Crise no Oriente Médio desmascara conivência do Ocidente com Ditaduras

Praça Tahrir-Egito-Mohammed Abed- AFP
A crise que assistimos todos os dias se desenrolar nas ruas do Egito e em outras regiões do Oriente Médio, tem muito a ver com a ingerência causada pelos países do Ocidente sobre uma das regiões mais estrategicamente importantes para os seus interesses no planeta. Ditaduras de mais de 20, 30 anos como as de Hosni Mubarak, apoiadas pelos EUA, estão agora ameaçadas pelas forças populares que irromperam bravamente contra a polícia e o exército, reivindicando o fim da opressão e da corrupção. Pode ser o começo de uma nova era no Oriente Médio. 
A sociedade de consumo que caracteriza o mundo ocidental tem por base de seu sucesso o modelo industrial, que desde o final do século XVIII se tornou o motor do sistema capitalista. E esse motor passou no final do século XIX a ser alimentado à doses cada vez maiores de derivados de petróleo. O problema é que a Europa Central, berço onde o capitalismo moderno nasceu e se desenvolveu, carece dessa fonte energética – abundante, por outro lado, no Oriente Médio. A solução foi dominar política e economicamente a região durante anos, através do apoio a ditadores nos países estratégicos para os interesses do Ocidente. A Revolução de Jasmim, que ora transcorre no Oriente Médio, é um basta da população a este tipo de falta de respeito à sua soberania.
O conflito se iniciou na Tunísia, logo após um incidente em que um jovem vendedor, indignado com a atitude da polícia que o impedia de trabalhar, ateia fogo ao próprio corpo. A revolta se espalha pelo país, castigado pela falta de emprego e liberdade, obrigando o ditador Ben Ali a fugir da Tunísia com a sua esposa. A revolução espalhou-se pelo mundo islâmico, principalmente no Egito, onde assistimos há mais de 10 dias, conflitos entre o povo e partidários do ditador Hosni Mubarak, que há 30 anos controla o país. 
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Países do ocidente, como a França e os Estados Unidos – que gostam de levantar a bandeira da democracia e da liberdade – sempre apoiaram as ditaduras árabes, numa política de “dois pesos, duas medidas”. No caso do Egito – um dos mais populosos e pobres países da região – a alegação para o apoio a um governo ditatorial tem traços de cinismo. O ex-governador de Massachusetts, Mitt Romney, que se diz especialista em Oriente Médio, afirma que Mubarak não é ditador, e sim “uma figura de estilo monárquico”. Já o fantoche americano na região, presidente de Israel, Shimon Peres, declara apoio ao ditador e afirma: "falta de democracia é melhor que oligarquia religiosa".
A verdade, é que esse festival de hipocrisia só tem uma explicação: a ingerência do Ocidente nos assuntos do Oriente Médio responde a interesses geopolíticos próprios. Eles temem que o governo caia nas mãos de um dos dois grupos que se uniram para derrubar o ditador: a Irmandade Muçulmana, facção político-religiosa que eles associam erroneamente ao radicalismo islâmico; ou dos nacionalistas, que poriam um fim a um governo pró-EUA cultivado pela ditadura atual. O que o povo do Egito está fazendo, é tomando o controle do seu país, de suas vidas, de sua história, através da luta, da vontade e da determinação. Hoje é o dia determinado para que Mubarak deixe o governo. Como nada indica que o ditador-ancião cederá aos apelos do povo, teremos ainda muitos conflitos. Estou torcendo para o povo do Egito vencer esta batalha em prol da sua liberdade e da verdadeira soberania. Que não necessariamente é a mesma que os EUA ou a Europa acham que deve ser.

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