iraquianas eram aguardados com grande expectativa por câmeras estrategicamente localizadas para mostrar o que mais parecia o show de fogos do Réveillon de Copacabana. E os âncoras da TV narravam com entusiasmo cada explosão que transformava a noite em dia no Iraque. Nos dias seguintes diziam: “Se você perdeu, daqui a instantes repetiremos as imagens do bombardeio”. E repórteres com coletes à prova de bala e capacetes de guerra (os chamados embedded reporters) davam o tom dramático do “showrnalismo” direto do front de batalha. Não ia demorar muito para que essa tendência americana chegasse à imprensa do nosso país.
Em 2010 a Globo tirou Fátima Bernardes do frio e informal estúdio do Jornal Nacional e a levou para o Morro do Bumba, em Niterói-RJ, logo após o deslizamento que matou mais de 500 pessoas. Enquanto as noticias eram dadas, ao fundo podia-se conferir toda a tragédia, destruição e desespero dos sobreviventes, que deixaram de ser vítimas por alguns instantes para se tornarem pano de fundo do Jornal. Mas essa tendência de jornalismo sensacionalista ficou mais evidenciada na cobertura dos confrontos entre traficantes e policiais nos morros do Rio de Janeiro.
Para James Fallows, jornalista americano, autor de "Detonando a Notícia" (Civilização Brasileira):
"Há um dilema para o jornalismo do mundo ocidental capitalista. Por um lado, trata-se de um negócio. É preciso gerar lucro com as agências, revistas, emissoras e jornais. Temos que ser pagos pelo nosso trabalho. Por outro lado, sempre foi mais que um simples negócio. Sociedades democráticas exigem um jornalismo atuante que passe às pessoas as informações necessárias para que tomem suas decisões e possam ter uma visão crítica das fontes de poder. O problema ocorre quando a visão de negócios atropela a função democrática. Aí começa o desequilíbrio".
jornalismo-espetaculo Deixando de lado seu papel na informação dos fatos necessários à sociedade e seguindo a influência das TVs comerciais americanas, inseridas na lógica de disputa concorrencial por audiência baseadas no jornalismo espetáculo, as TVs brasileiras passaram a colocar repórteres e cinegrafistas dentro dos confrontos, em busca dos episódios mais dramáticos. Cenas de pessoas desesperadas correndo dos tiros enquanto repórteres com coletes e cinegrafistas trêmulos (os embedders cariocas) trazem para dentro de nossas casas os desesperos dos conflitos armados nos morros cariocas. Balas traçantes de fuzil, pistolas, metralhadoras e gritos fazem parte da trilha sonora desse show de horrores. No último domingo, a vítima dessa tragédia social não foi o policial, nem o traficante, nem o inocente: foi o cinegrafista Gelson Domingos, colocado dentro do conflito armado em nome do nosso jornalismo-espetáculo.
Agora as associações de jornalistas e ONGs fazem protesto, mas nunca questionaram a intenção desse tipo de jornalismo. Transformar a tragédia em show é imoral e não serve aos interesses da sociedade brasileira, só atende a expectativa de uma mídia cada vez mais comercial e voltada apenas e tão somente para os índices de audiência. Que a morte de Gelson sirva ao menos para que as emissoras revejam esse tipo de conduta da imprensa brasileira, para que ela volte a servir à sociedade da melhor maneira.


5 de novembro de 2011

O político brasileiro que se tratou no hospital público

05 novembro 0

sus Nesses tempos em que as pessoas sugerem a políticos que se tratem de suas doenças em hospitais públicos para verem o que é bom pra tosse, o que elas pensariam se soubessem que um deles realmente tivesse feito isso? Diriam “ah, você está brincando não é? Político brasileiro se tratando em hospital público? Conta outra...”. Pois foi exatamente isso o que fez o sociólogo e deputado Florestan Fernandes.

 

lula Hoje em dia há uma campanha pelas redes sociais pedindo para que Lula, diagnosticado com um tumor na laringe, faça o tratamento pelo SUS. Demagogias ou sinceridades à parte, o fato é que o sistema público de saúde no Brasil é uma vergonha, que não serviria nem para tratar de gado, quanto mais de seres humanos. Há 16 anos atrás, quando o governo neoliberal de FHC sucateou todo o serviço público em nome do estado mínimo (nessa época órgãos de imprensa, engajados no projeto neoliberal, passaram a diminuir o Estado até no nome, grafando-o com “e” minúsculo), a coisa era ainda mais alarmante. Pois foi justamente nessa época que Florestan Fernandes foi diagnosticado com uma hepatite, adquirida numa transfusão de sangue, em 1995.

florestan-fernandes- Florestan nasceu na cidade de São Paulo em 1920, filho de uma lavadeira e de pai desconhecido, e logo teve que trabalhar como engraxate e garçom desde os seis anos, entre outras coisas, mas se interessou pelos estudos. Licenciou-se pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras na Universidade de São Paulo-USP em 1943 depois de muitas dificuldades. Nos anos da ditadura foi preso e exilado político. Ao voltar ao Brasil no período pós-ditadura, elegeu-se deputado federal constituinte em 1986 pelo PT, tendo papel de destaque na defesa da Educação pública de qualidade.

Florestan ficou marcado pela defesa da população pobre não apenas nos trabalhos acadêmicos ou nos debates parlamentares, mas também no dia a dia. Tinha aversão a privilégios, e fazia questão de lembrar suas origens humildes. E foi assim até os seus últimos dias de vida, quando era bastante reconhecido em todo o mundo como um dos maiores sociólogos do Brasil e um político de renome nacional.

Em 1995, depois de uma transfusão de sangue, Florestan contraiu hepatite C, tendo ficado bastante debilitado. Depois de uma severa crise hepática, ele foi sozinho buscar atendimento num hospital público. Seu filho o encontrou mais tarde na fila de atendimento, do mesmo jeito que qualquer pessoa “comum”. Apesar dos apelos, Florestan se recusou a sair da fila, sendo convencido a muito custo por um médico a ser atendido imediatamente.

Mais tarde, em estado mais grave, o médico afirmou que a única solução seria um transplante de fígado. Fernando Henrique Cardoso, que fora seu aluno (fato que causaria grande desgosto a Florestan anos depois quando FHC tornou-se presidente) ofereceu até a possibilidade de um tratamento nos Estados Unidos. Florestan recusou, alegando que tinha muitas pessoas na fila antes dele. Só aceitaria se fosse para todos.

Florestan conseguiu afinal ser operado no Hospital das Clínicas, mas seu transplante de fígado foi mal sucedido. Florestan veio a falecer seis dias depois, aos 75 anos de idade. Seu legado como sociólogo e como político já era consagrado, mas seu exemplo de coerência coroou uma vida dedicada à causa dos desfavorecidos, fator que era refletido em seus trabalhos acadêmicos e em sua luta pela educação. Quem dera que nosso país contasse com mais homens dessa honradez, pois assim, quem sabe, esses exemplos de vida não fossem tão raros.

florestan

1 de novembro de 2011

Sete bilhões de bocas para alimentar

01 novembro 0
Sete bilhões de bocas para alimentar

No dia 31 de outubro de 2011, conforme noticiado em todo o mundo, chegamos à marca de 7 bilhões de pessoas no planeta. Está achando muito? Na época os debates causavam grande alarde, levantavam possibilidade de catástrofe e guerras, ressuscitavam teorias malthusianas, um cenário terrível para o futuro. Pois saiba que em 2050 seremos 9 bilhões, e a primeira preocupação que surge é: como alimentar tantos seres humanos? Será que vai faltar comida?

Se hoje já existem 1 bilhão de pessoas famintas no mundo — você há de pensar — o que será daqui a 40 anos, com 9 bilhões de pessoas? Pois fique você sabendo que hoje o planeta já seria capaz de alimentar todo esse contingente de pessoas e muito bem. Segundo documentário de Silvio Tendler, (O veneno está na mesa), hoje produzimos três vezes mais comida do que somos capazes de consumir. Então onde está o problema?

Má distribuição e desperdício

É fácil deduzir: primeiro, o problema está principalmente no sistema econômico mundial, que permite que haja uma monstruosa perda de comida por um lado, e escassez brutal de outro. Porque comida é mercadoria, lógico. E está onde se pode pagar mais por ela.

E mais: de acordo com o economista norte-americano Mancur Olson, tanto no mundo rico quanto no pobre, uma proporção impressionante de alimento apodrece antes de chegar às mesas. O número varia entre 30 e 50% de toda comida produzida. Nos países pobres, investir na infraestrutura do setor agrícola exigiria gastos, o que afetaria, num primeiro momento, a fatia dos lucros. Aí não pode. Conclusão: ratos, camundongos e gafanhotos comem as colheitas nos armazéns — em vez de silos refrigerados, os grãos são amontoados no chão e cobertos com uma lona; leite e vegetais estragam ou vazam durante o transporte. Nos países ricos o desperdício é diferente. A fartura faz a metade da comida dos mercados, lojas e restaurantes irem para o lixo antes de ser consumida. Só nos Estados Unidos este desperdício somou (pasmem!) 43 milhões de toneladas de alimentos em 1997! Cem quilos de comida por pessoa indo pro lixo todo ano na América!

Os problemas são bem outros

Antes de sair por aí defendendo ideias malthusianas e bolsonarianas, saiba que a agricultura já produz alimento para todo mundo, como já foi dito. Um estudo de 1996 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) estimou que o mundo produzia alimentos suficientes para fornecer a cada homem, mulher e criança do planeta, 2.700 calorias diárias, várias centenas a mais do que o necessário (por volta de 2.100). Hoje o número é mais otimista, e teríamos capacidade de alimentar 21 bilhões de bocas existentes  -- três vezes mais do que o necessário.

Fascistas aproveitam para propor controle de natalidade autoritário (para pobres)

Defender medidas fascistas como a castração de seres humanos pobres como uma medida razoável de controle populacional é algo, no mínimo, canalha de se fazer. Pode-se discutir se 7 ou 9 bilhões de pessoas são números adequados, mas jamais defender medidas autoritárias, simplistas, de cima pra baixo, para a solução do problema. Além de egoísta, a medida é ilusória e ineficiente, já que não ataca o problema na raiz. Via de regra, pessoas mais pobres e com menos estudos têm mais filhos porque, na ausência do Estado, são esses que vão prover a “aposentadoria” dos pais, quando estes não tiverem mais forças para trabalhar no campo, e cada vez mais, nas grandes cidades. Além do mais, está mais que provado que o maior nível de estudo contribui para que as pessoas tenham melhores empregos e seguridade social nas cidades, e com isso tenham também bem menos filhos. Não é outra razão senão esta porque na Europa têm-se até taxas negativas de crescimento vegetativo. Nada de castração, nada de controle de natalidade. Simples opção consciente, como deve ser.

Não se preocupe, sua comida estará garantida para os próximos 40 anos. Felizmente você não vive num país asiático ou africano, onde a exploração capitalista histórica atrasou o desenvolvimento local a ponto de hoje a agricultura incipiente e arcaica dessas regiões não dar conta de alimentar sequer seus habitantes. Não há nada com o que nos preocupar. Ou será que há?

Com informações da revista Carta Capital nº638, pp.42-56