A Igreja e a Homofobia.

Não sou adepto praticante da homossexualidade. Sou hétero assumido. Mas por que então não me sinto ameaçado pela lei que criminaliza a homofobia, como os cristãos?

É simples. Porque a minha não-adesão ao movimento gay não é baseada em preconceitos. Não há o menor risco de que eu seja enquadrado neste novo Projeto de Lei da Câmara (PLC 122/2006) que enquadra quem prega o ódio. Mas não podemos dizer o mesmo de certos grupos religiosos.

Estes sim devem estar preocupados. Estive conversando sobre esse tema
com alguns amigos, o que me fez sentir vontade de expressar aqui o que
eu penso a respeito da homofobia de base religiosa.

Homofobia esta que está explicitamente representada pelo seu maior arauto, o pastor Silas Malafaia, um dos maiores detratores do Projeto de Lei da Câmara, que propõe a criminalização do preconceito contra homossexuais. A base de seus argumentos vem da bíblia, o livro sagrado dos cristãos. Eles, os crentes, acreditam que homem e mulher nasceram biologicamente determinados a cumprir funções reprodutivas, e que o homossexualismo estaria "colocando em risco o futuro da espécie humana". Segundo os devaneios religiosos de Malafaia, "Deus fez macho e fêmea", e por esta razão não se pode admitir em hipótese alguma que este macho, ou esta fêmea, tenha o direito de opção sexual.

Usar a bíblia como base para propagar preconceitos não é uma coisa anormal.
Este livro já foi usado ao longo dos séculos para justificar uma série de ignomínias contra povos e etnias, em defesa da escravidão e da submissão feminina. Todas estas práticas um dia foram toleradas como normais, mas foram sendo derrubadas aos poucos, quanto mais o ensino e a sociedade foram se laicizando (não tanto quanto deveriam). Homossexuais são agora o novo alvo da ira religiosa, porque se a lei for aprovada, pastores como Silas Malafaia não poderão mais destilar seu rancor preconceituoso de cima de seus púlpitos.

Outra coisa que eu sempre fico ressabiado, é quando se evoca a "família"para se justificar a defesa de certos valores. O que me vêm a cabeça logo é a reacionária "Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade". Um movimento de senhoras das classes elevadas de Minas Gerais patrocinada pela Igreja Católica em 1964 que se espalhou pelos Estados mais conservadores, servindo de justificativa para a ação militar que derrubou o governo popular de João Goulart. Sempre que se alega a defesa de valores cristãos, sempre há algo mais por trás, e a história mostra bem isso.

A falsa justificativa contra a lei, principalmente dos neopentecostais - os religiosos mais exaltados contra o homossexualismo - é que ela fere a liberdade de expressão, transformando suas pregações contra os gays em "delito de opinião". É preciso neste ponto saber que liberdade de expressão não implica "poder dizer tudo o que se quer". Pessoas que abusam desse direito devem responder criminalmente caso cometam atos de discriminação por exemplo, e nisto a lei está perfeitamente de acordo com a democracia. O que é mais problemático é que as pessoas são contra homossexuais, "porque a bíblia assim determina". Talvez elas nem tivessem assim tanto com o que se preocupar, se não fosse o medo de contrariar o livro
sagrado.

O que as Igrejas vão precisar agora, é restringir seus argumentos no âmbito de suas crenças, por exemplo dizendo que homossexualismo é "pecado". Até aí tudo bem, mas não poderão tentar convencer a sociedade de que o homossexualismo é contra aos "valores da família (cristã, lógico)" e que "deus fez homem e mulher". Primeiro porque o problema já começa em "deus fez..". Nem todos admitem isso. E segundo, levando em conta que "deus" tenha mesmo feito, seria caso de perguntar: "então quem é que fez os gays? Eles foram criados do nada?"

Os crentes precisam saber que seus valores não são os valores de uma sociedade laica. Dentro de uma sociedade como essa, devemos respeitar todas as formas de manifestação política, cultural e religiosa, por mais que não concordemos com ela. É assim que eu me vejo frente a questão homossexual. Não entendo o que leva um homem a gostar de outro homem sexualmente, mas o respeito e trato como um igual, e não tento mudar a sua condição. Felizmente não estamos mais na era onde Estado e religião eram uma coisa só, e assim como o tão falado tema do aborto, questões como o PLC 122/2006 serão tratados em foro adequado, por mais que reacionários e conservadores religiosos tentem sabotar mais uma vez o avanço da sociedade brasileira.