Sobre os fundamentalismos religiosos

Em julho de 2011, Anders Behring Breivik, um ativista norueguês da extrema-direita, considerado “fundamentalista” cristão, provocou a morte de 76 pessoas, e feriu quase 100 em dois atentados naquele país. Muito se enfatizou o aspeto extremista de sua conduta, como se fosse um lunático ou alguém que tivesse passado dos limites.

Queremos chamar a atenção para para um detalhe importante: quando acontece um caso como esse, é comum a mídia em geral tratar os religiosos que o praticam como fundamentalistas, por serem uma parcela menor com métodos questionáveis dentro de determinada religião, que seria, no seu âmago, boa, pura e inocente. Mas eu vejo de modo um pouco diferente. Na verdade, chamamos de fundamentalistas aqueles que praticam a religião ortodoxamente, rigidamente, fielmente, e portanto, são os verdadeiros religiosos. Explico adiante.

Fundamentalistas, na verdade, são religiosos autênticos

O fundamentalista religioso (fundamentalismo: "doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal  dos  textos religiosos") na realidade, é o verdadeiro religioso, porque não cria nenhum juízo de valor sobre as consequências dos seu atos, ele acredita na veracidade incontestável de sua fé e de seus textos sagrados, que, para ele, são atemporais, devem ser livres de interpretações subjetivas, moderações e suavizações. Ao contrário do que se diz, é ele que pratica a ortodoxia da sua religião, ou seja, segue os dogmas corretamente. Portanto, se o livro sagrado que ele cultua afirma que o seu deus é o único e verdadeiro e que todos os outros religiosos de outras fés são perigosos, infiéis, que devem ser convertidos ou combatidos, então ele o faz da melhor forma que lhe convir. Não raramente acham que atentados e guerras santas são a melhor forma de combater os infiéis e defender a sua religião.

Leia aqui os trechos do Alcorão que inspiram o terrorismo islâmico

Os que se dizem religiosos, mas não são “fundamentalistas”, e que até os condenam, na verdade são, estes sim, heterodoxos, religiosos por conveniência ou religiosos de ocasião, por medo, comodismo, vontade de estabelecer aprovação social, salvação pelo menor esforço, ou outra situação qualquer. E acham que estão fazendo muito bem. No entanto, não estão seguindo fielmente as determinações de deus e de sua religião como deveriam. Felizmente, para nós, (os não-religiosos, agnósticos e deístas), enquanto cidadãos de um Estado laico (pelo menos no papel), religiosos fajutos não-praticantes deste tipo são cada vez mais comuns e bem-vindos.

Religiosos moderados optaram por fé sem sacrifícios

Fundamentalistas são os verdadeiros religiosos, tentando corrigir os desvios que suas religiões foram obrigadas a fazer nas Eras Moderna e Contemporânea – na verdade, suavizações e relativizações de interpretação – por causa do advento da ciência e da razão, especialmente a partir do século XVIII. Buscam seguir fielmente todos os males e irracionalidades que suas religiões determinam historicamente desde uma época de ignorância, como passar fome, abstinências sexuais, não usar eletricidade nos sábados e etc. porque assim determinou deus. A religião, realmente, só faz sentido se levada ao pé da letra, como mandamentos vindos direto de deus. Senão, pra que segui-la? Esse é o dilema dos religiosos moderados. Os fundamentalistas decidiram fazer uma escolha: manter a fé e abandonar a razão. Os religiosos moderados resolveram optar pela solução mais cômoda: manter a fé sem abrir mão de uma suposta racionalidade mandrake, embora precisem de um malabarismo mental para conciliar as duas áreas inconciliáveis. Mas isso não faz sentido. Quem modera a palavra de deus não a está seguindo corretamente, e, caso estejam certos sobre a vida após a morte, talvez tenham problemas na hora do julgamento celestial…  

Caminhando para o ateísmo no futuro

A religião só é tolerada em nosso meio, em pleno século XXI, porque, felizmente, em diversos países a população mundial se encontra no estágio intermediário entre seguir as religiões ao pé da letra como Anders Behring Breivik e abandoná-las completamente como algo ultrapassado, como os ateus. Neste ínterim, não seguem mais as doutrinas religiosas com muito afinco, mas não são ainda absolutamente capazes de se livrar por completo dela. Claro que em alguns locais, os cidadãos estão ainda vivendo a era fundamentalista, como os países islâmicos e os Estados Unidos, enquanto outros parecem já ter abandonado de vez as crenças religiosas, como nos países do norte da Europa. Mas o fato é que apesar disso, a maioria das pessoas se encontra no estágio intermediário caminhando para o abandono desses dogmas medievais no futuro breve. Porque se todo mundo fosse tão fiel à sua fé quanto o atirador que matou dezenas de pessoas na Noruega ou os terroristas do Estado Islâmico, ou o mundo já teria acabado, ou quem teria acabado de vez era a religião.

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